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segunda-feira, 18 de maio de 2026

O regresso dos homens do mato


Chamem-lhe ironia que a vida esconde, castigo político ou simples suicídio eleitoral. Cabo Verde conseguiu aquilo que parecia improvável: entregar, de bandeja e com laço azul, uma maioria absoluta aos comunistas guinéus. Não porque eles descobriram a fórmula mágica da redenção nacional, nem porque apresentaram um programa revolucionário capaz de incendiar a esperança popular. Não, nada disso. O poder mudou de mãos porque o MPD trabalhou arduamente para o entregar. É preciso reconhecer mérito onde ele existe. Perder assim exige muito talento.

Foi pelas mãos de Ulisses Correia e Silva e pela coreografia da palermice de Abrão Vicente — esse misto de entertainer institucional e cronista do fracasso — que se abriu o caminho para o regresso dos chamados “homens do mato”, expressão que durante anos serviu de espantalho eleitoral.

Durante anos, o MPD governou com o conforto típico de quem acredita que venceu a História, que ele era a própria História. Instalou-se nele próprio a convicção perigosa de que governar era um direito natural e não uma concessão temporária do eleitor. Quando um partido começa a confundir vitória eleitoral com herança divina, o relógio já começou a contar para a queda da lâmina da guilhotina. O poder, em Cabo Verde como em qualquer parte de África, intoxica. A uns embriaga discretamente; a outros, torna-os deuses.

Ulisses e a sua corte cedo revelaram o clássico síndrome africano: a paixão mórbida pelo poder. Agarraram-se ao aparelho de Estado com a dedicação de um cão ao osso. Já não governavam para convencer; governavam para permanecer. E, quando um governo passa mais tempo a proteger-se do desgaste do que a resolver problemas, a erosão torna-se inevitável. O mais impressionante não foi só a arrogância. O impressionante foi a inutilidade dessa mesma arrogância. Tinham tudo: poder, comunicação, máquina partidária, influência institucional e tempo suficiente para reformar estruturalmente áreas críticas. E, no entanto, falharam no essencial. Não resolveram o problema da pobreza.

A retórica daquela velha conversa das parcerias floresceu. Vieram os indicadores, o crescimento, as conferências, os painéis, os fóruns internacionais e muita conversa mole. Mas o cidadão comum continuou a viver num país estatisticamente pobre e quotidianamente caro. As famílias continuaram a fazer malabarismos entre renda, alimentação, transporte e educação. A juventude, sem esperança, continuou a olhar para o aeroporto e para os paquetes como quem contempla uma saída de emergência. A maior exportação nacional foi a fuga dos mais jovens. E aqui reside uma das maiores acusações políticas ao MPD: não conseguiu criar horizontes para os jovens.

Um governo não precisa resolver tudo, ó cambada de incompetentes; precisa criar expectativa credível de melhoria. Precisa fabricar esperança racional. Precisa convencer o cidadão de que, se não está melhor hoje, poderá estar amanhã. O MPD falhou nisso! Não criou esperança. Criou fadiga. Até eu, daqui bem longe, fiquei cansado. A comunicação tornou-se exercício de auto-contemplação. Parecia haver uma obsessão permanente com a própria imagem. O governo passou demasiado tempo a admirar-se ao espelho. Enquanto isso, o país real acumulava frustrações.

Abrão Vicente, por exemplo, em vez de funcionar como político, preferiu muitas vezes a galhofa, o sarcasmo e a personalização do combate. Fez política como quem faz entretenimento de fim de semana. Atacou-se Francisco Carvalho enquanto personagem, nunca enquanto projeto político. Erro elementar. Abrão, quando se ridiculariza um adversário sem desmontar as ideias que o sustentam, oferece-se a ele um presente precioso: a vitimização. O eleitor não vota necessariamente por amor. Muitas vezes vota por irritação. E o MPD irritou-me também. Irritou pela sensação de soberba. Irritou pela incapacidade de perceber que o eleitorado não é obrigado a gostar de quem se sente inevitável.

Olavo Correia, eterno ministro das Finanças, transformou-se numa figura quase mitológica: sempre presente, sempre central, sempre mentiroso. A impressão pública foi a de um homem tecnicamente incompetente e politicamente desconectado da angústia material da população. Números não enchem panelas; discursos sobre finanças públicas não pagam renda. O maior pecado do MPD foi a incapacidade de compreender a natureza do voto de protesto. As eleições não foram apenas uma escolha ideológica. Foram um ajuste de contas emocional. O eleitor cansou-se. Cansou-se da sensação de permanência eterna. Cansou-se do discurso autorreferencial. Cansou-se de promessas recicladas. Cansou-se da estética de superioridade moral e intelectual. E decidiu punir.

A oposição não precisou fazer nenhum brilharete. Bastou esperar que o governo se autodestruísse metodicamente. Foi isso que aconteceu. O MPD não perdeu para adversários particularmente geniais. Perdeu para a própria incapacidade de ouvir. A política tem uma regra simples: quem deixa de escutar começa a falar sozinho.

Foi exatamente isso. Enquanto o cidadão falava de custo de vida, precariedade, emigração e ausência de perspetivas, o poder, ou Olavo, respondia com performance. Enquanto o país pedia soluções, Abrão oferecia espetáculo. Resultado: maioria absoluta para quem, ontem, era tratado como ameaça civilizacional. Há uma justiça quase literária nisto. Durante anos, vendeu-se o medo do regresso dos “homens do mato”. No fim, foi o próprio MPD quem lhes abriu a porta, estendeu a passadeira vermelha e acenou cordialmente. Não foram derrotados apenas nas urnas. Foram derrotados pela vaidade. A história política cabo-verdiana regista agora mais um capítulo clássico: governos raramente caem apenas pela força dos adversários. Caem, sobretudo, quando se convencem de que são insubstituíveis.

O MPD acreditou nisso. Pagou por isso. E Cabo Verde acorda hoje perante uma nova realidade política, construída não tanto pela genialidade dos vencedores, mas pela monumental incompetência estratégica dos vencidos. Os homens do mato regressaram. Mas convém dizer a verdade: não invadiram.

Foram convidados.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 17 de maio de 2026

Uma enorme proeza acabar à frente do Braga.

 

Se não és meu amigo, este bilhete não é para ti. Passa ao lado e vai-te embora daqui.

Desde já, desejo-vos a todos uma boa estadia na Liga Europa. O Elvis Presley e o Benfica brilharam nos anos 60. O primeiro já bateu as botas e o segundo também, mas ainda se acha grande. Os benfiquistas são como os fãs do Elvis: acham que o Benfica está vivo. Os meus amigos são saudosistas e pensam que ainda estão nos anos 60.

Vejam só: no ano de 2024, o Pedro Proença disse que o «Benfica acha-se valer sozinho mais do que todos os outros clubes juntos». Concordo inteiramente com ele, hoje mais do que nunca, e por isso deixo uma sugestão prática aos meus amigos benfiquistas.

Que o Benfica jogue sozinho. Ou, melhor ainda, que dispute uma competição exclusiva contra equipas formadas por sócios, simpatizantes, amigos e demais fauna encarnada.

Numa semana joga contra os benfiquistas casados. Na outra, contra os solteiros. Depois vêm os viúvos, os divorciados, os mal-amados, os bem-amados, os frustrados, os pobres, os ricos, os cornudos e os machões da internet, que são sempre valentes atrás de um teclado e de uma foto de perfil de águia.

Assim fica resolvido. Criam oficialmente a Liga Benfica, onde competem apenas entre eles, vendem as boxes uns aos outros, transmitem tudo na BTV para consumo interno e mantêm a coisa em circuito fechado, como convém às grandes famílias cecilianas.

Fica tudo em casa, tudo em família, e deixam finalmente o resto do país em paz.

Nós, simples mortais, poupamos horas intermináveis de televisão ocupadas com debates sobre o estado emocional do Benfica, as injustiças cósmicas sofridas pelo clube e os dramas existenciais da nação encarnada.

E ficamos também livres do desfile habitual: do Brasuca, da Sofia, do Pipa, do Abel, do Dani, do Luís e daquele de cabelo oleoso que escreve cartas abertas a jogadores, presidentes e dirigentes, como se fosse uma espécie de correio sentimental institucional. A mim nunca me escreveu nenhuma, o que considero uma deselegância.

Depois, esses mesmos juntam-se aos outros da BTV e daquele ex árbitro cegueta e comentam JUNTOS a gloriosa Liga Benfica, num ambiente de felicidade auto-sustentável.

A propósito: parabéns aos benfiquistas por terem conseguido a extraordinária proeza de acabar à frente do Braga. Uma conquista verdadeiramente inesquecível.” 


Carrega Benfica!


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Megafone na mão , Moral na boca e Milhões nos bolsos

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O áudio divulgado ontem pelo Intercept Brasil apertou o nó no pescoço de Flávio Bolsonaro, ligou o cronómetro regressivo para destrancar o cadafalso e deixou à direita radical portuguesa a ingrata tarefa de apagar o fogo que o próprio ateou sobre si. 

Tudo começou no momento em que veio a público a gravação onde o filho de Jair Bolsonaro aparece a pedir dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o próprio pai. Segundo a investigação, estavam em causa pelo menos 61 milhões de reais já pagos, num total negociado que podia chegar aos 134 milhões.

É curioso observar isto vindo de gente que vive da pose moralista. Ainda há pouco tempo, o CHEGA recebia o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, aos gritos de “ladrão”, megafone na mão, num espetáculo que parecia mais assembleia de associação de estudantes do 9.º ano do que deputados do segundo maior partido no parlamento de um país democrático.

André Ventura construiu durante anos parte da sua narrativa política em cima da beatificação da família Bolsonaro. Vendeu a ideia de que ali estava uma espécie de reserva moral do Ocidente: patriotas perseguidos, vítimas do sistema, gente incorruptível atacada por uma conspiração global de juízes, imprensa e esquerda.

A realidade tem um defeito irritante: costuma estragar propaganda.

Jair Bolsonaro está envolvido em processos relacionados com tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral e também em investigações ligadas à apropriação e venda de presentes oficiais recebidos durante a presidência, bens pertencentes ao Estado brasileiro.

Entretanto, Eduardo Bolsonaro passou meses nos Estados Unidos a internacionalizar a narrativa de perseguição, pressionando aliados republicanos e vendendo a tese de que o Brasil já não seria uma democracia funcional, mas uma ditadura judicial. A estratégia era simples: descredibilizar as instituições brasileiras no exterior para produzir capital político interno.

Agora surge Flávio Bolsonaro, senador, advogado e potencial candidato presidencial, ligado a um banqueiro no centro de um escândalo financeiro. O mesmo Flávio que aparece em áudio a pedir milhões para financiar um filme biográfico sobre o pai. Não estamos a falar de crowdfunding entre fãs. Estamos a falar de negociações milionárias com Daniel Vorcaro, associado ao Banco Master e alvo de investigações por suspeitas de fraude e irregularidades financeiras.

A ironia é demasiado boa para ser ignorada: a família que passou anos a denunciar corrupção alheia aparece repetidamente orbitada por dinheiro opaco, negócios nebulosos e explicações criativas.

A família Bolsonaro vive da política há décadas. Acumulou um património imobiliário vastíssimo, frequentemente envolto em polémicas sobre pagamentos em numerário e incompatibilidades patrimoniais. Tudo isto enquanto discursava contra “o sistema”.

São iguais aos outros? Nem isso. Porque os outros raramente constroem toda a sua identidade política sobre superioridade moral e pureza ética.

É por isso que esta história interessa ao CHEGA. Não é apenas um escândalo brasileiro. É um problema de coerência política para quem escolheu os Bolsonaro como referência ideológica, símbolo anticorrupção e modelo de combate cultural.

Quando se passa anos a chamar ladrão a toda a gente, convém ao menos garantir que os teus aliados não aparecem em áudios a pedir dezenas de milhões a banqueiros investigados.

Agora percebe-se melhor porque tantos bolsonaristas gravitam em torno de Ventura em Portugal. Reconhecem-se uns aos outros. Não por acaso, mas por afinidade.

No fim, a moral desta história é simples: a direita radical gosta muito de vender pureza, ordem e limpeza moral. Até ao momento em que se abre uma gaveta, cai um áudio, e sai de lá exatamente o lixo que juravam limpar. 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Antes deles havia o Heliporto no hospital da FAP

Felizmente nunca senti o cheiro putrefato das entranhas do Exército. Não gosto deles, porque, ao longo de toda a sua história, nunca fizeram nada que se veja. Souberam sim arranjar uma catrefada de Generais inúteis. Tão inúteis que quase todos abandonaram as paradas e passaram a formar-se  nos becos e vielas das televisões. Qual deles o mais ataviado na língua. Uns é Sra. Doutora para aqui, Sra. Doutora para ali; outros de ponteira na mão, a fazer graçola e a encher a cabeça aos telespectadores com montes de círculos, riscos e rabiscos no quadro interactivo. Uns são pró-Putin, outros pró-Zelensky, outros pró-Trump, outros pró-NATO, outros anti-NATO e há ainda os de umbigo grande, sempre contra o Estado português. Também há os sensatos como aquele general da FAP que é o da minha guerra.

Agora que estes Generais, outrora sentados e reservados, descobriram a vida activa - ia eu a caminho de uma fonte, em busca de água anti-pedra nos rins, ouvindo rádio, quando apanhei os números mais citados para ilustrar o tema da conversa. Serviço militar obrigatório sim ou não. 

Total de militares activos neste ano de 2026: 24.517 militares. Oficiais + Sargentos: ~59%, Praças: ~41%

Aplicando isto ao efectivo actual, temos então 14.465 oficiais e sargentos para 10.052 praças.

Traduzindo por miúdos: há cerca de 1,44 militares de chefia ou intermédios por cada soldado. 

Invertendo para o patego entender: há 1 praça para cada 1,44 oficiais e sargentos. E quase parece haver 1 General para cada 7 militares. Entenderam? 

Tantos que devem ter passado a carreira inteira a atropelarem-se uns aos outros, sempre à procura de mais uma estrela.

Os tipos viviam para as estrelas ali na Estrela, naquele enfadonho monumento e outros  intrincheirados em anexos e mais anexos por Lisboa inteira.

Sem homens para comandar, tornaram-se numa praga encaixados em todos os buracos, tascas e tabernas institucionais. Vejam só isto; os gajos até tiveram tempo para pensarem na aviação ligeira do Exército, uma verdadeira anedota à portuguesa, mas nem sequer tinham um hospital capaz.

Com tantos Generais, conseguiram comprar os paraquedistas à Força Aérea. Lá nos Páras também havia muita fome de estrelas, portanto aceitaram felizes  - e chegados ao Exército, todos carregaram estrelas que nem mulas.  Os sargentos, também se safaram: foram promovidos e ála daqui que é cardume e foram à vidinha deles. 

Com tanta azáfama esqueceram-se de mim, deixaram-me esticado na cama do Hospital.

Era ao hospital que eu queria chegar com esta conversa mole.

Infelizmente, esta semana houve um acidente durante um salto em Tancos, envolvendo dois militares.

Os militares em causa não foram evacuados para o Hospital das Forças Armadas. Um foi levado para o Hospital de Abrantes e outro para o Hospital de Leiria.

Sabem porquê?

Porque, desde que o exército de Generais tomou conta do Hospital da FAP, transformaram o heliporto num parque de estacionamento.

No meu acidente tive o privilégio de ter sido evacuado de helicóptero directamente para o Hospital da FAP. Infelizmente os nossos camaradas acidentados não tiveram essa sorte. Puseram-nos a deambular pelos hospitais de Portugal até ao hospital final.  Ao nosso camarada falecido :

 - Até amanhã camarada!


Obs: Sou amigo pessoal de alguns Generais.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O profeta do Largo Rato

 A extrema-direita não entrou pela porta das forças de segurança de rompante, não. Não, não. Foi-se infiltrando pelas frestas das janelas, pelos cafés de esquina, pelos grupos de WhatsApp, pelas conversas de corredor onde a farda pesa menos do que a cartilha ideológica do CHEGA. E assim se conseguiu a proeza nacional de transformar parte da PSP — outrora instituição respeitada, humanizada e confiável — numa espécie de laboratório da bandalheira, onde a autoridade se confundiu com arrogância e a ordem pública com tiques de milícia armada.

Há anos que escrevo sobre esta contaminação política plantada dentro das forças de segurança, e não é só na PSP, não. O que antes era murmurado em voz baixa, hoje exibe-se sem vergonha, como se a radicalização fosse medalha de mérito. Vi amigos meus na PSP deixarem de me falar porque eu tive a ousadia quase revolucionária de não seguir o profeta Ventura. Alguma malta da PSP seguiu-o até ao Rato.

E, chegados ao Largo do Rato, encontramos um episódio que não surpreende ninguém minimamente atento. Apenas confirma aquilo que já se sabia: quando se alimenta durante anos uma cultura de impunidade moral, alguns acabam por acreditar que a farda lhes concede licença para brincar aos justiceiros de bairro. Estrangeiros, sem-abrigo, pretos, toxicodependentes — os alvos preferidos da valentia selectiva. Curioso como a coragem revolucionária destes heróis costuma escolher sempre quem já está de joelhos.

Isto mete-me nojo.

Não apenas pelos agentes envolvidos, mas pelo silêncio cúmplice das chefias, que assistem à lenta degradação institucional como quem observa infiltrações no tecto e decide meter um balde por baixo. Há uma passividade obscena em deixar polícias entregues à própria deriva ideológica, como se a disciplina tivesse sido subcontratada ao algoritmo do Facebook e ao entusiasmo político da mulher da limpeza de Portugal.

As chefias fazem de conta que não vêem. O Estado reage sempre tarde, como a polícia nos filmes americanos. E a democracia, essa, vai pagando a conta dessa bandalheira toda.

Agora resta esperar que a justiça faça aquilo que tantas vezes parece faltar dentro da própria instituição: separar autoridade de abuso, serviço público de delírio partidário.

A coisa vai apertar. O Ventura não vai aparecer montado num cavalo branco, de espada em punho, para resgatar os seus fiéis. Esses possivelmente vão apodrecer, e bem, na cadeia.

É urgente que alguém diga àqueles da PSP, aos meus camaradas militares, aos barulhentos reformados do CHEGA e ao profeta André Ventura que o único momento em que um homem olha de cima para baixo para outro homem é para lhe esticar a mão e ajudá-lo a levantar.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

sexta-feira, 1 de maio de 2026

RoadHouse

 

Finalmente o sonho - 3 horas ininterruptamente no formato Roadhouse.

Alinhamento:

Knoking hevens door, patience Paradise City. Welcome to the Jungle, Sweet Child o' Mine

Nightrain, Good Times Bad Times, Kashmir, No Quarter, Black Dog, Stairway to Heaven

Whole Lotta Love, Rock and Roll. Another  Bric in the wall, Mother, Confortably Numb e Mentira de JPP.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

sábado, 25 de abril de 2026

No tempo do Óscar

 No tempo do Óscar, era desejo fora da norma

Hoje, chamaria a isso: espírito gay.


Óscar Wilde pediu a amigos que usassem cravos tingidos de verde na lapela numa estreia teatral. Não por capricho botânico, mas por gosto pelo artifício. Uma flor antinatural, portanto mais interessante do que qualquer coisa que a natureza tivesse produzido sem consultar ninguém.

O cravo verde passou a circular como sinal de relações fora da norma vitoriana. Não um manifesto, que isso dava cadeia, mas um código discreto, suficientemente elegante para não ofender à primeira vista e suficientemente claro para quem sabia ler.

Wilde, que nunca teve grande paciência para o culto do natural, via ali o essencial: algo que não existe espontaneamente a servir de símbolo. Artificialidade consciente, identidade construída, recusa das regras impostas por quem confunde hábito com verdade.

O uso do cravo verde era também uma pequena provocação à sociedade conservadora. Nada de escândalos ruidosos, apenas um detalhe na lapela a dizer mais do que muitos discursos. Uma marca de pertença a um grupo que preferia o desvio inteligente à conformidade aborrecida.

À superfície, elegância. Por baixo, subversão.

Pode-se, sem grande risco de disparate, ligar isto ao que hoje se chamaria espírito gay. Na altura não havia rótulos modernos, havia códigos. Não se falava de identidade, falava-se de gosto, de estética, de afinidades que não cabiam nas categorias oficiais.

Para Wilde, - o cravo verde representa isso mesmo: desejo fora da norma, culto do artifício e uma forma discreta de reconhecimento entre iguais numa sociedade que preferia fingir que eles não existiam.

Eu estava desconfiado do tal espírito.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Alentejo 2026

 Foi domingo, 18 de abril, no Alto Alentejo, em Benavila, mais concretamente na Fundação Abreu Callado, para onde se fez a peregrinação dos fiéis da defunta Base Operacional das Tropas Paraquedistas 1 de Lisboa.

A malta apareceu em força, como manda a tradição e o espírito de corpo que não se perde com os anos. Entre reencontros, abraços demorados e aquelas histórias que já toda a gente ouviu mas ninguém se cansa de repetir, foi-se compondo o cenário de mais um daqueles dias que valem pelo que são: simples, directos e cheios de memória.

O Joviano Vitorino foi o mordomo e segurou a coisa com mão firme, sem espalhafato, como deve ser. Está de parabéns, porque não é só marcar presença, é fazer acontecer — e isso nota-se nos detalhes que fazem a diferença.

Houve prova de vinho Lúcio Perca, a acompanhar os enchidos na receção, num arranque que prometia e cumpriu. O ensopado de borrego trazia aquele sabor alentejano inconfundível, como manda a terra. O bacalhau estava no ponto, fofinho, sem invenções desnecessárias. Da sopa de feijão com couve, nem vale a pena falar — daquelas que dispensam comentários e pedem silêncio respeitoso.

Pelo meio, circularam as conversas de sempre: um misto de memória, exagero e verdade conveniente. Não faltaram as secas do costume, as dadas e as levadas, naquele equilíbrio fino entre a picardia e o companheirismo. Porque no fundo é isso que mantém a coisa viva: a capacidade de dizer tudo sem levar nada demasiado a sério.

Entre copos, gargalhadas e recordações, foi-se esticando o tempo sem pressa. E quando assim é, percebe-se que estes encontros não são apenas um hábito — são uma forma de não deixar cair aquilo que, por muito que o tempo passe, continua a fazer sentido.

Nas fotos: Edgar Bexiga e o Estratega, ambos do meu curso.

A reportagem completa está no mural do Serrano Rosa. 

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Um brinde à incoerência


Ambos especialistas da política de consciência ambiental e moralistas da superioridade moral. Na prática, ambos a exercitar dois colectivos: a ingenuidade da Europa e a incapacidade brutal da ONU. O Costa de Bruxelas continua nas suas reuniões com conversa que nunca mais acaba; essa entidade que gosta de se ver ao espelho como farol transformou-se lentamente num grupo hesitante e incapaz de defender os seus interesses.

O António Guterres de Nova Iorque , boneco que enfeita o salão nobre da ONU, também não foge à regra. Um verdadeiro incapaz, e com ele a ONU tornou-se um antro de promiscuidade onde só se preocupam em aprovar propostas peregrinas. Agora deu-lhes para inventar cruzadas morais travestidas de justiça histórica, com ideias de indemnizações colossais aos europeus por causa da escravatura. Para se ter uma ideia, já andam a empurrar números que rondam vários anos do PIB português. O mais giro no meio disto tudo é ver países como a Mauritânia a alinhar nestas moralidades enquanto ainda têm escravatura dentro de portas. Pasme-se que Portugal achou bonita a conversa do Gana.

A Coerência não é propriamente o forte desta malta.

É caso para dizer: rapaziada, tenham juízo. Esqueçam a teta dos europeus. Se querem mamar, vão trabalhar.

Voltando ao petróleo e às merdas que os europeus fazem, há um exemplo paradigmático. A Alemanha, um país com capacidade tecnológica, industrial e científica para garantir autonomia energética, decidiu — por pressão ideológica daquela histeria da esquerda radical — desmontar parte significativa da sua infraestrutura nuclear. Não foi uma decisão técnica, nem sequer estratégica. Foi uma decisão alimentada por uma visão simplista da canalhada dos Verdes, do PC e de uma larga ala do PS europeu. Chamaram a fedelha Greta Thunberg, fecharam centrais nucleares e acharam que, com isso, o mundo civilizado ficava automaticamente do lado certo da história.

O resultado foi uma cagada em três actos: substituiu-se uma fonte estável e controlável por dependência externa. E não de parceiros fiáveis, mas de regimes que operam segundo lógicas próprias, muitas vezes incompatíveis com os valores que a Europa diz defender.

A partir daí abriu-se a porta ao ridículo. A maioria dos países adormeceu com a balela e continuou tranquila a depender do gás russo e do petróleo da Venezuela, do Irão, da Arábia Saudita e de Angola — tudo regiões governadas por ditaduras ou marcadas por instabilidade crónica. O problema nunca foi a transição energética em si, mas sim a forma infantil como foi conduzida.

E depois há a questão do estreito. Esse ponto crítico por onde passa uma fatia significativa do comércio energético mundial tornou-se palco de tensão permanente. E o mais curioso é observar a reacção ocidental, especialmente europeia e americana, perante a possibilidade de interrupção do fluxo: discursos vagos, demonstrações de força cuidadosamente coreografadas, mas, no fundo, uma incapacidade evidente de impor uma solução clara.

Convém recordar o óbvio: o estreito não pertence ao Irão. O poder não reside apenas na posse formal de território, mas na capacidade de o controlar ou de impedir que outros o façam. E, nesse aspecto, aquilo que se vê é hesitação, divisão e, acima de tudo, medo de assumir consequências.

Os Estados Unidos, outrora previsíveis na sua assertividade, parecem hoje presos entre o desgaste de intervenções e a hesitação em abrir novas frentes. A Europa, continua a agir como um actor secundário que não conta para nada, limitando-se a comentar decisões alheias. Pelo meio, Portugal, episódios caricatos  revelam o estado geral da nação - Uma médica, prima do vice presidente do Partido da Limpeza, atirava o pessoal todinho para a reforma a troco de 1000 euros cada atestado.

E agora seria bom ir buscar esses reformados e pô-los a trabalhar - Isso é que que era uma Limpeza. 

No fundo, aquilo que se observa é a consequência inevitável de uma cultura que confunde conforto com segurança, discurso com poder e ainda querem que eu acredite que a nossa Constituição é o mal de todos os nossos pecados.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quarta-feira, 25 de março de 2026

Vão mas é pastar moscas


Estou abismado e ligeiramente entretido com o espectáculo nacional — que é como quem diz: ligo o telemóvel, abro as redes sociais e vejo logo circo sem precisar de pagar bilhete. Desde que o Chega apareceu, o país ficou dividido como aquelas famílias que discutem no Natal por causa da herança da avó: de um lado, os que não querem o André Ventura a mandar nisto tudo; do outro, os que acham que ele é a poção genética perfeita entre salvador da pátria e comentador da CMTV.

A matemática é simples. Quase 70% não quiseram Ventura a Presidente. Setenta. Sete-zero. Uma multidão suficientemente grande para encher estádios, rotundas e procissões. Do outro lado, cerca de 30% acharam que sim senhor, que o homem era a solução para os males da pátria.

Os 70%, onde me incluo, votaram, suspiraram e foram tratar da vidinha. Já os 30% não. Esses votaram e foram directamente para o Facebook, que é o novo quartel-general da resistência patriótica de sofá. Ali transformam-se. Metamorfose instantânea. Gente que nunca enfrentou nada mais agressivo do que uma fila no Continente vira gladiador digital. Dedo nas teclas, peito inchado, patriotismo inflamado por Wi-Fi.

De repente, surgem os guerreiros da pátria virtual.

São valentes. Corajosos. Intrépidos. Especialistas em combate corpo-a-corpo…

Chamam nomes. Inventam teorias. Descobrem conspirações enquanto comem bolachas Maria. Tratam quem discorda como traidor da nação, agente infiltrado, vendido ao sistema, funcionário secreto da cantina do Parlamento. Tudo serve. Argumentos são opcionais; indignação histérica é obrigatória.

Pegam com tudo.

Pegam com o vestido da primeira-dama como se o tecido tivesse cláusulas ideológicas escondidas nas costuras. Pegam com a guarda presidencial como se a postura dos agentes fosse responsável pelo défice. Pegam com a morada das Caldas da Rainha como se o código postal fosse um manifesto político cifrado. Eles pegam, elas pegam. Toda a gente pega.

E convém dizer: não, isto não é um exclusivo masculino. Há ali uma ala feminina que entra em campo de sola levantada, com comentários capazes de fazer corar camionistas veteranos. A agressividade não tem género; tem algoritmo. Algumas senhoras transformam a caixa de comentários num ringue de luta livre verbal onde cada frase é uma cadeirada. Se a ironia fosse crime, metade já estava a cumprir pena.

Essa minoria barulhenta virou maioria sonora. Não são mais — fazem é mais barulho. Passaram todos a pensadores políticos de mural, especialistas em tudo: geopolítica, economia, estratégia militar, direito constitucional e, nas horas vagas, treinadores de bancada.

É vê-los, iluminados pela luz azul do ecrã, a escrever tratados ideológicos com a solenidade de quem está a redigir a nova Constituição… quando, na verdade, estão de pijama com nódoas de esperma do ano passado.

Convenceram-se de que são os únicos lúcidos numa nação de ovelhas. Eles são os despertos. Os outros são mansos. Eles pensam; os outros pastam. Eles lutam; os outros dormem.

E há uma curiosidade eleitoral que serve de gasolina para fogueira emocional. Parte do eleitorado vem dos imigrantes brasileiros com simpatias a Jair Bolsonaro — velha figura ndo Brasil com presença constante na justiça e preso. O fenómeno é curioso: gente que passou décadas dentro do sistema político aparece agora  como anti-sistema.

É como vender água engarrafada retirada da torneira, mas com rótulo patriótico e tampa dourada. A narrativa repete-se com sotaque nacional. Antes de se tornar líder partidário, Ventura passou anos nos debates televisivos da CMTV, especialmente naqueles programas onde se discute futebol com a intensidade de quem negocia tratados de paz no Médio Oriente. Foi ali, naquele coliseu de comentadores, que o país assistiu a momentos caricatos, trocas de acusações entre Ventura e Aníbal. 

Ali o André aprendeu a mistura clubismo, escândalo, indignação performativa e frases bombásticas - barulho é essencial.

Entretanto, a trajectória política fez escalas previsíveis: passagem pelo PSD, ambições autárquicas, cargos intermédios, tentativas falhadas, até surgir o novo projecto partidário vendido como vassoura moral para limpar Portugal. 

E aqui confesso: por breves instantes, quase acreditei e foi por um fio que não me filiei. A ideia de abanar o pó à casa quase me seduziu. O problema foi quando descobri que, em vez de limpeza geral, afinal só mudavam os móveis velhos de sítio e escondiam o lixo debaixo da velha carpete.

Muitos dos rostos mudaram de camisola partidária - Saltaram do CDS – Partido Popular, e do Partido Social democrática  e apareceram com outro discurso, com nova embalagem e velhas práticas. Os verdadeiros descontentes — aqueles ingénuos como eu, que acreditaram numa revolução ética — ficaram pelo caminho e nem sequer foram convidados para o jantar do costume.

À volta do tacho lá estavam os costumeiros de sempre - Os sobreviventes do aparelho do sistema.

E o cidadão comum assiste, dividido entre a descrença e o entretenimento mórbido.

No meio disto tudo, o debate político transformou-se numa guerra de trincheiras emocionais onde ninguém ouve ninguém. Cada lado grita mais alto, não para convencer, mas para abafar. Os argumentos deram lugar a rótulos; o diálogo foi substituído por insultos.

E eu, sinceramente, estou cansado.

Cansado da minoria ruidosa que confunde volume com razão. Cansado dos justiceiros de teclado que tratam divergência como traição. Cansado de ver portugueses a insultar portugueses por causa do Ventura. Cansado de ver diferenças políticas transformadas em guerras pessoais.

No fim, sobra o quê?

Sobra um país onde todos gritam e quase ninguém escuta. Onde a política deixou de ser construção colectiva para virar campeonato de ofensas; onde a minoria barulhenta vive convencida de que representa o povo, enquanto o verdadeiro povo está ocupado a trabalhar, a sobreviver e a tentar manter a sanidade mental intacta, com o preço da gasolina a subir-lhe nos bolsos.

E chego ao limite da paciência: ver essa minoria militante chamar “burros” aos restantes portugueses como se inteligência política fosse medida pelo grau de fúria nos comentários. 

Não é; nunca foi!

Barulho não é lucidez. Armar-se em agressivo no teclado, ainda por cima cheio de erros de português, não é coragem. É burrice. Fanatismo não é patriotismo; é patriotário. Perdão… otário.

Nisto, os verdadeiros problemas do país continuam ali, quietos, à espera que alguém os trate com seriedade.

Por mim, podem continuar a salvar a nação com insultos. A pátria agradece o esforço heróico feito entre um café e um Enter.

Se algum dia atribuirem medalhas por bravura digital, seremos finalmente um povo condecorado… sentado.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando o macaco desceu da árvore

 

Esse macaco é o Silvino da Luz, um nome que a História não deve tratar com indulgência. Tomou decisões que não se diluíram com o passar das décadas, nem se apagaram com homenagens protocolares. Governou de forma autoritária como Ministro de Estado. Exerceu o poder de modo brutal e, como poder, interferiu violentamente na liberdade de cidadãos, em nome dos quais se torna um dever moral não apagar essa memória.

Durante o período de transição que se seguiu à independência de Cabo Verde, o país viveu dias de profunda tensão política. A promessa de liberdade colectiva contrastou com episódios de repressão dirigida a vozes discordantes. Cidadãos foram detidos sem acusação formal, sem julgamento e sem garantias básicas de defesa. O simples acto de discordar do rumo político imposto transformou-se, para muitos, em motivo de privação de liberdade.

O Campo do Tarrafal, lugar já carregado de simbolismo histórico, voltou a receber detidos  e prisioneiros. Não eram agentes de guerra nem conspiradores armados; eram cabo-verdianos com opiniões divergentes sobre o futuro do seu próprio país. O espaço que representara repressão colonial tornou-se novamente cenário de sofrimento humano, agora sob administração nacional.

A investigação reunida em “Tarrafal 1975 – O Campo do Silêncio”, da jornalista Sandra Inês Cruz, descreve testemunhos de calor extremo, alimentação insuficiente, ausência de cuidados médicos adequados, doenças não tratadas e isolamento prolongado. São relatos que afastam qualquer tentativa de romantizar o período pós-independência como um processo imaculado. Ninguém me convence de que o meu amigo Miguel Ângelo não tenha começado ali a caminhada para o seu lento fim.

Esses factos não pertencem ao domínio da retórica partidária; pertencem à memória dos que sofreram diretamente as consequências das decisões do poder político.

Entre os responsáveis governativos desse período encontrava-se Silvino da Luz. A sua posição no aparelho de Estado colocava-o no centro das estruturas de decisão: detenções, repressão política e práticas que limitaram direitos fundamentais. Não se fala de abstracções administrativas — fala-se de actos decididos e executados sob tutela governativa.

Responsabilidade política não é um conceito vago. Significa responder pelos efeitos das decisões tomadas, enquanto se exerce autoridade pública. Significa reconhecer que o poder do Estado tem limites legais e morais.

Perante as vítimas, resta-me honrar a memória daqueles que ficaram marcados na pele, no corpo e no espírito.

Entre os que sofreram as consequências desse período, estavam cidadãos cuja única “culpa” foi pensar de forma diferente. Famílias foram separadas e marcadas. Vidas foram interrompidas por anos passados atrás das grades.

Hoje, a ironia histórica impõe-se. Silvino chefiou e comandou esse período sombrio; hoje circula com tranquilidade por Portugal e beneficia do nosso sistema de saúde e das nossas infra-estruturas. Entra e sai sem sobressaltos, vivendo do conforto do nosso país aquele que outrora prendeu e maltratou cidadãos apenas por dizerem ser portugueses.

Esta ironia não é detalhe irrelevante. É símbolo das contradições entre a retórica política e as escolhas pessoais. 

Contudo, enquanto os responsáveis desfrutam de tranquilidade e da boa vida, muitas vítimas carregam cicatrizes permanentes para sempre.

Recordar esses acontecimentos, defender que a verdade histórica seja reconhecida e exigir a verdade não é promover vingança. Pedir responsabilidades não é reabrir conflitos — é afirmar que a dignidade humana não tem prazo de validade.

A memória de Miguel Ângelo deve ser lembrada com respeito e verdade.

A dignidade das vítimas exige verdade. A maturidade democrática exige reconhecimento. E a consciência histórica de um povo exige que os factos sejam lembrados sem filtros convenientes, porque a independência política só é completa quando acompanhada por responsabilidade moral, coisa que os animais da raça do Silvino da Luz não têm.

Silvino, não venhas mais a Portugal, nem tu nem os capangas do PAICV. Não venham almoçar à borla, nem venham aos nossos médicos. Se tiverem vergonha,  não venham mais consumir os meus impostos!

Miguel Ângelo, uma das vítimas

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com


quinta-feira, 5 de março de 2026

Lobo Antunes

 


Um dia triste para o mundo da escrita

Escritor genial. Em 2004 desafiaram-me a ler Eu Hei-de Amar uma Pedra, de Lobo Antunes, acabado de sair.

Li-o. Livro difícil, daqueles que não se deixam ler — obrigam-nos a lutar com as frases, a tropeçar nelas, a voltar atrás. Coisa de génio da literatura. Génio e maluco, como convém aos grandes escritores.

Depois vieram outros livros. E eu fiquei fã do médico que escreve como quem abre pessoas para lhes ver as entranhas.

Talvez por isso me reconheça nele. Como Lobo Antunes, também às vezes tenho dificuldade em viver comigo. Ando quase sempre em guerra civil comigo próprio.

Adeus, Lobo Antunes.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Epstein

 

Nunca o vi. Nunca me foi apresentado. Nunca bebemos um copo juntos nem partilhámos putas, charutos ou segredos de alcova. Soube da existência do Apsteane como se sabe de um mito urbano: diziam que era um bom vivam, homem de portas abertas no mundo dos ricos, passaporte carimbado no putedo novayorkino, anfitrião de festas onde a moral ficava à porta, pendurada no cabide.

Depois vieram as televisões. A CNN, a CMTV e toda essa restante fauna respeitável do sensacionalismo travestido de jornalismo. Não se calam. Da vida promíscua do Epstein, do Príncipe, do Trump e de mais meia dúzia de engravatados com cheiro a poder. Noto que nessa missa faltou o sensacional advogado Roy Cohn que também já se foi.

De notícia, essas televisões nem uma palavra. 

De julgamento moral, horas e horas de emissão. Uma televisão opinativa e ruidosa formadora de analfabetos. No intervalo falam do Benfica. - Sobre o Benfica, eu acho que o Prestianni é um miúdo de 20 anos e nada mais do que isso. Um miúdo.

Como ia dizendo, eu não fui convidado. Não por falta de tesão ou curiosidade antropológica. Não fui porque sou pobre. Porque estas orgias da hipocrisia têm porteiro: entra quem tem dinheiro, quem tem apelido, quem pode cair de pé. O resto assiste pela televisão, com o dedo em riste e o estômago cheio de falsas virtudes.

Mas hoje acordei com vontade de trabalhar. Não para ganhar dinheiro, isso fica para os outros. Hoje estou a trabalhar para angariar inimigos. Sobretudo inimigos hipócritas. Essa gente limpa por fora e podre por dentro.

Conheço N casais — sim, N, em número industrial — que meteram os namorados das filhas menores a dormir em casa. Sob o pretexto higiénico e progressista: “é melhor a minha filha foder aqui em casa do que andar a foder na rua”. Em detrimento da moral. Tudo em nome da segurança, do diálogo, da modernidade. Tudo embrulhado em papel de presente e boa consciência.

E depois, para meu espanto — ou talvez não — são essas mesmas mães virgens de conveniência e esses pais pau no cu, armados em santos de procissão, que agora andam chocados, indignados, quase a pedir pena de morte moral para quem já morreu e, prisão perpétua para o Príncipe. Batem no peito, rasgam as vestes, fazem posts revoltados e partilham links com cara de nojo, - tanga….

O problema nunca foi a putaria. A sociedade sempre viveu dela, sempre se alimentou dela, sempre a praticou às escondidas. O problema é quem a pratica. Se é rico, é escândalo. Se é pobre, é crime. Se é longe, é monstruoso. Se é em casa, é educação liberal.

A hipocrisia é isto: apontar o dedo com a mão suja, cuspir moral enquanto se engole silêncio. Fingir horror por aquilo que se tolera no quintal. Condenar nos outros aquilo que se normaliza nos filhos. Fazer de conta que o mal só existe quando aparece na televisão, de preferência com legendas e música dramática.

Eu não sou amigo do Epstein. Nem do Príncipe, nem do Trump, nem de nenhum desses bons vivãs . Mas também não sou amigo desta santidade selectiva, desta moral de tesos bancários e tesos de espírito desta indignação que só acorda quando dá audiências.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Tachos e Tachões


Não é preciso ter dois dedos de testa para entender isto: O Chega gosta de se apresentar como o partido que vem acabar com a mama, moralizar o sistema e impor ordem, sempre muito encostado ao discurso musculado das forças de segurança e à pose marcial de quem nunca perdeu uma oportunidade para bater continência nas redes sociais. O problema é que, quando se vai ver quem realmente arranja lugar à mesa, a conversa muda de tom. O alicerce não é a tropa nem a farda suada dos comentários online, é o velho e conhecido carrossel partidário, com passagens sucessivas pelo PSD, CDS e outros abrigos do sistema, até aparecer um tacho mais confortável. Convém, por isso, apanhar e denunciar os falsos profetas, esses que gritam contra o sistema enquanto vivem dele há décadas.

André Ventura, o rosto do partido, não caiu do céu nem saiu de um quartel, veio do PSD, onde foi militante e candidato em Loures antes de descobrir que o discurso anti-cigano, anti-imigrantes, anti-pretos dava mais votos do que a cartilha social democrata. Rui Gomes da Silva, hoje reciclado no governo sombra do Chega, traz no currículo a vice presidência do PSD, um lugar no Parlamento e um ministério no tempo de Santana Lopes. Rui Cristina também não chegou agora à política, foi deputado e vereador pelo PSD antes de mudar de camisola. Bruno Nunes passou pelo Partido Popular Monárquico, Pedro Pessanha e José Dias Fernandes vêm do CDS, Rita Matias começou na Juventude Popular do mesmo partido, Manuela Tender e Eduardo Teixeira fizeram caminho no PSD, tal como Henrique de Freitas, fundador histórico desse partido que acabou por encontrar abrigo no Chega. Tudo gente rodada, treinada e perfeitamente adaptada às engrenagens do sistema que dizem odiar.

À volta do núcleo duro aparecem ainda figuras não parlamentares, recicladas em governos sombra e iniciativas paralelas, como Rui Teixeira Santos, comentador e académico, Teresa Nogueira Pinto, presença habitual em ambientes conservadores, e Jorge Cid, vindo de estruturas profissionais. Em muitos casos não há registo formal de militância anterior, mas há um passado político claro, feito de proximidades, convites e afinidades convenientes.

O quadro geral é simples e pouco heróico. Enquanto nas redes sociais se multiplicam militares reformados, agentes das forças de segurança e aspirantes a justiceiros a insultar tudo e todos em nome da pátria, da ordem e da moral, nenhum desses guerreiros digitais conseguiu chegar perto de um lugar relevante dentro do partido. O poder ficou, como sempre, nas mãos dos profissionais da política, dos que conhecem bem os corredores, os truques e as portas certas. No fim, a farda serve para o discurso e para intimidar quem ouve. O tacho, esse, continua reservado aos mesmos de sempre.

Ventura quis enfiar no pacote o General Eanes, mas esse é grande demais para se deixar seduzir. 

Os ratos dos quartéis, das esquadras e dos postos, bebem cerveja quente e pagam o silicone dos seios da mulher mas é o outro homem a estrear. Pior é impossível.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

800 anos em 2 minutos



Já não há quem escreva ideias nos blogs. Os melhores saltaram para os jornais, os mais teimosos como eu ficámos mas já somos muito poucos. O país passou a consumir literatura de cordel e qualquer  escrita de escalão zero, qualquer futilidade, nas redes sociais domina as telas  e o imaginário do tuga. Que dizer daqueles que vivem atrás do táctil armados em carapaus de corrido.

Nasci num país antigo para burro, mas que sempre se comportou como se tivesse acabado de acordar. Portugal tem mais passado do que futuro e mais futuro em promessa do que em acção. É um país que começa quase sempre a frase com já fomos, já tivemos, nós éramos.

A história de Portugal é frequentemente contada como epopeia. Eu consigo vê-la como uma sucessão de improvisos bem narrados. Fundámo-nos à pancada, quando o filho roubou as terras à mãe; consolidámo-nos à custa de alianças convenientes e crescemos com a convicção de que Deus estava do nosso lado — argumento útil quando faltaram meios, planeamento e espírito crítico.

Durante séculos, o objectivo foi simples: existir.

Portugal tornou-se especialista em resistir, não necessariamente em prosperar. Criou uma nobreza que vivia de rendas, uma Igreja que explicava o mundo e um povo que trabalhava sem grandes expectativas. A estrutura ficou montada cedo e raramente foi questionada.

Quando percebemos que não havia espaço para crescer cá dentro, fizemo-nos ao mar como génios cheios de coragem. Chegámos a terras habitadas, baptizámo-las, explorámo-las e chamámos a isso missão evangelizadora. Esse discurso funcionou durante algum tempo, sobretudo enquanto o ouro vinha de fora.

O ouro do Brasil foi talvez o maior favor que Portugal recebeu e o maior erro que cometeu. Em vez de investir, fez festas; em vez de estruturar, ornamentou. Construiu igrejas e palácios, a ideia da grandeza subiu-lhe à cabeça, andou todo entretido no putedo, desligou-se da realidade e não fez corno. Quando a teta secou, secou mesmo, ficámos com pose de rico e cabeça de pobre.

O terramoto de 1755, atrapalhou que se fartou, abanou tudo e viu-se logo que a coisa não estava firme.

Sebastião José reconstruiu Lisboa, mas não reconstruiu a mentalidade. O país continuou avesso ao conflito intelectual e tentou modernizar à força, deixando uma herança curiosa: reformas feitas sem participação e um hábito persistente de obedecer antes de compreender.

O século XIX passou como passam as coisas em Portugal: devagarinho. Perdemos o Brasil, discutimos constituições, alternámos regimes e mantivemos o essencial — atraso estrutural, analfabetismo e elites fechadas sobre si mesmas. Quando a modernidade chegou, chegou tarde e cansada.

A Primeira República foi barulhenta, confusa, instável e cheia de conversa. Foi incapaz de resolver problemas de fundo. Serviu, acima de tudo, para provar que o país não lidava bem solto em liberdade. A solução veio sob a forma de hospício: ordem, silêncio e disciplina. Sim, é isso mesmo, aquela que o André Ventura agora quer triplicar.

Salazar, à época, era só um. Organizou o país segundo os seus medos. Assumimos então que sermos um país pobre, obediente, rural e moralmente controlado era, para ele, sinónimo de estabilidade.

Inventou Fátima e prometeu não nos meter em confusões. A táctica durou décadas porque assentava numa verdade desconfortável: grande parte do país preferia segurança à mudança. Entretanto, emigrava-se em massa, fazia-se contrabando nas fronteiras e, nas noites frias e de breu, em profundo silêncio, passavam-se gentes para França. O falso império ficara para trás.

A guerra colonial foi o colapso final da ilusão. Manter colónias pela força num mundo em descolonização não era bravura, era negação. O 25 de Abril não foi apenas o fim de uma ditadura; foi o fim de uma mentira prolongada. De repente, o país teve de pensar no que queria ser.

Durante algum tempo, acreditou-se. Depois, normalizou-se. A democracia instalou-se funcional, previsível e pouco exigente. Entrámos na Europa e recebemos fundos como quem recebe mesada: gastámos, não mostrámos serviço e adiámos a conversa necessária. Construímos estradas, prédios e discursos optimistas. Nada de pensamento estratégico, pouca ciência sustentada, zero visão de longo prazo.

Quando chegaram as crises, adoptou-se a ideia padrão, o machado final: corta-se onde dói menos aos de cima e pede-se sacrifício aos de baixo, palavra bonita para designar o velho hábito de aguentar. O país aguenta tudo — rendas impossíveis, salários baixos e futuros adiados — e ainda agradece a Deus por não ser o pior.

Hoje vendemos destino seguro, solarengo e simpático, exportamos jovens qualificados e importamos aquela coisa horrível que tomou conta e descaracterizou a Baixa Pombalina, com lojas de bugigangas e restaurantes de qualidade duvidosa. Criámos assim um modelo económico coxo. Basta a terra voltar a tremer e está tudo fodido outra vez. Portugal vive da memória do império, do charme da decadência e da promessa vaga de que isto há-de melhorar, enquanto meia dúzia de iluminados acredita num varredor milagroso que há-de varrer o país.

O nosso problema nunca foi falta de talento. Foi excesso de conformismo. Ser bem-educado, falar baixo e não incomodar virou virtude. Ensinámos gerações a esperar, a adaptar-se, a não levantar ondas. Criou-se uma identidade inteira baseada na sobrevivência e demos-lhe um nome bonito.

Fomos um país que fez história, mas tem dificuldade em imaginar o próprio futuro. Não por incapacidade, mas por hábito. Habituámo-nos a pouco. E, enquanto não mudarmos, continuaremos exímios a contar as façanhas do passado e modestos a preparar-nos para o pior.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 25 de janeiro de 2026

Tacho de Leite



Lá em baixo, juntinho ao mar, onde há belas praias, vida boa para os turistas e vida fodida para os naturais, existe uma Câmara Municipal, a de Albufeira, presidida por Rui Cristina, do partido Chega. O presidente nomeou a sua própria irmã, Sara Cristina, para adjunta do gabinete de apoio à vereação, com um salário de 2.411 euros.

Perguntado sobre essa treta do nepotismo, o presidente da autarquia garante que não interferiu no processo e defende que se trata de uma designação em regime de mobilidade, baseada no currículo e na experiência profissional da nomeada.

A nomeação foi formalizada na reunião camarária de 16 de Dezembro de 2025 pela vereadora Cristina Corado, numa sessão em que Rui Cristina não esteve presente.

Assim, a Sra. Eng.ª transitou para Albufeira, município chefiado pelo irmão, situação que o autarca afirma não ter qualquer carácter político. 

Na Assembleia camarária a 30 de Dezembro, Rui Cristina insistiu que “não se trata de uma nomeação política, mas de uma designação”. 

Moral da história: os mamíferos do Chega mamam como os outros: na teta da mãe, na teta do Estado e neste caso, nem a teta do irmão escapou. É um Tacho de Leite.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 18 de janeiro de 2026

A bandalheira e os miseráveis




Quando eu era jovem e vivia em Portugal, aprendi que vestir uma farda militar não era um capricho estético nem era um exercício de vaidade pessoal. Vestir uma farda representava e representa disciplina obediência e serviço ao Estado muitas vezes em condições que a maioria dos cidadãos nunca enfrentou. Quem a envergou sabe o que é viver sob ordens, suportar o cansaço, o medo e a responsabilidade de representar a soberania nacional. A farda não é um adereço político nem um símbolo disponível para quem quer capitalizar a imagem das Forças Armadas para benefício próprio, como Ventura acabou de fazer, numa encenação grotesca e oportunista.

Ser militar não é uma questão de aparência. É uma condição construída com formação, juramento, de bandeira e juramento de fedelidade dentro de um enquadramento legal e submissão a um código disciplinar exigente. Aceitar tudo disposto a servir mesmo quando isso implica abdicar de conforto, segurança e, por vezes, da própria vida. As insígnias e os uniformes existem para identificar quem pertence legitimamente a essa estrutura, não para alimentar farsas públicas de autoridade ou pertença.

Em muitos países democráticos, o uso indevido de fardas militares por civis é tratado como infração. A razão é simples: a farda simboliza o Estado e a sua força legítima. Quando um civil a utiliza sem autorização, apropria-se de um símbolo institucional que não lhe pertence. Em vários ordenamentos jurídicos, esse comportamento pode configurar crime, sobretudo quando existe a intenção de criar uma imagem de autoridade, prestígio ou legitimidade que nunca foi conquistada. Mesmo quando não há condenação judicial, há sempre uma violação ética grave, porque se desrespeita o serviço militar e se engana a opinião pública.

O problema torna-se ainda mais sério quando essa utilização ocorre no campo político. A instrumentalização da imagem militar para fins partidários corrói a separação essencial entre as Forças Armadas e a luta política. A farda não deve servir de cenário para discursos populistas nem de disfarce simbólico para quem nunca esteve sujeito às exigências da vida militar. Quando isso acontece, não é apenas mau gosto. É uma banalização consciente de valores construídos com sacrifício real.

Para quem serviu, para quem carregou o peso do compromisso e da responsabilidade, é ofensivo ver a farda transformada em ferramenta de propaganda. Não se trata de nostalgia nem de corporativismo. Trata-se de respeito por uma instituição que existe para servir o país, não para servir ambições pessoais. A passividade das entidades responsáveis, o silêncio das hierarquias e a complacência das autoridades políticas representam uma falha grave na defesa da dignidade militar.

A farda não é figurino, não é ornamento, não é marketing político. É um emblema de serviço, disciplina e sacrifício. Permitir que seja usada como máscara por quem nunca viveu essa realidade é trair o significado da própria instituição militar e desrespeitar todos os que nela serviram com seriedade.

E por isso, mais do que criticar quem se aproveita da imagem das Forças Armadas, é necessário apontar o dedo aos que o permitem, aos que se calam, aos que fingem não ver. Esses são os verdadeiros responsáveis pela degradação do respeito institucional. Esses são, sem rodeios, os miseráveis.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Afinal, aquilo é nosso



Trump acorda, coça o ego, olha para o mapa e decide que hoje quer a Gronelândia. Amanhã, se calhar, o Algarve, e depois, quem sabe, a Rinchoa. O homem deve ter muito açúcar no sangue, só pode.

Os portugueses não disseram nada. Zero. Os patriotários ficaram todos em silêncio. Os heróis da pátria foram todos para a campanha do Ventura e não quiseram saber da ilha do gelo. Era o último bastião da civilização ocidental e está a ser entregue ao imobiliário americano.

Mas calma: tecnicamente, aquilo já é nosso desde 1494. Está no Tratado de Tordesilhas, o acordo em que dois impérios ibéricos dividiram o planeta como quem corta um bolo-rei mal partido.

Daqui para a direita é meu, daí para a esquerda é teu.

A Gronelândia encaixa na perfeição. Se já lá fomos de caravela foi por causa do bacalhau — do frio nem por isso, porque nós sempre tivemos a fábrica de gelo na Serra de Montejunto e nunca precisamos de mexer na nossa reserva congelada.

Trump anda a tentar comprar gelo com dólares quando aquilo é património lusitano congelado. Falta só a burocracia, café curto e um pastel de nata.

O Ventura, esse Napoleão de tasca, criado na incubadora da CMTV, prepara-se para governar com ar solene e discurso de espelho. Um homem “fora do sistema” que vive do sistema, mama do sistema e recebeu milhões do sistema para convencer os ingénuos de que é um rebelde.

Rebeldia patrocinada.

Fala mais alto, logo é líder.

É esta a nova ciência política.

Quando se sentar na cadeira grande, já se conhece o guião: estado de emergência, slogans patrióticos, pose de salvador da pátria. Democracia em versão trailer.

Não é guerra de tanques, é guerra de narrativas. Slogans, inimigos imaginários, factos alternativos. A verdade morre esmagada entre opiniões histéricas.

O mundo joga ao Risiko com armas reais e líderes de plástico. Hoje é a Gronelândia, amanhã é tudo o resto, em promoção geopolítica.

E eu vou buscar os tratados do século XV porque ninguém quer encarar o século XXI.

Mas ao menos dá para rir.

Rir antes que a piada vire decreto.

Se a Gronelândia é nossa, que venha com bacalhau e carimbos.

Porque, se for para enlouquecer, ao menos que seja a rir.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Direitos humanos com sabor a crude.



O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou sem rodeios que Washington pretende impedir que o petróleo venezuelano chegue a países considerados adversários. A declaração, longe de ser um deslize diplomático, é a confissão clara da verdadeira razão do assalto dos Estados Unidos à Venezuela. Não se trata de democracia, nem de direitos humanos, nem de liberdade. Trata-se de petróleo, de controlo geopolítico e de punição exemplar a quem se recusa a obedecer.

A União Europeia, como manda a tradição, reuniu-se. Reuniu-se para nada decidir, para nada alterar e para repetir o guião gasto de sempre. Duas porta-vozes apareceram quase em simultâneo para debitar a converseta habitual perante os jornalistas: preocupação, diálogo, acompanhamento da situação. Um teatro burocrático cuidadosamente ensaiado para não incomodar Washington nem assumir qualquer responsabilidade. Sabem quem chefia aquilo? O Toninho Costa.

A ONU também reuniu-se para nada decidir. Sabem quem chefia aquilo? O Toino Guterres.

A estes dois portugueses juntou-se o governo de Portugal, fiel à sua irrelevância estratégica autoimposta, e alinhou sem hesitação. Tomou uma posição vergonhosa, previsível e servil, como tantas outras ao longo das últimas décadas. Não por convicção, mas por hábito; não por coragem política, mas por medo de sair da fila. Portugal anda sempre a papaguear valores, mas abdica sistematicamente de os defender quando eles exigem algum custo.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

Publicação em destaque

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"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...