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quinta-feira, 28 de junho de 2018

7ºPl/2ªCA - 80

Alvoco das Várzeas - 7ºPl/2ªCA - 80 Mais um ano se passou. Uma amizade inquebrantável, firme, impossível de fraquejar. Fomos o 7º pelotão da 2.ª Companhia de Alunos, 3ª/80 das tropas pára-quedistas. Trinta e sete anos depois continuamos “amigos e brincalhões”.
Este ano calhou ao Helder Madeira organizar o encontro 37º. Sem parcimónia, dissemos presente. Foi na BETP quando, pela primeira vez, existiu um pelotão destinado a especialistas de Comunicações, Electricidade, Electrónicas e Abastecimento. Não defraudámos as expectativas dos chefes e tornámo-nos especialistas doutorados. Hoje, já reformados e de mochila à frente, ampliada pelas cervejas, apresentámo-nos em Alvoco das Várzeas, imbuídos daquele espírito de sempre - a amizade. Vejam só: o Presidente da Junta de Alvoco compareceu para nos dar as boas vindas, botou discurso em jeito de comício, no parque da praia fluvial e, como bom político, prometeu que a estrada esburacada da freguesia tem os dias contados. Depois do matabicho, subimos parte da Serra da Estrela e descemos para Seia, tendo por destino o restaurante que serviu o almoço, Casas do Terreiro, da pacata localidade de Carragozela. Havia desfile das marchas de Santo António na cidade de Oliveira do Hospital, a acontecer à noite, para receber os ilustres forasteiros, sob o disfarçado nome - desfile das marchas da cidade – mas aquilo foi mesmo organizado para nos receber, aposto! Já um pouco cansado, optei por recolher ao hotel, longe dos holofotes e das marchas e fui descansar, enquanto os mais durões ficaram a dar as SECAS uns aos outros. No dia seguinte, já de partida e do nada, surgiu-me a ideia de visitar Piodão, longe de imaginar que para ali também se deslocaria parte do grupo. Voltámos a encontrar-nos e a desgraça do dia anterior passou outra vez à primeira forma. Outra vez o almoço em grupo. Ainda bem que cheguei primeiro - com tempo visitei demoradamente Piodão. Quando procurava um restaurante para almoçar, eis que começa a nascer debaixo do xisto, que nem formigas, o grupo tresmalhado. Iam visitar Piodão, mas não visitaram coisa nenhuma. Abancaram na esplanada do restaurante ao ar livre e não visitaram nada e nada levaram na memória de Piodão, para contar aos netos. Para o próximo ano, tramaram o Oliveira - elegeram-no director da organização. Ouvi dizer que o encontro será em Lamego. Parece que vai haver visitas às Caves do Vinho do Porto, subida à Régua, de comboio e regresso de barco pelo Douro abaixo. A coisa promete e cada bravo do 7.º pelotão dirá presente, certamene! Fiquei alojado no Petit Hotel - Casa de Baixo que vivamente recomendo. Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 11 de junho de 2018

LIXO NA ANTENA

Todos nós sabemos que a comunicação social é um negócio. Informar é direito dos jornalistas. Desinformar é coisa nenhuma; desinformar é trafulhice e cheira mal. A CMTV consegue vender baratinhas a mentira e a especulação. Consegue o impensável; consegue juntar um rol de jornalistas de calibre tal, que tenho dificuldade em eleger a mais feia. A CMTV vende lixo, porque o povo é analfabeto e ignorante; sobretudo àqueles com especial apetência para seguir o cheiro do sangue, vende reportagens sobre facadas, tiros, entrevistas aos idosos, induzindo-os a chorar e explorando muitas vezes a miséria humana e a vulnerabilidade das vítimas, dos fracos e dos que, por uma ou outra razão, estão indefesos. Questão do Sporting - Octávio Machado, vejam só, um dos maiores arruaceiros do mundo do futebol e uma das espécies mais comuns do subterrâneo do futebol, comenta num português medonho. Quando o vejo a falar, a falar mal e sinto o bafo a tintol, tenho que abrir a janela para arejar a sala. Um verdadeiro relé do coveiro que nada ganhou no Sporting. O chui Moita, que chamou estrume humano ao gang que invadiu a Academia do Sporting, o Manuel, o puto maravilha e catedrático da mula russa André, o professor Rui, a mal cheirosa Tânia e o Carlos compõem o painel da pandilha maravilhosamente. Ninguém no mundo tem mais cara de estrume do que quem aos outros assim chama; nada mais fazem do que intoxicar a opinião pública sobre aquela miserável invasão dos membros da Juve Leo à Academia do Sporting, Se aquilo é terrorismo, vou ali e já venho. Aquilo foi vandalismo puro! Por isso, acho bem que estejam presos. Gostava de ver essa gente no meio dos rebentamentos das bombas, no comboio em Madrid, na tomada do teatro em Moscovo, pelos Chechenos , no metro de Madrid, em Boston, nos tiroteios em França, ou nos atropelamentos de Nice. A haver um atentado terrorista em Portugal, que seja na CMTV - só assim terão tento na língua. Ah, não quero esquecer o repórter da CMTV na fronteira de Vilar Formoso, dirigindo-se ao Capitão da GNR: - Sr. Capitão, mande parar aquele.... Quando o Capitão mandou parar o carro, eis que o jornalista da CMTV entra em acção, de microfone em riste. - Então fizeram boa viagem? - Je ne comprends pas - disse o condutor. O jornalista da CMTV avança com outra pergunta em franciú: - QUANTOS horas foi a VIAGE? O Francês continuou a não responder – pudera, com um franciú destes, ele não tinha resposta. - Sr. Capitão, este não, este só fala francês, mande parar outro carro... Outra notícia de peso - Cristiano Ronaldo está a passar férias com a modelo espanhola e paga 7500 euros diários pelo iate - não admira nada que o Ronaldo tenha mandado o microfone da CMTV para o lago. Hoje, enquanto almoçava, ouço a seguinte notícia da CMTV - O Presidente dos Estados Unidos vai reunir em Singapura com o líder Coreano num hotel de luxo. Coisa nunca vista! - acrescentou a jornalista. A isto chama-se notícias de merda. Logo de seguida, eram mais ou menos 14h 30m. Desta vez ciclismo; como gosto de ver ciclismo e acompanho praticamente todas as provas da UCI, fiquei atento. “Às 15H00 em exclusivo, a não perder na CMTV - Volta à Suíça, uma das maiores provas do ciclismo mundial.” Ora, como eu tinha acabado de acompanhar a 2ª etapa na Eurosport, fiquei mais uma vez de boca aberta. Curiosidade - A CMTV responde por montes de processos em tribunal; nunca os vi fazer qualquer reportagem, à porta dos tribunais, sobre eles próprios. Estes sim! Estes é que são os jornaleiros! Adérito Barbosa

domingo, 3 de junho de 2018

Idade e teimosias…


Tempo ameno, turistas aos magotes, tascas das ginjinhas numa azáfama que só visto - copinhos de ginjinha cheios sobem em direcção às gargantas e descem vazios para o tampo da mesa. Elas, mais rápidas do que eles, pedem mais outra rodada e soltam risadas - o álcool escondido atrás do doce torna as mulheres mais giras e desenvoltas.
São turistas, na sua maioria brasileiros, havendo também alemães, suecos, ingleses e espanhóis, a gozarem certamente das suas reformas, pela idade que aparentam ter.
Lojas de artesanato são tantas, que não dá para acreditar; toalhas de mesa, rendas de bilros, bordados, canecas, canequinhas, chapéus, bonés, bolsas e garrafas de licor de ginja para todos os gostos - há de tudo um pouco. Nenhum turista sai daqui sem levar uma recordação.  A vila situa-se dentro do portentoso castelo. A região de Óbidosi, segundo o roteiro turístico, posssui vinte e quatro hotéis e um sem fim de restaurantes, tendo sido considerada pela UNESCO uma cidade literária e parte integrante do programa Rede de Cidades Criativas.
O Castelo de Óbidos é uma das Sete Maravilhas de Portugal, o segundo dos sete monumentos mais relevantes do património arquitectónico português. A palavra Óbidos deriva do termo latino ópido que significa cidadela, cidade fortificada. A cidade terá sido erguida no tempo de César Augusto, no final do século I a.c. e sobreviveu até à segunda metade do século V. Alguns dos espaços foram posteriormente reocupados, como se verifica pela existência de dois edifícios medievais. As ruas, apesar de entupidas pela enorme massa humana, apresentam um asseio de fazer inveja.
Também sou turista por aqui, em igualdade de circunstâncias com os outros. Eles vieram de autocarro de turismo com guia do hotel, eu de autocarro também, mas sem guia. Vim na Rodoviária do Oeste, por indicação do barbeiro lá do meu burgo, que outro dia me dizia:
- Para Óbidos vai-se de autocarro, paga-se cerca de dois euros e são 10 minutinhos de viagem; bebe uns copos por lá e volta sossegado, longe dos olhares da GNR, que os gajos andam por aqui doidinhos, à caça das multas. 
Foi por essa sugestão que experimentei partir para a odisseia; só que o malandro do barbeiro esqueceu-se de me referir que o último autocarro era às 16 horas e para regressar a casa tive que vir de táxi, pela módica quantia de vinte euros. Na segunda-feira vou apresentar-lhe a factura do táxi…
Como turista, entrei numa tasca para emborcar também a famosa ginjinha. Mandei servir uma e depois outra. Chegou um indivíduo que também se sentou, numa mesa ao lado. Passados uns minutos apareceu do outro lado da rua outro indivíduo. Olhou, olhou e atravessou a rua na minha direcção, mas não, não era para mim, era para o tipo da mesa ao lado.
- Então Zé, há quanto tempo que não te via, pá! Estás bom, que fazes?
- Eu estou a trabalhar em Lisboa; saio de casa de madrugada e só chego à noite.
- Então quando é que te reformas?
- Com a merda do governo que temos e as leis sempre a mudar, ainda me faltam cinco anos.
- Eu também.
- A família está bem?
- A família está, eu é que ando com um problema aqui num pulmão. Sinto-me sempre cansado.
- Ó diabo, já foste ao médico?
- Já, ando a ser acompanhado por uma médica em Lisboa.
- Ó Zé, como é que deixaste essa coisa aparecer?
- Faço exames médicos regularmente pela empresa e desta vez deram conta deste problema.
- Desculpa lá ó Zé, desculpa que te diga, mas não fizeste, não! Se fizesses todos os anos, eles já tinham visto isso. Já fizeste TAC?
- Já, foi a TAC que revelou isso.
- Zé, desculpa lá, tu nunca fizeste TAC coisa nenhuma. Se calhar fizeste foi radiografias. Se tivesses feito TAC eles já tinham visto isso.
- Já te disse que todos os anos faço exames para controlar este problema. Agora é que agravou.
- Tens que tomar cuidado, Zé! Esse problema não é para brincadeira. Tens que dizer à tua médica que ela tem que te passar uma TAC. Se tivesses feito a TAC, hoje não tinhas problema nenhum.
Entretanto, foi aproximando-se devagarinho um Smart Fortwo. - Ó pai, vamos embora, que ainda tenho que ir para Lisboa fazer uma TAC às sete horas.
O Manuel despediu-se do Zé e dirigiu-se apressado em direcção à filha. Chegou ao meio da rua e voltou para trás: - Zé, tens que fazer uma TAC, pois com uma TAC eles vêem tudo. Não brinques com isso!
De regresso à freguesia, sentei-me na esplanada da sociedade recreativa, A Serrana, onde tudo acontece. Nenhum forasteiro passa despercebido quando lá entra e a mim ainda me olham com ar desconfiado. Em duas das três mesas à minha direita estavam sentados dois indivíduos, de pele curtida pela lavoura, cada um na casa dos setenta e cinco anos para cima, que falavam entre si e enquanto esperava pelo café, ia ouvindo:
... - Aquilo tem travão de mão eléctrico. Para destravar, tenho que abrir a mala do carro, tem um manípulo vermelho e destravo.
- Eh pá, isso não pode ser!
­­- Estou-te a dizer que é assim.
- Se calhar tentas destravar o carro com ele desligado. O meu também tem travão eléctrico e o do meu filho e da minha nora. Todos têm travão eléctrico. Ligamos o carro, carregamos no travão de pé que é para o carro não abalar, carrega-se no botão e ouve-se um ruído que é o carro a destravar.
- Pois o meu não! Para destravar tenho que abrir a mala e puxar um manípulo para destravar, porque se não, não abalo para lado nenhum. Os carros modernos são assim. É para evitar que a gatunagem nos leve os carros, tu não ouves as notícias? Continuaram a bater na mesma tecla e pelo que ouvi, acho que nunca vão chegar a um acordo.
Eis que chega outro indivíduo ao telefone, mas em alta voz, talvez com o Facetime ligado; do outro lado ouvia-se uma voz feminina com sotaque “meio franciú, meio portugais”. Talvez uma irmã, prima ou sobrinha que insistia:
- Tens de cá vir passar uma temporada connosco. Vens, que o Carlos vai buscar-te ao aeroporto. Nós vivemos a 80 km de Paris. Na França 80 kms não é nada, faz-se num instantinho a 180…
Ele continuava na dele:
- Não, eu não vou! Tu queres é controlar-me, estás sempre a telefonar; telefonas de meia em meia hora; tu queres é controlar-me! Olha lá, vocês aí nessa zona têm muitos coelhos? Eu não vou, nunca andei de avião, ainda aquela coisa cai! Não, deixa-me estar que eu estou bem. Sabes o que vai ser o meu jantar? Vai ser carapaus. Hoje levantei-me cedo, fui à lota e às seis da manhã já estava novamente em casa.
O dia deste fulano começa cedo; teimosias…
 É assim o passar dos dias na província… uma maravilha.

Adérito Barbosa in olhosemlente



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pequenino e insignificante

Sou de grandes sonhos - um verdadeiro pastor dos meus dias. Sou pequenino e insignificante aos olhos do mundo, mas sou enorme nos meus sonhos. Encontrei refúgio longe dos olhares dos lisboetas, mas não me escondi de ninguém - apenas quis encontrar-me comigo, sonhar, escrever, entender a música e os contornos da vida na província e sentir saudades nenhumas da electrónica e da informática que foram muitos anos a minha vida e me consumiram a alma até aos ossos.
É o meu destino - retirei-me e é neste retiro que continuarei. A serenidade tomou conta de mim e já anda comigo para todo o lado. Foi a idade e o tempo que a cultivaram, certamente. Luto pela sorte, que está sempre quase à mão, mas nunca fui bafejado por ela - considerando as inúmeras vezes que me foge.
Nunca me surpreendo com as boas coisas que faço, nem com as más que acontecem.
Não me iludi com as promessas e juras que me fizeram, nem me desiludi, quando me falharam com as mesmas. Sem pressa conto os dias que vagueiam por aqui, para me assegurar de que não falta nenhum.
No recato quero ser antes apreciador dos elementos, quando estão no lugar certo.
É o caso deste pôr-do- sol no Baleal.

Adérito Barbosa in olhosenlente.blogspot.com

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Já estive presente


Do meu amigo Duarte Coelho



"Já estive presente onde não havia futuro..
Já fui passado onde imaginava ser presente.
Mas, sei que no futuro serei o presente de alguém.
E todo o resto será passado."
Duarte Coelho


Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Excertos de autos de notícias


Um agente da PSP escreve no auto de notícia “o sr. x anda muito frustrado porque pagou cerca de 5 mil euros pelos implantes mamários da sua mulher e suspeita que outro cidadão está a usufruir desses dividendos”.

A GNR participa acidente e explica: “naquele local o asfalto da estrada era de terra batida”.

O gatuno era “herdeiro e vozeiro naquele tipo de condutas”.

“a ofendida foi encontrada em “lã-feri”.

O arguido era “de raça nómada”.

Auto de notícia em que a GNR denuncia o furto de 24 galinhas das quais uma era galo.
O arguido resolve acabar o seu requerimento de uma forma cordial: ” Pede deferimento” e logo a seguir … “As minhas sinceras condolências”.
“O denunciado proferiu vários impropérios na Língua de Camões e também em língua francesa”
“O individuo trazia o produto estupefaciente junto do órgão genital masculino vulgo pénis”
Diligência de inquérito: “Solicite à PSP que, em 48h, diligencie por identificar o denunciado que se sabe ter cerca de 16 anos e usar boné”
Quem comete o crime de “borla” é um “borlista” profissional.
Auto de denúncia : “enquanto proferiam tais ameaças permitiam-se ainda chamar nomes ofensivos tais como “puta, vaca, jornalista, advogada, ladra, que era boa era para ir para a Ordem dos Advogados...”.
Um arguido antes de bater no ofendido atirou-lhe com uma caixa em plástico, “nomeadamente um tampa-ruer...”.
“O arguido atirou um paralelo-ipípado...”.
“O arguido trazia uma techerte azul às riscas...”.
“Os meliantes colocaram-se em fuga, ao volante de uma Picap”
“Na sequência de uma queixa por crime de furto de um veículo, a GNR informa que recuperou a dita viatura, no entanto a mesma vinha cheia de moças...
Caso de uma averiguação de causa de morte em que foi determinada a “autópsia parcial” do cadáver...”
‪Esta está demais.
‪Exmo Sr. Procurador‬
‪Venho comunicar a V. Exa. que na EN que liga Penamacor ao Sabugal foi encontrado um cadáver morto, que pela fala parece ser espanhol…‬”
‪"...pelo que que me vi obrigado a usar da força muscular que me está distribuída..."‬
‪”Os condutores circulavam em sentidos opostos, quando chegaram a ximafro estava este vermelho para um dos condutores, não sendo possível determinar qual, deu-se o acidente...”‬

Autor desconhecido

Adérito Barbosa in olhosemlente

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O que tenho de mim


É tudo o que tenho de mim, Saudades…
Recordo a minha infância, As minhas traquinices.
Ser polícia foi o primeiro sonho, depois bombeiro, depois médico,
Depois piloto, depois cantor, seminarista, escritor… taxista, até bombista quis ser! Mais tarde pensava ser cozinheiro num hotel. Grande… ser chefe!…
Por fim apareceram, na TV a preto e branco, os anúncios dos Pára- quedistas. Foi para as tropas Pára-quedistas que me precipitei de corpo e alma.
Saltar de avião em queda livre foi sentir-me livre como um pássaro! Voei, voei e fui dono de mim no ar.
Mas antes, muito antes, fascinava-me ouvir o homem que cantava dentro do rádio. Por isso tornei-me electrotécnico.
Sinto saudades do cheiro a camarata do colégio. Saudades do medo, de ter medo de me enganar nas leituras das epístolas dominicais.
Tudo isso me faz sorrir agora. E, aqui do alto desta colina, vejo o mundo de cima e entendo como é ele redondo. Se seguir sempre em frente torno de novo a este lugar.
A vida levou-me a inocência toda, até levou os meus sonhos, mesmo os mais bonitos e até os mais húmidos levou. Tenho saudades daquela atrapalhação toda, daqueles 15 anos.
O tempo, esse fez-me mais largo, mais calmo, faz-me pensar no passado, pensar com nostalgia aquele mundo que era só meu.
Pairam sobre o vale as névoas de lembranças que não quero esquecer e aquelas palavras embargadas que ficaram por dizer, nos momentos de raiva.
Não quero que ela me devolva as cartas! Será que as leu todas? Nunca tive resposta, não faz mal…
Não quero que me olhem como me olhavam, nem quero que me desejem como desejaram
Lembra-me somente aquele meu sorrir… o meu olhar… ao espelho. Lembra-me também as histórias, sempre iguais, as que a minha mãe contava. Pois é, é assim que me vou lembrar… Devagarinho, suavemente, até o tempo o consentir!…
Hoje, revi-me novamente, percorri o tempo com a ponta dos dedos, reli-me nos olhos e beijei na boca de ninguém como num sonho.
Vim a correr a abraçar-me, fiz-me esquecer as loucuras da inocência perdida.
Sussurrei-me ao ouvido a palavra "amigo". É urgente trocar, disparar e andar.
Deixo-me ficar até cair a noite branda… Abandono-me em mim, quero acreditar que a ir, vou ter à eternidade… Não sei quanto tempo fiquei assim, nem me importo… Despertei-me e olhei em volta… Não vejo nada!
Sorrio, sinto uma força imensa para continuar a ter saudades dos meus sonhos de menino, feito de nadas e de certezas. Cheira-me ao passado, porque o meu futuro é agora.
Já tenho saudades do agora!

Adérito Barbosa. Adérito Barbosa in olhosemlente
do livro Clave de dó sem dor

Publicação em destaque

Florbela Espanca, Correspondência (1916)

"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...