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segunda-feira, 13 de março de 2017

Piedade de Deus

Por piedade
Deus conferiu aos poetas a graça
De saberem  escrever cartas de amor,
De sorrir todos os dias,
De descobrir que o amor é uma mentira,
Uma invenção dos amantes
Que cativa os corações dos fracos.
Se te espreito, sou malandro
Espera o tempo passar
Os anos vão confirmar
Que o que faço por ti
Não faço a mais ninguém!
Espreito-te na penumbra
Porventura nas tuas palavras
A ausência da luz é bom
Para os olhos cor de gato
E do teu corpo basta a silhueta
Para te pintar na imaginação.
Nunca cantei de cor poemas
Sem antes ver neles versos de amor.
E Deus, por piedade, conferiu-me a graça de saber escrever cartas de amor
E viver para te amar!

Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 6 de março de 2017

A vergonha da deusa Temis

A vergonha da deusa Temis

Deusa Temis tirou a venda, largou a balança, deixou cair a espada, sentou-se no chão, segurou a cabeça, desgrenhou o cabelo de tanta vergonha quando soube que ele também tem amigos endinheirados.  Lembro-me bem de o ouvir,  o melhor Juiz do mundo, na SIC, numa entrevista miserável ao estilo moralista, afirmando  “que não tinha amigos ricos, razão pela qual  tinha que viver do seu trabalho”.
Pois bem, a mentira parece ter mesmo a perna curta. Sabe-se agora que o melhor Juiz do mundo, o tal a quem chamam de Super, também tem amigos endinheirados, a quem recorre para pedir dinheiro para as obras.
Diz-se que pediu dinheiro a um Procurador, o tal que está detido por ser suspeito de corrupção, branqueamento de capitais, violação do segredo de justiça e falsificação de documentos.
- E agora, como é?
Se o maior Juiz do mundo mandou boquinhas foleiras,  muito para além da sua competência, com comentários jocosos  sobre um processo que tinha em mãos, sobre amigos endinheirados - Onde está a moral?
Adérito Barbosa in olhosemlente
Foto-Google

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Sinto sede

Sinto sede...
só água desta garrafa bebo.
Sentado nesta soleira, juro que estou bêbado, vejo fusco a vida
e sinto a noite a vir contra mim.
Solto as amarras do coração e escuto o fluir do líquido na garganta que dói e os loucos versos de paixão que esta minha pele transpirada recita aos esqueletos mortos do armário.
Fiquei só porque não posso ter
o direito sobre o que não é meu!
Agora sou poeta, outrora fora pintor de quadros que dei cor e forma de corpo de mulher.
Lasco um pouco mais a mente, entro num lugar vazio, vejo no espelho tímido a filha de Coronel.
Não veio e talvez jamais venha, Escuta!...  A noite foi longa e nela perdi-me nas voltas que tracei. Quero saber os mistérios da meia noite e a tua boca a ler os sonetos do teu caderno, enquanto fluo-me
ao encontro da deriva do mar bravio
e revolto.
É melhor olhar de novo do alto de mim, dobrar as pernas ainda assim me permito sentar.
Pensar sem negar,
vestir sem rasgar a tua pele em mim, contornar as margens do imaginário, preencher os espaços vazios e deixar-me cair no vácuo de Galileu,
flutuar e tecer os fios da solidão de pernas para o ar.
Quero ir embora de mim
nesta noite de sede, febre e de arrepios.

Adérito Barbosa in olhosemlente

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O nosso norte

O NOSSO NORTE

Se nos perdemos um dia
será a rebolar numa praia
ou na margem de uma ria
ou então num escadaria.
Se nos perdemos um dia,
será com sabedoria
num caminho por descobrir
dentro de ti por entre a humidade
que não sabias ter.
Escutarás a voz do silêncio
a sussurrar ao teu ouvido,
marcando o doce ritmo da balada
à entrada do céu.
Nos teus lábios só o que posso
e vou querer tudo o que eles sabem.
Espera um pouco
posso dar mais, mais uma vez
sem pressa...
agora que tudo ferve,
somos feitos de suor e sabor salgado
É amor este quente odor a mel
que invade a alma, e mancha o lençol.
Com gemidos amplificados na penumbra
nadas no meu peito como lontra.
Num voo picado vindo do céu
mergulho no teu cabelo
e deixaremo-nos morrer por instantes
apenas para sonharmos
a encontrar o nosso norte.

Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Mesquinho, sonsinho e cobarde

Mesquinho, sonsinho e cobarde

Lembrando Gabriel Garcia Marquez - “o homem só tem o direito a olhar para o outro de cima para baixo quando lhe estica a mão para o ajudar a levantar-se."
Prestar contas significa "acto de apresentar em público, a um superior ou ao substituto, o movimento financeiro por que é responsável".
Acertar contas significa “confronto, quando alguém vai resolver alguma situação com outrem”.
Ninguém pediu a Aníbal para apresentar contas, que eu saiba.
Antigamente, em Jerusalém, os devedores a feirantes acertavam contas às quintas-feiras e as contas com a justiça eram feitas até à quinta feira.
Com o livro "Quinta-feira e outros dias" Aníbal quis acertar contas das quintas- feiras e dos outros dias da feira com o Sr. José Sócrates, num acto mesquinho e canalha.
Disse que desconfiou da relação de amizade entre o Sócrates e o Presidente amante da revolução bolivariana, o falecido Chávez. A diferença entre Aníbal e Chávez - um foi amado pelo seu povo e o outro apupado pelo povo sempre que saía à rua.
Aníbal foi sempre um enjoado, um mesquinho, um golpista que nunca desconfiou do BPN, nem do sistema bancário português, nem dos submarinos, nem do Portocali, nem do Dias Loureiro, nem do Duarte Lima, nem da Tecnoforma e nem tão pouco do Salgado.
Foram 40 anos a manipular com aquele ar de carneiro mal morto. 40 anos no poder às quintas e nos outros dias, bem como aos domingos, considerado o último dia da semana para os cristãos. Nem ao sétimo dia Aníbal descansou como fez Deus. Nesse dia havia missa. Era nesse dia que juntavam os agricultores à volta da igreja para vender os seus produtos - o primeiro dia de feira. O dia seguinte, era o segundo dia da feira e daí por diante até chegar o sábado. Sábado cuja origem é o termo hebraico shabbatt, considerado o último da semana para os judeus.
A relação da feira com a missa deu origem a duas palavras: freguesia e freguês.
A freguesia dizia respeito ao local onde se situava a igreja, e freguês designava aquele que se relacionava com o comércio.
Aníbal viveu sempre a soldo na freguesia e foi sempre um freguês da intriga como no caso das escutas, mantido em lume brando no tacho do poder como "fraqueiro" cobrador. O "intriguista" quer acertar contas com quem está fragilizado e fritar com óleo queimado quem não está em condições para se defender. Aníbal é um cobarde! Aníbal acerta as contas com os devedores todas as quintas e nos outros dias também.
Nunca votei nele, aguentei os vómitos quando o vi como Ministro e como Presidente. Agora tenho por ele enorme escárnio e nojo de mim, por saber que permiti ser governado por este dançarino algarvio.

Adérito Barbosa in olhosemlente

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

É FÁCIL AMAR UM IRMÃO DESTES

É FÁCIL AMAR UM IRMÃO DESTES

Ele é dos mais sensatos; não é o mais, mas é muitíssimo sensato. Gostaria até de ter a personalidade dele, mas não nasceu comigo essa génese e portanto, por mais que me esforce, não o consigo imitar na sua tranquilidade; além disso, cheguei à conclusão de que não consigo imitar ninguém. Nasceu em África e conviveu de perto com o cheiro dos trópicos até à idade adulta, ao invés do que aconteceu comigo. Assentou praça em Mafra e mandaram-no ir fazer a guerra para Moçambique. Regressou são e salvo e por aqui ficou até aos dias de hoje. Já tem no cardápio da vida 69 primaveras. Foi um regalo ouvi-lo falar:
- É… já fiz o número  mágico, 69.
Juro que ele estaria a pensar em 69 anos e eu a pensar no 69, número mágico mesmo, aquele que todos os homens querem alcançar antes de morrer. Casou, adaptou-se completamente à cultura europeia, mas não se esqueceu das suas raízes - fala crioulo como um papagaio e não acha que as raízes dele sejam as que vão mais fundo beber da razão, ao contrário do que pensam alguns dos nossos patrícios de sangue que, por burrice ou por pequenez, negam a consanguinidade.
Estou a falar do Zezé. Para mim, o Zezé é uma referência pela sua verticalidade, simplicidade e sensatez. Ele é guardião de uma cultura soberba, de uma sabedoria ímpar; valoriza a inteligência e o conhecimento e reconhece com parcimónia quem os tem - adora ser mediador. É uma pessoa afável. É das poucas pessoas  que ouço com atenção; sempre que estou com ele sinto-me honrado pelo tempo que me dispensa. Cala-me fundo, quando o ouço a dissertar e sobretudo faz-me rir, quando nos momentos mais acalorados me chama burro e diz que sou um nabo e que de música sou um zero à esquerda, exactamente o que digo dele aos outros tipos da família, aos que vivem lá em baixo na “província”. Está a ficar velho e noto nele a mossa do tempo a fazer efeito. Dantes gostava de jogar futebol, mas só ganhou juízo tarde, a tempo de levar, na semana que vem, uma facada no joelho, para lhe tirarem o menisco fracturado que o apoquenta.  Diz-se por aí que  joga golfe e que é um exímio  jogador; eu não sei, mas acredito nessa informação que a Lígia Santos fez questão de me garantir antes de morrer. Ontem  veio ter comigo aqui a minha casa; vinha a coxear pelo corredor adentro e trazia uma guitarra às costas, a fim de me vir apresentar as músicas que ensaiou a meu pedido, para ver se consigo dar toda a dignidade que merece o evento da apresentação do meu livro na Casa de Angola, no próximo dia dois de Março. Fomos almoçar ao restaurante “A Brasa”, pertinho da minha casa. Fez questão de pagar ele o almoço. É um prazer estar com ele à mesa. Comeu ovas grelhadas e bebeu água,  porque anda a tomar medicamentos devido às dores no joelho. Excepcionalmente, comi meio bife do tamanho de um vitelo, regado por um bom vinho.
À mesa falámos de nós, da nossa vida. Lambemos por alto a complexidade das cabeças dos dezoito mundos que vivem na “província”, sem entrarmos na vida alheia. Ele sabe que eu não gosto disso, mas eu também sei que ele não se presta a tal. Juro que há muito que tenho a convicção de que ele é um leitor meu. Acho que valoriza muito as diversas valências que diz que tenho, entre as quais a capacidade de escrever.

Saídos do restaurante, enquanto coxeava, falava-me sobre a escrita e o dom da escrita e tentava tirar de mim uma explicação sobre os meus sentimentos, para entender a motivação da escrita e o que é que sente um escritor, quando publica um texto. Zezé quer entender a utopia e o lado mágico da escrita. Quer entender e viver por dentro, nem que seja por um segundo, a soberba magia de sonhar.
Perguntou-me concretamente: - Olha lá, o que é que tu sentes quando escreves, quando jogas com as palavras, o que sentes? Sentes que os textos deixam de ser teus quando os publicas? Como vês tu os textos que escreves depois de os publicar?
Tentei explicar-lhe que eu descrevo o meu estado de alma, descrevo as minhas emoções e  sacudo as ideias que não cabem em mim; salientei que o meu objectivo é que alguém qualquer, ao ler o meu texto, se sinta identificado nele e com ele. Disse-lhe que me realizo bastante quando termino a arrumação das palavras, muitas vezes mais do que cem palavras e depois é o vazio, que dá lugar a que tudo comece de novo! Confessei-lhe que não gosto de autores que elaboram frases  quadradas em textos ocos, com o fito na pomposidade das frases, que gritam ao mundo, de megafone nas mãos, as ideias bacocas.
Passámos ambos a tarde em minha casa, agarrados às violas. Confesso que afinal, nesta matéria, estou ligeiramente atrasado em relação a ele.
E lá se foi embora, à noitinha, coxeando pelo corredor fora, com as dores que o apoquentam e com o violão já cansado às costas. Fiquei contente pela visita e triste, porque o meu coração é pequenino para ficar com as dores dele. Ao meu Irmão Zezé prometo escrever sempre com alma e arrumar as letras de forma simples, de tal jeito que ele se convença sempre, ao ler-me , que as arrumei a pedido dele. Por ser meu irmão e meu amigo arrumei estas palavras para ele, com muito amor e carinho.

Adérito Barbosa in olhosemlente

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