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terça-feira, 23 de junho de 2026

O Grupinho dos 50


Tenho nojo deles, sim, de uns quantos daquela espécie que se reproduz em Lisboa, nas catacumbas do poder, nos gabinetes ministeriais, nas sedes partidárias e, quando não conseguem, vão para as páginas dos jornais e para os manifestos do grupo. Tenho nojo da hipocrisia deles. Daquela hipocrisia e dos discursos como gordura rançosa.

Desde o 25 de Abril e, sobretudo, depois das sucessivas revisões constitucionais, assistimos à construção lenta de um edifício judicial que foi crescendo sem que quase ninguém se preocupasse em lhe medir as fundações. Ano após ano, governo após governo, legislatura após legislatura, o Ministério Público foi adquirindo mais corda, mais folga, mais espaço e mais capacidade de intervenção na vida pública. Essa coisada não aconteceu de um dia para o outro. Foi uma construção paciente, feita tijolo a tijolo, decreto a decreto, até se tornar dono capião do quintal.

Quem questionava os excessos era acusado pelo presidente do sindicato dos magistrados de querer proteger corruptos. Quem defendia garantias processuais era marcado com tinta-da-china na testa e chamuscado no tribunal dos jornais. Foi assim, foi assim que criaram uma cultura fedorenta em que uma simples suspeita passou a valer quase tanto como uma condenação.

Eu, que desde 2012 escrevo regularmente no meu blogue e já publiquei centenas de textos, perdi a conta das vezes que abordei esta questão. Escrevi sobre prisões preventivas excessivas. Escrevi sobre fugas de informação. Escrevi sobre julgamentos mediáticos. Escrevi sobre a facilidade com que a reputação de uma pessoa pode ser destruída antes de qualquer decisão judicial.

Escrevi para surdos. Ou talvez não fossem surdos. Talvez apenas estivessem demasiado ocupados a assobiar para o lado porque o problema atingia os outros, ninguém quis saber.

Enquanto a devassa recaía sobre o vizinho, sobre o adversário político, o empresário da moda ou o presidente de qualquer coisa, tudo bem. Afinal, tinham na manga aquela frase de merda: à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.

Quem não deve teme, mas esqueceram-se de temer a denúncia falsa. Temer a incompetência. Temer a demora. Temer o sensacionalismo. Temer a máquina trituradora de carne humana. A máquina que abre uma investigação, depois abre outra e logo vem uma busca, depois outra.

Anos depois descobre-se que a montanha pariu um rato.

Mas o rato já não interessa a ninguém.

A carreira foi destruída. O nome ficou chamuscado. A família foi exposta, os filhos gramaram o pior, os amigos afastaram-se. Os vizinhos fizeram julgamentos sumários à janela.

E quando tudo termina, ninguém devolve nada, e ninguém publicita a inocência.

Recentemente, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos voltou a condenar Portugal por violações relacionadas com direitos fundamentais e garantias processuais. Não foi a primeira vez e dificilmente será a última. O problema não está apenas numa decisão ou num caso concreto.

Mas o que me causa verdadeiro nojo não é apenas isso.

O que me causa verdadeiro nojo é assistir agora ao despertar súbito das consciências adormecidas, como dizia o filósofo Sócrates.

Subitamente apareceu um grupo de figuras públicas, antigos responsáveis políticos, antigos presidentes da Assembleia da República, ex-ministros, ex-deputados e outras personalidades respeitáveis, a alertar para os perigos dos abusos processuais, das fugas de informação, da ausência de controlo e da necessidade de cumprir prazos.

E eu pergunto:

Onde estavam esses gajos?

Onde estavam quando tinham poder?

Onde estavam quando ocupavam os cargos que lhes permitiam legislar?

Onde estavam eles quando podiam apresentar propostas?

Onde estavam quando podiam mudar leis?

Onde estavam quando podiam travar aquilo que hoje denunciam?

Eu sei. Os gajos estavam sentados nas cadeiras do poder, a coçar os tomates.

Durante anos acharam que o problema era dos outros. Achavam que as buscas por dar aquela palha eram coisas dos outros, 

acharam que as escutas eram para os outros, acharam que as fugas de informação eram para os outros.

Acharam que os julgamentos mediáticos eram para os outros.

Até ao dia que lhes baterem à porta.

É sempre assim.

Em Portugal existe uma curiosa tradição política. Enquanto o incêndio arde na casa do vizinho, a malta curiosa da desgraca alheia discute a cor do fumo.

Hoje assistimos ao espectáculo dos arrependidos. Os mesmos que nada fizeram apresentam-se agora como reformadores. Os mesmos que deixaram crescer o problema apresentam-se como solução. Os mesmos que permaneceram em silêncio durante anos descobrem finalmente a voz.

E é por isso que tenho nojo deles.

Não apenas dos que abusam do poder.

Mas também dos que o tiveram nas mãos e nada fizeram.

E há outra coisa importante: sempre que o povo foi chamado a decidir, decidiu-se mal.

Dou um exemplo:

Quando Pôncio Pilatos deu a escolher ao povo, o povo não hesitou e escolheu libertar um ladrão e não Jesus Cristo.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 9 de junho de 2026

Martelada


Há uma espécie muito particular da vida pública portuguesa: o pregador profissional da moralidade.

A sua principal atividade consiste em explicar aos outros como devem viver.

Durante décadas, Luís Delgado ocupou esse espaço com notável competência. Entrava-nos pela sala dentro através da televisão com aquele ar sereno, pausado, quase professoral, como quem vinha da montanha trazer tábuas da lei para um povo perdido em tentações e pecados.

Falava de ética, de responsabilidade, de valores, de carácter e, sobretudo, dos outros. Sim, porque os moralistas raramente falam de si próprios.

Na televisão, a imagem era irrepreensível. Transmitia confiança, a voz ponderação, o discurso a ideia de alguém que sabia distinguir o certo do errado e que, por alguma razão misteriosa, se sentia na obrigação cívica de nos lembrar disso semanalmente.

E nós ouvíamos, ouvíamos, ouvíamos até nos doer o fígado. Uns concordavam. Eu sempre o achei pedante e demasiado moralista, nunca gostei dele, mas ouvia-o com cuidado enquanto se sentia aquele cheiro a lavado e a perfume dos caros.

De repente, aquele homem que durante anos distribuiu certificados de boa conduta e regras da etiqueta, como as que me ensinou a Paula Bobone nas aulas de compostura, o país vê-se confrontado com decisões judiciais que traçam um retrato bem diferente da imagem cuidadosamente polida ao longo de décadas.

A distância entre a janela virtual da TV e a realidade do banco dos réus é tão grande que quase dá para estacionar lá dentro toda a coleção de sermões que foi distribuindo ao longo da carreira.

É aqui que a história ganha contornos deliciosamente irónicos. Alguém que construiu uma parte significativa da sua notoriedade precisamente em torno da ideia de integridade, responsabilidade e superioridade moral.

Passou anos a apontar o dedo aos outros; devia ter o cuidado mínimo de verificar se o próprio telhado aguenta uma tempestade.

Mas a arrogância tem um problema: convence frequentemente as pessoas de que as regras servem apenas para os restantes mortais.

Na televisão, tudo parecia arrumado.

Nos tribunais, a arrumação revelou-se uma trapalhada grossa do Luís.

Na televisão, a postura era de magistrado da consciência nacional.

Luís foi condenado a pagar cerca de 23 milhões de euros e acusado de ter sido responsável pela falência da revista Visão, por martelar contas e praticar gestão financeira sem papéis. Está proibido de exercer gestão de património de outros durante 6 anos.

Ainda assim, o Luís, o admirável Luís, com uma persistência quase heroica, consegue arranjar energia suficiente para continuar a escrever, a comentar e a ocupar espaço nas páginas da revista que ele próprio levou à falência.

Fantástico 

Adérito BarbosaAdérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Peregrino da noite


Se disse que estava tudo bem

Foi só da boca para fora

Se sorri ao mundo dias inteiros

Desabei ao fechar a porta


Há coisas que ninguém entende

Há dor que se esconde da mente

Cansei de fingir ser forte

Quando por dentro sou diferente


Hoje não há belas palavras

Nem frases feitas para crer

Só vim porque preciso

Pois sozinho não se sabe viver


E quando vem a lucidez

Estou sozinho outra vez

Sozinho por dentro de novo

A ouvir o ranger das paredes


Se o Estranho do Fumo ouvir

Mesmo sem voz para falar

Que leia o meu silêncio

No pó que ficou no lugar


Há noites em que olho o tecto

E o céu parece fechado

Chamo, chamo, e só o eco

Me devolve o que foi calado


Perdi-me nos pensamentos

Afogado no meu próprio medo

Procuro-te nas esquinas

E em tudo o que ficou a meio


Procuro-te nas luzes tardias

Nos copos esquecidos no balcão

Mas encontro-te sempre por instantes

Num gole de angústia e solidão


Então volto da forma que posso

Sem força, sem saber dizer

O Estranho Homem do Fumo

Nunca aparece para responder


Mas deixa um rasto nos espelhos

E cinza onde ninguém fumou

Como se tivesse passado

E algo de mim levasse ou deixou


Eu não sei falar de outro modo

Sei que preciso de ficar acordado

Se houver outro caminho

Talvez já o tenha cruzado


Antes que desista

Antes que me deixe cair

Antes que a noite me leve

Ao convívio dos fantasmas

Que esperam sem nunca partir


Letra escrita para uma canção 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Adeus General Almendra

 Descanse em paz General

A minha mãe era funcionária dos tios dele. O Sr. Zeca e a Dona Lili Almendra. Ele, o sobrinho famoso, coronel dos paraquedistas, e eu um puto ranhoso que, sempre que não havia aulas ou tinha furo, aparecia lá por casa e levava horas de conversa sobre os Páras, saltos, tropas e electrónica. Uma seca monumental para um miúdo que só lá passava para os cumprimentar - um ritual sagrado imposto pelos velhos.

E a Dona Lili sempre na mesma cantiga:

— Eu digo ao sobrinho Heitor que tu és filho da Betina e ele ajuda-te.

Aquilo entrou-me na cabeça como entram todas as ilusões perigosas da juventude. E quando me vi apertado na Casa do Gaiato de Lisboa, pirei-me direitinho para os Páras, convencido de que, se a coisa corresse mal, lá estaria o Almendra, netinho do Sr. Zeca, a estender-me o tapete vermelho para eu subir na vida.

Foi preciso exactamente um minuto dentro da Base Escola para eu perceber que jamais, em tempo algum, abriria a boca para dizer que era protegido dos tios do Almendra.

Nos Páras, ter cunhas era o equivalente militar de pintar um alvo nas costas. Era meio caminho andado para flexões até os braços entrarem em falência técnica. Ali não havia filhos de ninguém. Havia apenas desgraçados a sofrer em colectivo.

Portanto, segui o meu caminho no anonimato mais absoluto. E cedo percebi que o melhor para a minha saúde física era manter o Almendra longe dos meus processos, os instrutores longe do meu nome e toda a gente longe das histórias da Dona Lili Almendra e do José Almendra.

A vida foi andando e eu fazendo o meu caminho de pedras. Acabei colocado na Secção de Justiça e cruzávamo-nos amiúde no edifício do Comando sempre que ele aparecia na Base Escola. Ele de patente alta, eu a tentar subir os degraus.

Décadas depois, já ele reformado pela idade e eu pela reforma extraordinária, encontrámo-nos num evento na BETP. Durante o almoço, no refeitório de praças, resolvi finalmente dizer-lhe quem era.

Olhou para mim, abriu um sorriso e saiu-lhe logo:

— Seu sacana. A minha tia passava a vida a falar de ti. Porque é que nunca me disseste nada durante todos estes anos?

Falámos demoradamente. Dos tios dele. Da minha mãe, que ele conhecia muito bem. Mas já estavam todos mortos.

No fim deu-me o contacto dele e deixou o recado exactamente igual ao dos tios:

— Regista o meu número. Se precisares de alguma coisa, liga-me. Ou então vai almoçar comigo.

E ao saber da notícia da morte do nosso General Almendra, dei por mim a recordar o Sr. Zeca, a Dona Lili, a minha mãe, a Base, os instrutores, as flexões e aquele estranho mundo dos Páras onde não fui capaz de me servir da cunha.

Descanse em paz, General Almendra. Diga aos seus tios que me viu safando sozinho.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O regresso dos homens do mato


Chamem-lhe ironia que a vida esconde, castigo político ou simples suicídio eleitoral. Cabo Verde conseguiu aquilo que parecia improvável: entregar, de bandeja e com laço azul, uma maioria absoluta aos comunistas guinéus. Não porque eles descobriram a fórmula mágica da redenção nacional, nem porque apresentaram um programa revolucionário capaz de incendiar a esperança popular. Não, nada disso. O poder mudou de mãos porque o MPD trabalhou arduamente para o entregar. É preciso reconhecer mérito onde ele existe. Perder assim exige muito talento.

Foi pelas mãos de Ulisses Correia e Silva e pela coreografia da palermice de Abrão Vicente — esse misto de entertainer institucional e cronista do fracasso — que se abriu o caminho para o regresso dos chamados “homens do mato”, expressão que durante anos serviu de espantalho eleitoral.

Durante anos, o MPD governou com o conforto típico de quem acredita que venceu a História, que ele era a própria História. Instalou-se nele próprio a convicção perigosa de que governar era um direito natural e não uma concessão temporária do eleitor. Quando um partido começa a confundir vitória eleitoral com herança divina, o relógio já começou a contar para a queda da lâmina da guilhotina. O poder, em Cabo Verde como em qualquer parte de África, intoxica. A uns embriaga discretamente; a outros, torna-os deuses.

Ulisses e a sua corte cedo revelaram o clássico síndrome africano: a paixão mórbida pelo poder. Agarraram-se ao aparelho de Estado com a dedicação de um cão ao osso. Já não governavam para convencer; governavam para permanecer. E, quando um governo passa mais tempo a proteger-se do desgaste do que a resolver problemas, a erosão torna-se inevitável. O mais impressionante não foi só a arrogância. O impressionante foi a inutilidade dessa mesma arrogância. Tinham tudo: poder, comunicação, máquina partidária, influência institucional e tempo suficiente para reformar estruturalmente áreas críticas. E, no entanto, falharam no essencial. Não resolveram o problema da pobreza.

A retórica daquela velha conversa das parcerias floresceu. Vieram os indicadores, o crescimento, as conferências, os painéis, os fóruns internacionais e muita conversa mole. Mas o cidadão comum continuou a viver num país estatisticamente pobre e quotidianamente caro. As famílias continuaram a fazer malabarismos entre renda, alimentação, transporte e educação. A juventude, sem esperança, continuou a olhar para o aeroporto e para os paquetes como quem contempla uma saída de emergência. A maior exportação nacional foi a fuga dos mais jovens. E aqui reside uma das maiores acusações políticas ao MPD: não conseguiu criar horizontes para os jovens.

Um governo não precisa resolver tudo, ó cambada de incompetentes; precisa criar expectativa credível de melhoria. Precisa fabricar esperança racional. Precisa convencer o cidadão de que, se não está melhor hoje, poderá estar amanhã. O MPD falhou nisso! Não criou esperança. Criou fadiga. Até eu, daqui bem longe, fiquei cansado. A comunicação tornou-se exercício de auto-contemplação. Parecia haver uma obsessão permanente com a própria imagem. O governo passou demasiado tempo a admirar-se ao espelho. Enquanto isso, o país real acumulava frustrações.

Abrão Vicente, por exemplo, em vez de funcionar como político, preferiu muitas vezes a galhofa, o sarcasmo e a personalização do combate. Fez política como quem faz entretenimento de fim de semana. Atacou-se Francisco Carvalho enquanto personagem, nunca enquanto projeto político. Erro elementar. Abrão, quando se ridiculariza um adversário sem desmontar as ideias que o sustentam, oferece-se a ele um presente precioso: a vitimização. O eleitor não vota necessariamente por amor. Muitas vezes vota por irritação. E o MPD irritou-me também. Irritou pela sensação de soberba. Irritou pela incapacidade de perceber que o eleitorado não é obrigado a gostar de quem se sente inevitável.

Olavo Correia, eterno ministro das Finanças, transformou-se numa figura quase mitológica: sempre presente, sempre central, sempre mentiroso. A impressão pública foi a de um homem tecnicamente incompetente e politicamente desconectado da angústia material da população. Números não enchem panelas; discursos sobre finanças públicas não pagam renda. O maior pecado do MPD foi a incapacidade de compreender a natureza do voto de protesto. As eleições não foram apenas uma escolha ideológica. Foram um ajuste de contas emocional. O eleitor cansou-se. Cansou-se da sensação de permanência eterna. Cansou-se do discurso autorreferencial. Cansou-se de promessas recicladas. Cansou-se da estética de superioridade moral e intelectual. E decidiu punir.

A oposição não precisou fazer nenhum brilharete. Bastou esperar que o governo se autodestruísse metodicamente. Foi isso que aconteceu. O MPD não perdeu para adversários particularmente geniais. Perdeu para a própria incapacidade de ouvir. A política tem uma regra simples: quem deixa de escutar começa a falar sozinho.

Foi exatamente isso. Enquanto o cidadão falava de custo de vida, precariedade, emigração e ausência de perspetivas, o poder, ou Olavo, respondia com performance. Enquanto o país pedia soluções, Abrão oferecia espetáculo. Resultado: maioria absoluta para quem, ontem, era tratado como ameaça civilizacional. Há uma justiça quase literária nisto. Durante anos, vendeu-se o medo do regresso dos “homens do mato”. No fim, foi o próprio MPD quem lhes abriu a porta, estendeu a passadeira vermelha e acenou cordialmente. Não foram derrotados apenas nas urnas. Foram derrotados pela vaidade. A história política cabo-verdiana regista agora mais um capítulo clássico: governos raramente caem apenas pela força dos adversários. Caem, sobretudo, quando se convencem de que são insubstituíveis.

O MPD acreditou nisso. Pagou por isso. E Cabo Verde acorda hoje perante uma nova realidade política, construída não tanto pela genialidade dos vencedores, mas pela monumental incompetência estratégica dos vencidos. Os homens do mato regressaram. Mas convém dizer a verdade: não invadiram.

Foram convidados.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 17 de maio de 2026

Uma enorme proeza acabar à frente do Braga.

 

Se não és meu amigo, este bilhete não é para ti. Passa ao lado e vai-te embora daqui.

Desde já, desejo-vos a todos uma boa estadia na Liga Europa. O Elvis Presley e o Benfica brilharam nos anos 60. O primeiro já bateu as botas e o segundo também, mas ainda se acha grande. Os benfiquistas são como os fãs do Elvis: acham que o Benfica está vivo. Os meus amigos são saudosistas e pensam que ainda estão nos anos 60.

Vejam só: no ano de 2024, o Pedro Proença disse que o «Benfica acha-se valer sozinho mais do que todos os outros clubes juntos». Concordo inteiramente com ele, hoje mais do que nunca, e por isso deixo uma sugestão prática aos meus amigos benfiquistas.

Que o Benfica jogue sozinho. Ou, melhor ainda, que dispute uma competição exclusiva contra equipas formadas por sócios, simpatizantes, amigos e demais fauna encarnada.

Numa semana joga contra os benfiquistas casados. Na outra, contra os solteiros. Depois vêm os viúvos, os divorciados, os mal-amados, os bem-amados, os frustrados, os pobres, os ricos, os cornudos e os machões da internet, que são sempre valentes atrás de um teclado e de uma foto de perfil de águia.

Assim fica resolvido. Criam oficialmente a Liga Benfica, onde competem apenas entre eles, vendem as boxes uns aos outros, transmitem tudo na BTV para consumo interno e mantêm a coisa em circuito fechado, como convém às grandes famílias cecilianas.

Fica tudo em casa, tudo em família, e deixam finalmente o resto do país em paz.

Nós, simples mortais, poupamos horas intermináveis de televisão ocupadas com debates sobre o estado emocional do Benfica, as injustiças cósmicas sofridas pelo clube e os dramas existenciais da nação encarnada.

E ficamos também livres do desfile habitual: do Brasuca, da Sofia, do Pipa, do Abel, do Dani, do Luís e daquele de cabelo oleoso que escreve cartas abertas a jogadores, presidentes e dirigentes, como se fosse uma espécie de correio sentimental institucional. A mim nunca me escreveu nenhuma, o que considero uma deselegância.

Depois, esses mesmos juntam-se aos outros da BTV e daquele ex árbitro cegueta e comentam JUNTOS a gloriosa Liga Benfica, num ambiente de felicidade auto-sustentável.

A propósito: parabéns aos benfiquistas por terem conseguido a extraordinária proeza de acabar à frente do Braga. Uma conquista verdadeiramente inesquecível.” 


Carrega Benfica!


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Megafone na mão , Moral na boca e Milhões nos bolsos

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O áudio divulgado ontem pelo Intercept Brasil apertou o nó no pescoço de Flávio Bolsonaro, ligou o cronómetro regressivo para destrancar o cadafalso e deixou à direita radical portuguesa a ingrata tarefa de apagar o fogo que o próprio ateou sobre si. 

Tudo começou no momento em que veio a público a gravação onde o filho de Jair Bolsonaro aparece a pedir dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o próprio pai. Segundo a investigação, estavam em causa pelo menos 61 milhões de reais já pagos, num total negociado que podia chegar aos 134 milhões.

É curioso observar isto vindo de gente que vive da pose moralista. Ainda há pouco tempo, o CHEGA recebia o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, aos gritos de “ladrão”, megafone na mão, num espetáculo que parecia mais assembleia de associação de estudantes do 9.º ano do que deputados do segundo maior partido no parlamento de um país democrático.

André Ventura construiu durante anos parte da sua narrativa política em cima da beatificação da família Bolsonaro. Vendeu a ideia de que ali estava uma espécie de reserva moral do Ocidente: patriotas perseguidos, vítimas do sistema, gente incorruptível atacada por uma conspiração global de juízes, imprensa e esquerda.

A realidade tem um defeito irritante: costuma estragar propaganda.

Jair Bolsonaro está envolvido em processos relacionados com tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral e também em investigações ligadas à apropriação e venda de presentes oficiais recebidos durante a presidência, bens pertencentes ao Estado brasileiro.

Entretanto, Eduardo Bolsonaro passou meses nos Estados Unidos a internacionalizar a narrativa de perseguição, pressionando aliados republicanos e vendendo a tese de que o Brasil já não seria uma democracia funcional, mas uma ditadura judicial. A estratégia era simples: descredibilizar as instituições brasileiras no exterior para produzir capital político interno.

Agora surge Flávio Bolsonaro, senador, advogado e potencial candidato presidencial, ligado a um banqueiro no centro de um escândalo financeiro. O mesmo Flávio que aparece em áudio a pedir milhões para financiar um filme biográfico sobre o pai. Não estamos a falar de crowdfunding entre fãs. Estamos a falar de negociações milionárias com Daniel Vorcaro, associado ao Banco Master e alvo de investigações por suspeitas de fraude e irregularidades financeiras.

A ironia é demasiado boa para ser ignorada: a família que passou anos a denunciar corrupção alheia aparece repetidamente orbitada por dinheiro opaco, negócios nebulosos e explicações criativas.

A família Bolsonaro vive da política há décadas. Acumulou um património imobiliário vastíssimo, frequentemente envolto em polémicas sobre pagamentos em numerário e incompatibilidades patrimoniais. Tudo isto enquanto discursava contra “o sistema”.

São iguais aos outros? Nem isso. Porque os outros raramente constroem toda a sua identidade política sobre superioridade moral e pureza ética.

É por isso que esta história interessa ao CHEGA. Não é apenas um escândalo brasileiro. É um problema de coerência política para quem escolheu os Bolsonaro como referência ideológica, símbolo anticorrupção e modelo de combate cultural.

Quando se passa anos a chamar ladrão a toda a gente, convém ao menos garantir que os teus aliados não aparecem em áudios a pedir dezenas de milhões a banqueiros investigados.

Agora percebe-se melhor porque tantos bolsonaristas gravitam em torno de Ventura em Portugal. Reconhecem-se uns aos outros. Não por acaso, mas por afinidade.

No fim, a moral desta história é simples: a direita radical gosta muito de vender pureza, ordem e limpeza moral. Até ao momento em que se abre uma gaveta, cai um áudio, e sai de lá exatamente o lixo que juravam limpar. 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

Publicação em destaque

Florbela Espanca, Correspondência (1916)

"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...