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segunda-feira, 18 de maio de 2026

O regresso dos homens do mato


Chamem-lhe ironia que a vida esconde, castigo político ou simples suicídio eleitoral. Cabo Verde conseguiu aquilo que parecia improvável: entregar, de bandeja e com laço azul, uma maioria absoluta aos comunistas guinéus. Não porque eles descobriram a fórmula mágica da redenção nacional, nem porque apresentaram um programa revolucionário capaz de incendiar a esperança popular. Não, nada disso. O poder mudou de mãos porque o MPD trabalhou arduamente para o entregar. É preciso reconhecer mérito onde ele existe. Perder assim exige muito talento.

Foi pelas mãos de Ulisses Correia e Silva e pela coreografia da palermice de Abrão Vicente — esse misto de entertainer institucional e cronista do fracasso — que se abriu o caminho para o regresso dos chamados “homens do mato”, expressão que durante anos serviu de espantalho eleitoral.

Durante anos, o MPD governou com o conforto típico de quem acredita que venceu a História, que ele era a própria História. Instalou-se nele próprio a convicção perigosa de que governar era um direito natural e não uma concessão temporária do eleitor. Quando um partido começa a confundir vitória eleitoral com herança divina, o relógio já começou a contar para a queda da lâmina da guilhotina. O poder, em Cabo Verde como em qualquer parte de África, intoxica. A uns embriaga discretamente; a outros, torna-os deuses.

Ulisses e a sua corte cedo revelaram o clássico síndrome africano: a paixão mórbida pelo poder. Agarraram-se ao aparelho de Estado com a dedicação de um cão ao osso. Já não governavam para convencer; governavam para permanecer. E, quando um governo passa mais tempo a proteger-se do desgaste do que a resolver problemas, a erosão torna-se inevitável. O mais impressionante não foi só a arrogância. O impressionante foi a inutilidade dessa mesma arrogância. Tinham tudo: poder, comunicação, máquina partidária, influência institucional e tempo suficiente para reformar estruturalmente áreas críticas. E, no entanto, falharam no essencial. Não resolveram o problema da pobreza.

A retórica daquela velha conversa das parcerias floresceu. Vieram os indicadores, o crescimento, as conferências, os painéis, os fóruns internacionais e muita conversa mole. Mas o cidadão comum continuou a viver num país estatisticamente pobre e quotidianamente caro. As famílias continuaram a fazer malabarismos entre renda, alimentação, transporte e educação. A juventude, sem esperança, continuou a olhar para o aeroporto e para os paquetes como quem contempla uma saída de emergência. A maior exportação nacional foi a fuga dos mais jovens. E aqui reside uma das maiores acusações políticas ao MPD: não conseguiu criar horizontes para os jovens.

Um governo não precisa resolver tudo, ó cambada de incompetentes; precisa criar expectativa credível de melhoria. Precisa fabricar esperança racional. Precisa convencer o cidadão de que, se não está melhor hoje, poderá estar amanhã. O MPD falhou nisso! Não criou esperança. Criou fadiga. Até eu, daqui bem longe, fiquei cansado. A comunicação tornou-se exercício de auto-contemplação. Parecia haver uma obsessão permanente com a própria imagem. O governo passou demasiado tempo a admirar-se ao espelho. Enquanto isso, o país real acumulava frustrações.

Abrão Vicente, por exemplo, em vez de funcionar como político, preferiu muitas vezes a galhofa, o sarcasmo e a personalização do combate. Fez política como quem faz entretenimento de fim de semana. Atacou-se Francisco Carvalho enquanto personagem, nunca enquanto projeto político. Erro elementar. Abrão, quando se ridiculariza um adversário sem desmontar as ideias que o sustentam, oferece-se a ele um presente precioso: a vitimização. O eleitor não vota necessariamente por amor. Muitas vezes vota por irritação. E o MPD irritou-me também. Irritou pela sensação de soberba. Irritou pela incapacidade de perceber que o eleitorado não é obrigado a gostar de quem se sente inevitável.

Olavo Correia, eterno ministro das Finanças, transformou-se numa figura quase mitológica: sempre presente, sempre central, sempre mentiroso. A impressão pública foi a de um homem tecnicamente incompetente e politicamente desconectado da angústia material da população. Números não enchem panelas; discursos sobre finanças públicas não pagam renda. O maior pecado do MPD foi a incapacidade de compreender a natureza do voto de protesto. As eleições não foram apenas uma escolha ideológica. Foram um ajuste de contas emocional. O eleitor cansou-se. Cansou-se da sensação de permanência eterna. Cansou-se do discurso autorreferencial. Cansou-se de promessas recicladas. Cansou-se da estética de superioridade moral e intelectual. E decidiu punir.

A oposição não precisou fazer nenhum brilharete. Bastou esperar que o governo se autodestruísse metodicamente. Foi isso que aconteceu. O MPD não perdeu para adversários particularmente geniais. Perdeu para a própria incapacidade de ouvir. A política tem uma regra simples: quem deixa de escutar começa a falar sozinho.

Foi exatamente isso. Enquanto o cidadão falava de custo de vida, precariedade, emigração e ausência de perspetivas, o poder, ou Olavo, respondia com performance. Enquanto o país pedia soluções, Abrão oferecia espetáculo. Resultado: maioria absoluta para quem, ontem, era tratado como ameaça civilizacional. Há uma justiça quase literária nisto. Durante anos, vendeu-se o medo do regresso dos “homens do mato”. No fim, foi o próprio MPD quem lhes abriu a porta, estendeu a passadeira vermelha e acenou cordialmente. Não foram derrotados apenas nas urnas. Foram derrotados pela vaidade. A história política cabo-verdiana regista agora mais um capítulo clássico: governos raramente caem apenas pela força dos adversários. Caem, sobretudo, quando se convencem de que são insubstituíveis.

O MPD acreditou nisso. Pagou por isso. E Cabo Verde acorda hoje perante uma nova realidade política, construída não tanto pela genialidade dos vencedores, mas pela monumental incompetência estratégica dos vencidos. Os homens do mato regressaram. Mas convém dizer a verdade: não invadiram.

Foram convidados.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 17 de maio de 2026

Uma enorme proeza acabar à frente do Braga.

 

Se não és meu amigo, este bilhete não é para ti. Passa ao lado e vai-te embora daqui.

Desde já, desejo-vos a todos uma boa estadia na Liga Europa. O Elvis Presley e o Benfica brilharam nos anos 60. O primeiro já bateu as botas e o segundo também, mas ainda se acha grande. Os benfiquistas são como os fãs do Elvis: acham que o Benfica está vivo. Os meus amigos são saudosistas e pensam que ainda estão nos anos 60.

Vejam só: no ano de 2024, o Pedro Proença disse que o «Benfica acha-se valer sozinho mais do que todos os outros clubes juntos». Concordo inteiramente com ele, hoje mais do que nunca, e por isso deixo uma sugestão prática aos meus amigos benfiquistas.

Que o Benfica jogue sozinho. Ou, melhor ainda, que dispute uma competição exclusiva contra equipas formadas por sócios, simpatizantes, amigos e demais fauna encarnada.

Numa semana joga contra os benfiquistas casados. Na outra, contra os solteiros. Depois vêm os viúvos, os divorciados, os mal-amados, os bem-amados, os frustrados, os pobres, os ricos, os cornudos e os machões da internet, que são sempre valentes atrás de um teclado e de uma foto de perfil de águia.

Assim fica resolvido. Criam oficialmente a Liga Benfica, onde competem apenas entre eles, vendem as boxes uns aos outros, transmitem tudo na BTV para consumo interno e mantêm a coisa em circuito fechado, como convém às grandes famílias cecilianas.

Fica tudo em casa, tudo em família, e deixam finalmente o resto do país em paz.

Nós, simples mortais, poupamos horas intermináveis de televisão ocupadas com debates sobre o estado emocional do Benfica, as injustiças cósmicas sofridas pelo clube e os dramas existenciais da nação encarnada.

E ficamos também livres do desfile habitual: do Brasuca, da Sofia, do Pipa, do Abel, do Dani, do Luís e daquele de cabelo oleoso que escreve cartas abertas a jogadores, presidentes e dirigentes, como se fosse uma espécie de correio sentimental institucional. A mim nunca me escreveu nenhuma, o que considero uma deselegância.

Depois, esses mesmos juntam-se aos outros da BTV e daquele ex árbitro cegueta e comentam JUNTOS a gloriosa Liga Benfica, num ambiente de felicidade auto-sustentável.

A propósito: parabéns aos benfiquistas por terem conseguido a extraordinária proeza de acabar à frente do Braga. Uma conquista verdadeiramente inesquecível.” 


Carrega Benfica!


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Megafone na mão , Moral na boca e Milhões nos bolsos

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O áudio divulgado ontem pelo Intercept Brasil apertou o nó no pescoço de Flávio Bolsonaro, ligou o cronómetro regressivo para destrancar o cadafalso e deixou à direita radical portuguesa a ingrata tarefa de apagar o fogo que o próprio ateou sobre si. 

Tudo começou no momento em que veio a público a gravação onde o filho de Jair Bolsonaro aparece a pedir dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o próprio pai. Segundo a investigação, estavam em causa pelo menos 61 milhões de reais já pagos, num total negociado que podia chegar aos 134 milhões.

É curioso observar isto vindo de gente que vive da pose moralista. Ainda há pouco tempo, o CHEGA recebia o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, aos gritos de “ladrão”, megafone na mão, num espetáculo que parecia mais assembleia de associação de estudantes do 9.º ano do que deputados do segundo maior partido no parlamento de um país democrático.

André Ventura construiu durante anos parte da sua narrativa política em cima da beatificação da família Bolsonaro. Vendeu a ideia de que ali estava uma espécie de reserva moral do Ocidente: patriotas perseguidos, vítimas do sistema, gente incorruptível atacada por uma conspiração global de juízes, imprensa e esquerda.

A realidade tem um defeito irritante: costuma estragar propaganda.

Jair Bolsonaro está envolvido em processos relacionados com tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral e também em investigações ligadas à apropriação e venda de presentes oficiais recebidos durante a presidência, bens pertencentes ao Estado brasileiro.

Entretanto, Eduardo Bolsonaro passou meses nos Estados Unidos a internacionalizar a narrativa de perseguição, pressionando aliados republicanos e vendendo a tese de que o Brasil já não seria uma democracia funcional, mas uma ditadura judicial. A estratégia era simples: descredibilizar as instituições brasileiras no exterior para produzir capital político interno.

Agora surge Flávio Bolsonaro, senador, advogado e potencial candidato presidencial, ligado a um banqueiro no centro de um escândalo financeiro. O mesmo Flávio que aparece em áudio a pedir milhões para financiar um filme biográfico sobre o pai. Não estamos a falar de crowdfunding entre fãs. Estamos a falar de negociações milionárias com Daniel Vorcaro, associado ao Banco Master e alvo de investigações por suspeitas de fraude e irregularidades financeiras.

A ironia é demasiado boa para ser ignorada: a família que passou anos a denunciar corrupção alheia aparece repetidamente orbitada por dinheiro opaco, negócios nebulosos e explicações criativas.

A família Bolsonaro vive da política há décadas. Acumulou um património imobiliário vastíssimo, frequentemente envolto em polémicas sobre pagamentos em numerário e incompatibilidades patrimoniais. Tudo isto enquanto discursava contra “o sistema”.

São iguais aos outros? Nem isso. Porque os outros raramente constroem toda a sua identidade política sobre superioridade moral e pureza ética.

É por isso que esta história interessa ao CHEGA. Não é apenas um escândalo brasileiro. É um problema de coerência política para quem escolheu os Bolsonaro como referência ideológica, símbolo anticorrupção e modelo de combate cultural.

Quando se passa anos a chamar ladrão a toda a gente, convém ao menos garantir que os teus aliados não aparecem em áudios a pedir dezenas de milhões a banqueiros investigados.

Agora percebe-se melhor porque tantos bolsonaristas gravitam em torno de Ventura em Portugal. Reconhecem-se uns aos outros. Não por acaso, mas por afinidade.

No fim, a moral desta história é simples: a direita radical gosta muito de vender pureza, ordem e limpeza moral. Até ao momento em que se abre uma gaveta, cai um áudio, e sai de lá exatamente o lixo que juravam limpar. 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Antes deles havia o Heliporto no hospital da FAP

Felizmente nunca senti o cheiro putrefato das entranhas do Exército. Não gosto deles, porque, ao longo de toda a sua história, nunca fizeram nada que se veja. Souberam sim arranjar uma catrefada de Generais inúteis. Tão inúteis que quase todos abandonaram as paradas e passaram a formar-se  nos becos e vielas das televisões. Qual deles o mais ataviado na língua. Uns é Sra. Doutora para aqui, Sra. Doutora para ali; outros de ponteira na mão, a fazer graçola e a encher a cabeça aos telespectadores com montes de círculos, riscos e rabiscos no quadro interactivo. Uns são pró-Putin, outros pró-Zelensky, outros pró-Trump, outros pró-NATO, outros anti-NATO e há ainda os de umbigo grande, sempre contra o Estado português. Também há os sensatos como aquele general da FAP que é o da minha guerra.

Agora que estes Generais, outrora sentados e reservados, descobriram a vida activa - ia eu a caminho de uma fonte, em busca de água anti-pedra nos rins, ouvindo rádio, quando apanhei os números mais citados para ilustrar o tema da conversa. Serviço militar obrigatório sim ou não. 

Total de militares activos neste ano de 2026: 24.517 militares. Oficiais + Sargentos: ~59%, Praças: ~41%

Aplicando isto ao efectivo actual, temos então 14.465 oficiais e sargentos para 10.052 praças.

Traduzindo por miúdos: há cerca de 1,44 militares de chefia ou intermédios por cada soldado. 

Invertendo para o patego entender: há 1 praça para cada 1,44 oficiais e sargentos. E quase parece haver 1 General para cada 7 militares. Entenderam? 

Tantos que devem ter passado a carreira inteira a atropelarem-se uns aos outros, sempre à procura de mais uma estrela.

Os tipos viviam para as estrelas ali na Estrela, naquele enfadonho monumento e outros  intrincheirados em anexos e mais anexos por Lisboa inteira.

Sem homens para comandar, tornaram-se numa praga encaixados em todos os buracos, tascas e tabernas institucionais. Vejam só isto; os gajos até tiveram tempo para pensarem na aviação ligeira do Exército, uma verdadeira anedota à portuguesa, mas nem sequer tinham um hospital capaz.

Com tantos Generais, conseguiram comprar os paraquedistas à Força Aérea. Lá nos Páras também havia muita fome de estrelas, portanto aceitaram felizes  - e chegados ao Exército, todos carregaram estrelas que nem mulas.  Os sargentos, também se safaram: foram promovidos e ála daqui que é cardume e foram à vidinha deles. 

Com tanta azáfama esqueceram-se de mim, deixaram-me esticado na cama do Hospital.

Era ao hospital que eu queria chegar com esta conversa mole.

Infelizmente, esta semana houve um acidente durante um salto em Tancos, envolvendo dois militares.

Os militares em causa não foram evacuados para o Hospital das Forças Armadas. Um foi levado para o Hospital de Abrantes e outro para o Hospital de Leiria.

Sabem porquê?

Porque, desde que o exército de Generais tomou conta do Hospital da FAP, transformaram o heliporto num parque de estacionamento.

No meu acidente tive o privilégio de ter sido evacuado de helicóptero directamente para o Hospital da FAP. Infelizmente os nossos camaradas acidentados não tiveram essa sorte. Puseram-nos a deambular pelos hospitais de Portugal até ao hospital final.  Ao nosso camarada falecido :

 - Até amanhã camarada!


Obs: Sou amigo pessoal de alguns Generais.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quarta-feira, 6 de maio de 2026

O profeta do Largo Rato

 A extrema-direita não entrou pela porta das forças de segurança de rompante, não. Não, não. Foi-se infiltrando pelas frestas das janelas, pelos cafés de esquina, pelos grupos de WhatsApp, pelas conversas de corredor onde a farda pesa menos do que a cartilha ideológica do CHEGA. E assim se conseguiu a proeza nacional de transformar parte da PSP — outrora instituição respeitada, humanizada e confiável — numa espécie de laboratório da bandalheira, onde a autoridade se confundiu com arrogância e a ordem pública com tiques de milícia armada.

Há anos que escrevo sobre esta contaminação política plantada dentro das forças de segurança, e não é só na PSP, não. O que antes era murmurado em voz baixa, hoje exibe-se sem vergonha, como se a radicalização fosse medalha de mérito. Vi amigos meus na PSP deixarem de me falar porque eu tive a ousadia quase revolucionária de não seguir o profeta Ventura. Alguma malta da PSP seguiu-o até ao Rato.

E, chegados ao Largo do Rato, encontramos um episódio que não surpreende ninguém minimamente atento. Apenas confirma aquilo que já se sabia: quando se alimenta durante anos uma cultura de impunidade moral, alguns acabam por acreditar que a farda lhes concede licença para brincar aos justiceiros de bairro. Estrangeiros, sem-abrigo, pretos, toxicodependentes — os alvos preferidos da valentia selectiva. Curioso como a coragem revolucionária destes heróis costuma escolher sempre quem já está de joelhos.

Isto mete-me nojo.

Não apenas pelos agentes envolvidos, mas pelo silêncio cúmplice das chefias, que assistem à lenta degradação institucional como quem observa infiltrações no tecto e decide meter um balde por baixo. Há uma passividade obscena em deixar polícias entregues à própria deriva ideológica, como se a disciplina tivesse sido subcontratada ao algoritmo do Facebook e ao entusiasmo político da mulher da limpeza de Portugal.

As chefias fazem de conta que não vêem. O Estado reage sempre tarde, como a polícia nos filmes americanos. E a democracia, essa, vai pagando a conta dessa bandalheira toda.

Agora resta esperar que a justiça faça aquilo que tantas vezes parece faltar dentro da própria instituição: separar autoridade de abuso, serviço público de delírio partidário.

A coisa vai apertar. O Ventura não vai aparecer montado num cavalo branco, de espada em punho, para resgatar os seus fiéis. Esses possivelmente vão apodrecer, e bem, na cadeia.

É urgente que alguém diga àqueles da PSP, aos meus camaradas militares, aos barulhentos reformados do CHEGA e ao profeta André Ventura que o único momento em que um homem olha de cima para baixo para outro homem é para lhe esticar a mão e ajudá-lo a levantar.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

sexta-feira, 1 de maio de 2026

RoadHouse

 

Finalmente o sonho - 3 horas ininterruptamente no formato Roadhouse.

Alinhamento:

Knoking hevens door, patience Paradise City. Welcome to the Jungle, Sweet Child o' Mine

Nightrain, Good Times Bad Times, Kashmir, No Quarter, Black Dog, Stairway to Heaven

Whole Lotta Love, Rock and Roll. Another  Bric in the wall, Mother, Confortably Numb e Mentira de JPP.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

sábado, 25 de abril de 2026

No tempo do Óscar

 No tempo do Óscar, era desejo fora da norma

Hoje, chamaria a isso: espírito gay.


Óscar Wilde pediu a amigos que usassem cravos tingidos de verde na lapela numa estreia teatral. Não por capricho botânico, mas por gosto pelo artifício. Uma flor antinatural, portanto mais interessante do que qualquer coisa que a natureza tivesse produzido sem consultar ninguém.

O cravo verde passou a circular como sinal de relações fora da norma vitoriana. Não um manifesto, que isso dava cadeia, mas um código discreto, suficientemente elegante para não ofender à primeira vista e suficientemente claro para quem sabia ler.

Wilde, que nunca teve grande paciência para o culto do natural, via ali o essencial: algo que não existe espontaneamente a servir de símbolo. Artificialidade consciente, identidade construída, recusa das regras impostas por quem confunde hábito com verdade.

O uso do cravo verde era também uma pequena provocação à sociedade conservadora. Nada de escândalos ruidosos, apenas um detalhe na lapela a dizer mais do que muitos discursos. Uma marca de pertença a um grupo que preferia o desvio inteligente à conformidade aborrecida.

À superfície, elegância. Por baixo, subversão.

Pode-se, sem grande risco de disparate, ligar isto ao que hoje se chamaria espírito gay. Na altura não havia rótulos modernos, havia códigos. Não se falava de identidade, falava-se de gosto, de estética, de afinidades que não cabiam nas categorias oficiais.

Para Wilde, - o cravo verde representa isso mesmo: desejo fora da norma, culto do artifício e uma forma discreta de reconhecimento entre iguais numa sociedade que preferia fingir que eles não existiam.

Eu estava desconfiado do tal espírito.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

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"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...