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terça-feira, 15 de agosto de 2017

Da juventude para a velhice

Martinho Lutero, disse há 500 anos: "Quem não for belo aos vinte anos, forte aos trinta, esperto aos quarenta e rico aos cinquenta, não pode esperar ser tudo isso depois."
Eu sinto que estou a passar a fronteira da juventude para a velhice. Deve ser por isso, que começo a reconhecer as minhas loucuras. Sou tudo aquilo que diz Lutero. Não fui belo aos vinte anos, nem forte aos trinta, nem esperto aos quarenta e muito menos rico aos cinquenta e oito. Já não espero ser tudo isso depois.
"Aniversário" de Fernando Pessoa, dito por mim.

Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Quem me dera


Quem me dera livrar-me
da tortura que há muito
atola a mente.
Quem me dera saber
o brilho do teu sorriso
e não ter a certeza que tenho do doce sabor dos teus lábios que nunca senti.
Quem me dera perder
esta angústia
de nunca te ter visto nua,
de não ter a certeza que tenho dessa tua nudez,
dos teus seios que sei
libertar do cárcere,
dos decotes
e do sufoco do linho do soutien,
e pô-los a esvoaçar
no afago das minhas mãos.

Quem me dera tirar-te
o vestido de cetim
sem pressa
e descobrir os relevos que imagino saber de cor.
Quem me dera ouvir
os teus sonhos quando gemes de prazer, nas noites loucas presa ao luar.

Quem me dera saber
fazer amor devagar
num tempo que vai e vem
sem pressa sentado
no baloiço quando a noite
ainda era criança.
Quem me dera ter à mão
um livro de poemas
aberto  no teu corpo,
possuí-lo com uma leitura
e vaguear pelas entranhas
até à humidade do coração, seiva quente e odor a sexo.
Quem me dera tatear
com os dedos no sonho
que nem tu nem eu entendemos.
Quem nos dera...

Adérito Barbosa in olhosemlente

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O resto é silêncio

O resto é silêncio
São seis horas da manhã, acordei cedo. Quero escrever qualquer coisa para não perder a destreza, mas não sei por onde começar. Está tudo parado, o céu está parado. Hoje nem vento, nem chuva, nem nuvens nem nada, tudo parado como se isto tudo fosse uma fotografia e eu personagem congelado nela, nem os pássaros andam por aqui, aqui não acontece nada, é um silêncio brutal, nem o cão do vizinho ladrou ainda, deve estar a dormir. Vejo que já não há ervas daninhas no quintal que danadas por estarem abandonadas decidiram crescer pelas juntas dos mosaicos à força toda e foram donas e rainhas deste quintal e do jardim por alguns anos. Agora não, agora renderam-se, catei-as uma a uma de joelhos no chão, cortei ramagem, arranquei troncos quando desconfiei que pudessem ser má vizinhança para os muros que, agora pintados de branco, orgulhosos, protegem a macieira que tem onze Maçãs Reinetas, já maiores das que vejo à venda no continente. A abacateira, que no ano passado forneceu abacates aos vizinhos da rua, e principalmente aos tipos da EDP que andaram a colocar iluminária de LED na rua, soube-o pela fofoqueira da rua: - Eles, os rapazes da EDP, com aquela coisa que sobe para poderem pôr as lâmpadas nos postes, subiram lá acima e apanharam o abacate todo, não deixaram nem uma.
Com medo que faça frio no inverno, e recomendado pela vizinha fui à loja do homem que vende recuperadores de calor: - Olhe, vá lá ao fulano tal, foi ele quem há tempos colocou o meu recuperador de calor. Lá fui eu então ver os preços e escolher o recuperador. Quando fui atendido pelo dono da loja, fiquei a saber que ele é dono de hérnias discais na cervical, tinha dores horríveis e sentia formigueiro nas mãos. Quando soube que eu era cliente assíduo dos neurocirurgiões e dos números das facadas que já levei, o homem ficou animado e por segundos pareceu-me que as dores dele se tinham ido embora. Mas não! O homem estava mesmo à rasca, porque voltou-se a queixar ainda com mais intensidade!
Com o fito em algum desconto disse-lhe: Olhe eu venho da parte da minha vizinha de seu nome Isaurinda, identifiquei o lugar e a rua.
- Já sei, já sei: é uma senhora que está numa cadeira de rodas, é aquela vivenda que tem uma abacateira? Bem… aquela abacateira… dá abacates do outro mundo e a mulher dele que estava presente no negócio sorriu, abriu os olhos quase que babava como quem diz: - É pá aqueles abacates eram mesmo bons!
Cá para mim, segundo a Isaurinda, só os gajos da EDP comeram os abacates. Mas este ano vou ficar de olho neles. O curioso é que a abacateira este ano não deu frutos na ramagem que dá para a rua, e só deu frutos nas ramagens do sector que está dentro quintal, porque será?
Uma palmeira que andava já pelas profundezas dos alicerces com os ramos quase a chegar ao céu, com ideias de fazer estragos no canteiro da rampa da garagem e do jardim também foi à vida, essa foi teimosa que se fartou. Chamei uma máquina e zás. A máquina pegou-lhe pelos cabelos e já foste. Pena foi que alguns mosaicos levantaram-se também eles e quiseram ir com ela. Mas aqui nem tudo é sossego, tem sido duro, ainda falta pintar o exterior da casa o que não se afigura ser Pera doce.

Adérito Barbosa in olhosemlente

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Caminho incerto

O caminho incerto é inclinado
é torto para todos os lados.
Devagar vou  tocando os dias
endireitando a vida
na ponte suspensa.
Sentirei a dor lá mais à frente  
quando desvendar os mistérios 
dos poemas que me fazem sonhar com a lua cheia debruçada sobre as ondas. 
E a meio, entre o ir e o ficar,
vou chegar a lado nenhum,
chafurdar a alma até encontrar a razão e arranjar paz para sorrir, ser capaz de chorar os pecados. 
Hoje quero ser a chuva
a alagar a terra de mansinho 
sem apagar as letras do amor com diplomacia e sem hipocrisia.

Adérito Barbosa in olhosemlente

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sem tesão não há solução

Tribunal de Guimarães, condenou ontem um Juiz por não ter tido relação completa com a companheira há muito tempo. A companheira de 45 anos diz que ainda é virgem!
Entre outras coisas, o Acórdão reza o seguinte: "a recusa de o arguido manter relações sexuais com a ofendida, com quem vivia em união de facto, constitui um factor atentatório da dignidade e da saúde mental e social da mulher que pelo menos tem um desejo sempre manifestado de procriar"
Assim sendo, esta jurisprudência, veda aos homens a possibilidade de se negarem a cumprir os seus deveres conjugais.
Aviso no Edital: Aos homens com manifesta incapacidade para cumprirem as suas obrigações, devem justificar essa falta de apetite sexual com atestado médico, caso contrário " Sem tesão não há solução" já dizia Roberto Freire no seu livro.

Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O corporativismo dos que se julgam intocáveis

O corporativismo dos que se julgam intocáveis

Se os Oficiais das Forças Armadas se atreverem a manifestar, devem ser todos detidos, castigados segundo o RDM e posteriormente expulsos das fileiras sem nenhuma compensação financeira.
Sabem porquê?
Porque quando entrei para os Pára-quedistas, um militar que perdesse a sua arma incorria num crime; quem o punia? - Comandante!
Um soldado que adormecesse nas Torres de Vigia incorria num crime; quem o punia? - Comandante!
Quem faltasse ao serviço incorria num crime; quem o punia? - Comandante!
Quem faltasse às formaturas, não cumprisse com as rondas incorria num crime; quem o punia?- Comandante!
Quem faltasse à escala serviço da guarda, ao içar da bandeira ou à escala de saltos incorria numa pena. Quem o punia? - Comandante!
Quem se ausentasse do quartel era considerado desertor e sabia o que o esperava quando fosse apanhado.
Agora vejam só:
Os comandantes não são capazes de garantir a segurança dos depósitos de armas e já não é crime!
Os Oficiais das Forças Armadas acham-se intocáveis, só pode!

Foto: Pára-quedistas portugueses na Alemanha com Leopardo II

Adérito Barbosa in olhosemlente

domingo, 25 de junho de 2017

O amanhã foi ontem

O amanhã foi ontem

Hoje vou para longe.
Mas agora já não sei onde é o longe.
Juro, amanhã vou saber
O que é sentir medo.

Esta noite vou aprender
A lamber as chamas.
Ninguém vai gostar
Do trilho da solidão.

Como é lindo o sorriso amargo.
Hoje quero ir sozinho
Para onde ninguém foi
Escrever com angústia o calor.

Hoje quero ir com o fogo
Pela nacional 236
Chorar com os mortos
Na courela dos inocentes
Onde não arde o pecado carnal
Que se fez nas noites mais incendiárias.

O fogo nasceu dentro de nós.
Vejo diabos vestidos de anjos,
Pilatos sacudindo água do capote,
Mas nós já sabemos
O que é arder dentro do inferno.

Não, eu quero ver a razão do fogo
Que atiça o corpo
Que é lenha na lareira do poder
Dos que nos queimam
Entre leis, credos e outras merdas!

Amanhã voltarei
Para o refúgio longe das cinzas
De alma lavada com orvalhos
De olhos abertos ao futuro
De história que não esta.

Adérito Barbosa in olhosemlente

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"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...