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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

É FÁCIL AMAR UM IRMÃO DESTES

É FÁCIL AMAR UM IRMÃO DESTES

Ele é dos mais sensatos; não é o mais, mas é muitíssimo sensato. Gostaria até de ter a personalidade dele, mas não nasceu comigo essa génese e portanto, por mais que me esforce, não o consigo imitar na sua tranquilidade; além disso, cheguei à conclusão de que não consigo imitar ninguém. Nasceu em África e conviveu de perto com o cheiro dos trópicos até à idade adulta, ao invés do que aconteceu comigo. Assentou praça em Mafra e mandaram-no ir fazer a guerra para Moçambique. Regressou são e salvo e por aqui ficou até aos dias de hoje. Já tem no cardápio da vida 69 primaveras. Foi um regalo ouvi-lo falar:
- É… já fiz o número  mágico, 69.
Juro que ele estaria a pensar em 69 anos e eu a pensar no 69, número mágico mesmo, aquele que todos os homens querem alcançar antes de morrer. Casou, adaptou-se completamente à cultura europeia, mas não se esqueceu das suas raízes - fala crioulo como um papagaio e não acha que as raízes dele sejam as que vão mais fundo beber da razão, ao contrário do que pensam alguns dos nossos patrícios de sangue que, por burrice ou por pequenez, negam a consanguinidade.
Estou a falar do Zezé. Para mim, o Zezé é uma referência pela sua verticalidade, simplicidade e sensatez. Ele é guardião de uma cultura soberba, de uma sabedoria ímpar; valoriza a inteligência e o conhecimento e reconhece com parcimónia quem os tem - adora ser mediador. É uma pessoa afável. É das poucas pessoas  que ouço com atenção; sempre que estou com ele sinto-me honrado pelo tempo que me dispensa. Cala-me fundo, quando o ouço a dissertar e sobretudo faz-me rir, quando nos momentos mais acalorados me chama burro e diz que sou um nabo e que de música sou um zero à esquerda, exactamente o que digo dele aos outros tipos da família, aos que vivem lá em baixo na “província”. Está a ficar velho e noto nele a mossa do tempo a fazer efeito. Dantes gostava de jogar futebol, mas só ganhou juízo tarde, a tempo de levar, na semana que vem, uma facada no joelho, para lhe tirarem o menisco fracturado que o apoquenta.  Diz-se por aí que  joga golfe e que é um exímio  jogador; eu não sei, mas acredito nessa informação que a Lígia Santos fez questão de me garantir antes de morrer. Ontem  veio ter comigo aqui a minha casa; vinha a coxear pelo corredor adentro e trazia uma guitarra às costas, a fim de me vir apresentar as músicas que ensaiou a meu pedido, para ver se consigo dar toda a dignidade que merece o evento da apresentação do meu livro na Casa de Angola, no próximo dia dois de Março. Fomos almoçar ao restaurante “A Brasa”, pertinho da minha casa. Fez questão de pagar ele o almoço. É um prazer estar com ele à mesa. Comeu ovas grelhadas e bebeu água,  porque anda a tomar medicamentos devido às dores no joelho. Excepcionalmente, comi meio bife do tamanho de um vitelo, regado por um bom vinho.
À mesa falámos de nós, da nossa vida. Lambemos por alto a complexidade das cabeças dos dezoito mundos que vivem na “província”, sem entrarmos na vida alheia. Ele sabe que eu não gosto disso, mas eu também sei que ele não se presta a tal. Juro que há muito que tenho a convicção de que ele é um leitor meu. Acho que valoriza muito as diversas valências que diz que tenho, entre as quais a capacidade de escrever.

Saídos do restaurante, enquanto coxeava, falava-me sobre a escrita e o dom da escrita e tentava tirar de mim uma explicação sobre os meus sentimentos, para entender a motivação da escrita e o que é que sente um escritor, quando publica um texto. Zezé quer entender a utopia e o lado mágico da escrita. Quer entender e viver por dentro, nem que seja por um segundo, a soberba magia de sonhar.
Perguntou-me concretamente: - Olha lá, o que é que tu sentes quando escreves, quando jogas com as palavras, o que sentes? Sentes que os textos deixam de ser teus quando os publicas? Como vês tu os textos que escreves depois de os publicar?
Tentei explicar-lhe que eu descrevo o meu estado de alma, descrevo as minhas emoções e  sacudo as ideias que não cabem em mim; salientei que o meu objectivo é que alguém qualquer, ao ler o meu texto, se sinta identificado nele e com ele. Disse-lhe que me realizo bastante quando termino a arrumação das palavras, muitas vezes mais do que cem palavras e depois é o vazio, que dá lugar a que tudo comece de novo! Confessei-lhe que não gosto de autores que elaboram frases  quadradas em textos ocos, com o fito na pomposidade das frases, que gritam ao mundo, de megafone nas mãos, as ideias bacocas.
Passámos ambos a tarde em minha casa, agarrados às violas. Confesso que afinal, nesta matéria, estou ligeiramente atrasado em relação a ele.
E lá se foi embora, à noitinha, coxeando pelo corredor fora, com as dores que o apoquentam e com o violão já cansado às costas. Fiquei contente pela visita e triste, porque o meu coração é pequenino para ficar com as dores dele. Ao meu Irmão Zezé prometo escrever sempre com alma e arrumar as letras de forma simples, de tal jeito que ele se convença sempre, ao ler-me , que as arrumei a pedido dele. Por ser meu irmão e meu amigo arrumei estas palavras para ele, com muito amor e carinho.

Adérito Barbosa in olhosemlente

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sonhos de uma noite de inverno

Aconteceu o milagre, fiquei rico esta madrugada!
Encontrei esta cartinha na minha caixa do gmail esta manhã.
O Sr. José Manuel Leonardo acha que eu não tenho cérebro! Que posso eu fazer? Vejam então o que eu recebi!

"OFICIAL DE INFORMAÇÃO
BRASIL CONSULADO GERAL
COTONOU REPÚBLICA DE BENIN.
8 DE FEVEREIRO DE 2017
NOTIFICAÇÃO DE COMPENSAÇÃO $ 4,8 MILHÕES DE DÓLARES EM CARTÃO DE ATM

Olá

Isto é para informá-lo que a compensação de US $ 4,8 milhões de
dólares carregados em cartão ATM foi liberado a seu favor por ordem do
Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Comunidade Econômica dos
Estados da África Ocidental (CEDEAO), em conjunto com outras
agências de investigação relevantes como seu devido compensação.

Entre em contato com o advogado agora para receber seu cartão de ATM.
Reconfirmar suas informações atuais para ele para entregar o cartão
sem demora.

1. Seu nome completo ............
2. Número de telefone ...............
3. Endereço ...............
4. Cidade ...............
5. País ...............
6. Ocupação ...............
7. Idade ...............

Atenciosamente,
Jose Manuel Leonardo"

Adérito Barbosa in olhosemlente

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Casa de Angola Lisboa





Casa de Angola Lisboa - Espaço Gastronómico e Cultura
Dia 02 de Março pelas 18H00 apresentação do Livro "Clave de dó sem Dor" de Adérito Barbosa.
Apresentação Prof. Dr. António Pereira.
Conto com o calor dos meus amigos
Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Coisa de loucos



Depois de seis ou sete tentativas, lá se consegue que a telefonista nos atenda.
- Bom dia! Por favor, pretendo falar para o serviço tal.
A telefonista faz a ligação, o sinal de chamada faz-se ouvir por cinco vezes e depois cai.  É sempre assim! Não se consegue falar para serviço nenhum.
Depois daquela confusão toda na Neurocirurgia,  os médicos finalmente produziram o relatório sobre o estado da minha coluna, entregaram-no ao 1º Cabo assistente para o fazer chegar ao Serviço de Gestão de Doentes, via protocolo, para aí ser assinado pelo Director Clínico e depois ser enviado para a BASE AÉREA Nº 1, Secção de Justiça.
O nosso Cabo não remeteu o relatório para o Serviço de Gestão de Doentes, foi de férias e deixando-o na gaveta dele, como se de uma bodega se tratasse. Durante esse tempo todo, ninguém soube do relatório. O nosso Cabo regressou vinte dias depois. Liguei para o serviço de Neurocirurgia através de número directo, evitando assim a telefonista e perguntei:
- Ó fulano, o que é feito do meu relatório que ninguém o encontra?
- Está aqui comigo ainda, pois fui de férias e só cheguei hoje. Não puseram cá ninguém para me substituir e isto ficou aqui esquecido. Hoje mesmo entrego-o nos Serviços de Relatórios Médicos.
Vinte dias depois, quinta feira, dia 25 de Janeiro, dirijo-me  ao Serviço de Gestão de Doentes e  pergunto se o relatório já tinha sido assinado pelo Director Clínico.
Resposta do assistente, um soldado:
- Ainda não! Está aqui comigo! Ainda não enviei, porque tenho tido muita coisa para fazer e ainda não tive tempo; mas olhe que ele já fez mais da metade do percurso.
Por este andar protocolar entre Cabo e Soldado , Soldado e Cabo, falta de tempo um e férias do outro no meio da auto-gestão, estes dois artistas ainda desaparecem com o meu relatório.
Este documento foi pedido em Março de 2016.
Assim vai o HOSPITAL DAS FORÇAS ARMADAS!

Adérito Barbosa in olhosemlente
Foto-Google

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Sedução em jogo

Sedução em jogo

Quando já ninguém espreita,
o que sinto
saio ao pôr-do-sol
e de mansinho desço a rua,
subo a calçada além
e falo a ninguém de ninguém  
escuto o mundo
rasgando o que não escrevi.
No peito trago comigo um covil,
onde durmo com leoas
e danço com as serpentes.
Vivo amortalhado em mim,
egoísta sempre vou escrevendo
trechos só meus.
Sinto enorme desprezo pelo futuro,
no meu mundo só as vozes roucas
cantam melhor o amor.
Frustra-me a sedução ignorada
não sei o sabor dos lábios que não beijei.
Nem o sal das lágrimas que não entendo.
Peço à mulher selvagem que
deixe ao menos os meus versos bater à porta do seu coração.
Já que recusou a sedução!
Que os deixe entrar, pois então!..,
Se o rio chorou a demais gente.
Eu também posso cantar assim só para ti.

Adérito Barbosa

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Linha recta



Linha recta

Preciso de paz para sorrir
paz e tempo para dormir.
Mentiras de sorriso enganador
não sou doente nem demente.
sem nostalgia contagias
as alma até um dia.
Com sorriso puta... 
escapas por entre as nuvens 
obra do espelho enganador.
Escapa-se de mim os medos,
a solidão e as noites negras, 
escapa-me o segredo da motivação. 
Ontem e amanhã não sei!
Cheio de coisas na cabeça
custa deslizar sobre os cacos 
de um castelo-de-areia 
que não soube consertar
nem quis reparar.
Agora sei explicar
esse olhar perverso
de sorriso puta...
Ontem eu tive pressa
hoje devagar ouvi o juiz
dar-te o sabor da frustração 
e mostrar-te as manhas das manhãs.
Preciso de paz para sorrir
E tempo... pouco para dormir.
Foram três orgasmos, 
seguidas vejam só!
Sem pudor, na  Web site
com a Lucy nas horas de 
angariação casa de bordel
fina meretriz de high society
meretriz de si própria dançou   
no dia da prova do veneno.

Adérito Barbosa in olhosemlente

Publicação em destaque

Florbela Espanca, Correspondência (1916)

"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...