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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Tachos e Tachões


Não é preciso ter dois dedos de testa para entender isto: O Chega gosta de se apresentar como o partido que vem acabar com a mama, moralizar o sistema e impor ordem, sempre muito encostado ao discurso musculado das forças de segurança e à pose marcial de quem nunca perdeu uma oportunidade para bater continência nas redes sociais. O problema é que, quando se vai ver quem realmente arranja lugar à mesa, a conversa muda de tom. O alicerce não é a tropa nem a farda suada dos comentários online, é o velho e conhecido carrossel partidário, com passagens sucessivas pelo PSD, CDS e outros abrigos do sistema, até aparecer um tacho mais confortável. Convém, por isso, apanhar e denunciar os falsos profetas, esses que gritam contra o sistema enquanto vivem dele há décadas.

André Ventura, o rosto do partido, não caiu do céu nem saiu de um quartel, veio do PSD, onde foi militante e candidato em Loures antes de descobrir que o discurso anti-cigano, anti-imigrantes, anti-pretos dava mais votos do que a cartilha social democrata. Rui Gomes da Silva, hoje reciclado no governo sombra do Chega, traz no currículo a vice presidência do PSD, um lugar no Parlamento e um ministério no tempo de Santana Lopes. Rui Cristina também não chegou agora à política, foi deputado e vereador pelo PSD antes de mudar de camisola. Bruno Nunes passou pelo Partido Popular Monárquico, Pedro Pessanha e José Dias Fernandes vêm do CDS, Rita Matias começou na Juventude Popular do mesmo partido, Manuela Tender e Eduardo Teixeira fizeram caminho no PSD, tal como Henrique de Freitas, fundador histórico desse partido que acabou por encontrar abrigo no Chega. Tudo gente rodada, treinada e perfeitamente adaptada às engrenagens do sistema que dizem odiar.

À volta do núcleo duro aparecem ainda figuras não parlamentares, recicladas em governos sombra e iniciativas paralelas, como Rui Teixeira Santos, comentador e académico, Teresa Nogueira Pinto, presença habitual em ambientes conservadores, e Jorge Cid, vindo de estruturas profissionais. Em muitos casos não há registo formal de militância anterior, mas há um passado político claro, feito de proximidades, convites e afinidades convenientes.

O quadro geral é simples e pouco heróico. Enquanto nas redes sociais se multiplicam militares reformados, agentes das forças de segurança e aspirantes a justiceiros a insultar tudo e todos em nome da pátria, da ordem e da moral, nenhum desses guerreiros digitais conseguiu chegar perto de um lugar relevante dentro do partido. O poder ficou, como sempre, nas mãos dos profissionais da política, dos que conhecem bem os corredores, os truques e as portas certas. No fim, a farda serve para o discurso e para intimidar quem ouve. O tacho, esse, continua reservado aos mesmos de sempre.

Ventura quis enfiar no pacote o General Eanes, mas esse é grande demais para se deixar seduzir. 

Os ratos dos quartéis, das esquadras e dos postos, bebem cerveja quente e pagam o silicone dos seios da mulher mas é o outro homem a estrear. Pior é impossível.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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