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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

800 anos em 2 minutos



Já não há quem escreva ideias nos blogs. Os melhores saltaram para os jornais, os mais teimosos como eu ficámos mas já somos muito poucos. O país passou a consumir literatura de cordel e qualquer  escrita de escalão zero, qualquer futilidade, nas redes sociais domina as telas  e o imaginário do tuga. Que dizer daqueles que vivem atrás do táctil armados em carapaus de corrido.

Nasci num país antigo para burro, mas que sempre se comportou como se tivesse acabado de acordar. Portugal tem mais passado do que futuro e mais futuro em promessa do que em acção. É um país que começa quase sempre a frase com já fomos, já tivemos, nós éramos.

A história de Portugal é frequentemente contada como epopeia. Eu consigo vê-la como uma sucessão de improvisos bem narrados. Fundámo-nos à pancada, quando o filho roubou as terras à mãe; consolidámo-nos à custa de alianças convenientes e crescemos com a convicção de que Deus estava do nosso lado — argumento útil quando faltaram meios, planeamento e espírito crítico.

Durante séculos, o objectivo foi simples: existir.

Portugal tornou-se especialista em resistir, não necessariamente em prosperar. Criou uma nobreza que vivia de rendas, uma Igreja que explicava o mundo e um povo que trabalhava sem grandes expectativas. A estrutura ficou montada cedo e raramente foi questionada.

Quando percebemos que não havia espaço para crescer cá dentro, fizemo-nos ao mar como génios cheios de coragem. Chegámos a terras habitadas, baptizámo-las, explorámo-las e chamámos a isso missão evangelizadora. Esse discurso funcionou durante algum tempo, sobretudo enquanto o ouro vinha de fora.

O ouro do Brasil foi talvez o maior favor que Portugal recebeu e o maior erro que cometeu. Em vez de investir, fez festas; em vez de estruturar, ornamentou. Construiu igrejas e palácios, a ideia da grandeza subiu-lhe à cabeça, andou todo entretido no putedo, desligou-se da realidade e não fez corno. Quando a teta secou, secou mesmo, ficámos com pose de rico e cabeça de pobre.

O terramoto de 1755, atrapalhou que se fartou, abanou tudo e viu-se logo que a coisa não estava firme.

Sebastião José reconstruiu Lisboa, mas não reconstruiu a mentalidade. O país continuou avesso ao conflito intelectual e tentou modernizar à força, deixando uma herança curiosa: reformas feitas sem participação e um hábito persistente de obedecer antes de compreender.

O século XIX passou como passam as coisas em Portugal: devagarinho. Perdemos o Brasil, discutimos constituições, alternámos regimes e mantivemos o essencial — atraso estrutural, analfabetismo e elites fechadas sobre si mesmas. Quando a modernidade chegou, chegou tarde e cansada.

A Primeira República foi barulhenta, confusa, instável e cheia de conversa. Foi incapaz de resolver problemas de fundo. Serviu, acima de tudo, para provar que o país não lidava bem solto em liberdade. A solução veio sob a forma de hospício: ordem, silêncio e disciplina. Sim, é isso mesmo, aquela que o André Ventura agora quer triplicar.

Salazar, à época, era só um. Organizou o país segundo os seus medos. Assumimos então que sermos um país pobre, obediente, rural e moralmente controlado era, para ele, sinónimo de estabilidade.

Inventou Fátima e prometeu não nos meter em confusões. A táctica durou décadas porque assentava numa verdade desconfortável: grande parte do país preferia segurança à mudança. Entretanto, emigrava-se em massa, fazia-se contrabando nas fronteiras e, nas noites frias e de breu, em profundo silêncio, passavam-se gentes para França. O falso império ficara para trás.

A guerra colonial foi o colapso final da ilusão. Manter colónias pela força num mundo em descolonização não era bravura, era negação. O 25 de Abril não foi apenas o fim de uma ditadura; foi o fim de uma mentira prolongada. De repente, o país teve de pensar no que queria ser.

Durante algum tempo, acreditou-se. Depois, normalizou-se. A democracia instalou-se funcional, previsível e pouco exigente. Entrámos na Europa e recebemos fundos como quem recebe mesada: gastámos, não mostrámos serviço e adiámos a conversa necessária. Construímos estradas, prédios e discursos optimistas. Nada de pensamento estratégico, pouca ciência sustentada, zero visão de longo prazo.

Quando chegaram as crises, adoptou-se a ideia padrão, o machado final: corta-se onde dói menos aos de cima e pede-se sacrifício aos de baixo, palavra bonita para designar o velho hábito de aguentar. O país aguenta tudo — rendas impossíveis, salários baixos e futuros adiados — e ainda agradece a Deus por não ser o pior.

Hoje vendemos destino seguro, solarengo e simpático, exportamos jovens qualificados e importamos aquela coisa horrível que tomou conta e descaracterizou a Baixa Pombalina, com lojas de bugigangas e restaurantes de qualidade duvidosa. Criámos assim um modelo económico coxo. Basta a terra voltar a tremer e está tudo fodido outra vez. Portugal vive da memória do império, do charme da decadência e da promessa vaga de que isto há-de melhorar, enquanto meia dúzia de iluminados acredita num varredor milagroso que há-de varrer o país.

O nosso problema nunca foi falta de talento. Foi excesso de conformismo. Ser bem-educado, falar baixo e não incomodar virou virtude. Ensinámos gerações a esperar, a adaptar-se, a não levantar ondas. Criou-se uma identidade inteira baseada na sobrevivência e demos-lhe um nome bonito.

Fomos um país que fez história, mas tem dificuldade em imaginar o próprio futuro. Não por incapacidade, mas por hábito. Habituámo-nos a pouco. E, enquanto não mudarmos, continuaremos exímios a contar as façanhas do passado e modestos a preparar-nos para o pior.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 25 de janeiro de 2026

Tacho de Leite



Lá em baixo, juntinho ao mar, onde há belas praias, vida boa para os turistas e vida fodida para os naturais, existe uma Câmara Municipal, a de Albufeira, presidida por Rui Cristina, do partido Chega. O presidente nomeou a sua própria irmã, Sara Cristina, para adjunta do gabinete de apoio à vereação, com um salário de 2.411 euros.

Perguntado sobre essa treta do nepotismo, o presidente da autarquia garante que não interferiu no processo e defende que se trata de uma designação em regime de mobilidade, baseada no currículo e na experiência profissional da nomeada.

A nomeação foi formalizada na reunião camarária de 16 de Dezembro de 2025 pela vereadora Cristina Corado, numa sessão em que Rui Cristina não esteve presente.

Assim, a Sra. Eng.ª transitou para Albufeira, município chefiado pelo irmão, situação que o autarca afirma não ter qualquer carácter político. 

Na Assembleia camarária a 30 de Dezembro, Rui Cristina insistiu que “não se trata de uma nomeação política, mas de uma designação”. 

Moral da história: os mamíferos do Chega mamam como os outros: na teta da mãe, na teta do Estado e neste caso, nem a teta do irmão escapou. É um Tacho de Leite.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 18 de janeiro de 2026

A bandalheira e os miseráveis




Quando eu era jovem e vivia em Portugal, aprendi que vestir uma farda militar não era um capricho estético nem era um exercício de vaidade pessoal. Vestir uma farda representava e representa disciplina obediência e serviço ao Estado muitas vezes em condições que a maioria dos cidadãos nunca enfrentou. Quem a envergou sabe o que é viver sob ordens, suportar o cansaço, o medo e a responsabilidade de representar a soberania nacional. A farda não é um adereço político nem um símbolo disponível para quem quer capitalizar a imagem das Forças Armadas para benefício próprio, como Ventura acabou de fazer, numa encenação grotesca e oportunista.

Ser militar não é uma questão de aparência. É uma condição construída com formação, juramento, de bandeira e juramento de fedelidade dentro de um enquadramento legal e submissão a um código disciplinar exigente. Aceitar tudo disposto a servir mesmo quando isso implica abdicar de conforto, segurança e, por vezes, da própria vida. As insígnias e os uniformes existem para identificar quem pertence legitimamente a essa estrutura, não para alimentar farsas públicas de autoridade ou pertença.

Em muitos países democráticos, o uso indevido de fardas militares por civis é tratado como infração. A razão é simples: a farda simboliza o Estado e a sua força legítima. Quando um civil a utiliza sem autorização, apropria-se de um símbolo institucional que não lhe pertence. Em vários ordenamentos jurídicos, esse comportamento pode configurar crime, sobretudo quando existe a intenção de criar uma imagem de autoridade, prestígio ou legitimidade que nunca foi conquistada. Mesmo quando não há condenação judicial, há sempre uma violação ética grave, porque se desrespeita o serviço militar e se engana a opinião pública.

O problema torna-se ainda mais sério quando essa utilização ocorre no campo político. A instrumentalização da imagem militar para fins partidários corrói a separação essencial entre as Forças Armadas e a luta política. A farda não deve servir de cenário para discursos populistas nem de disfarce simbólico para quem nunca esteve sujeito às exigências da vida militar. Quando isso acontece, não é apenas mau gosto. É uma banalização consciente de valores construídos com sacrifício real.

Para quem serviu, para quem carregou o peso do compromisso e da responsabilidade, é ofensivo ver a farda transformada em ferramenta de propaganda. Não se trata de nostalgia nem de corporativismo. Trata-se de respeito por uma instituição que existe para servir o país, não para servir ambições pessoais. A passividade das entidades responsáveis, o silêncio das hierarquias e a complacência das autoridades políticas representam uma falha grave na defesa da dignidade militar.

A farda não é figurino, não é ornamento, não é marketing político. É um emblema de serviço, disciplina e sacrifício. Permitir que seja usada como máscara por quem nunca viveu essa realidade é trair o significado da própria instituição militar e desrespeitar todos os que nela serviram com seriedade.

E por isso, mais do que criticar quem se aproveita da imagem das Forças Armadas, é necessário apontar o dedo aos que o permitem, aos que se calam, aos que fingem não ver. Esses são os verdadeiros responsáveis pela degradação do respeito institucional. Esses são, sem rodeios, os miseráveis.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Afinal, aquilo é nosso



Trump acorda, coça o ego, olha para o mapa e decide que hoje quer a Gronelândia. Amanhã, se calhar, o Algarve, e depois, quem sabe, a Rinchoa. O homem deve ter muito açúcar no sangue, só pode.

Os portugueses não disseram nada. Zero. Os patriotários ficaram todos em silêncio. Os heróis da pátria foram todos para a campanha do Ventura e não quiseram saber da ilha do gelo. Era o último bastião da civilização ocidental e está a ser entregue ao imobiliário americano.

Mas calma: tecnicamente, aquilo já é nosso desde 1494. Está no Tratado de Tordesilhas, o acordo em que dois impérios ibéricos dividiram o planeta como quem corta um bolo-rei mal partido.

Daqui para a direita é meu, daí para a esquerda é teu.

A Gronelândia encaixa na perfeição. Se já lá fomos de caravela foi por causa do bacalhau — do frio nem por isso, porque nós sempre tivemos a fábrica de gelo na Serra de Montejunto e nunca precisamos de mexer na nossa reserva congelada.

Trump anda a tentar comprar gelo com dólares quando aquilo é património lusitano congelado. Falta só a burocracia, café curto e um pastel de nata.

O Ventura, esse Napoleão de tasca, criado na incubadora da CMTV, prepara-se para governar com ar solene e discurso de espelho. Um homem “fora do sistema” que vive do sistema, mama do sistema e recebeu milhões do sistema para convencer os ingénuos de que é um rebelde.

Rebeldia patrocinada.

Fala mais alto, logo é líder.

É esta a nova ciência política.

Quando se sentar na cadeira grande, já se conhece o guião: estado de emergência, slogans patrióticos, pose de salvador da pátria. Democracia em versão trailer.

Não é guerra de tanques, é guerra de narrativas. Slogans, inimigos imaginários, factos alternativos. A verdade morre esmagada entre opiniões histéricas.

O mundo joga ao Risiko com armas reais e líderes de plástico. Hoje é a Gronelândia, amanhã é tudo o resto, em promoção geopolítica.

E eu vou buscar os tratados do século XV porque ninguém quer encarar o século XXI.

Mas ao menos dá para rir.

Rir antes que a piada vire decreto.

Se a Gronelândia é nossa, que venha com bacalhau e carimbos.

Porque, se for para enlouquecer, ao menos que seja a rir.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Direitos humanos com sabor a crude.



O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou sem rodeios que Washington pretende impedir que o petróleo venezuelano chegue a países considerados adversários. A declaração, longe de ser um deslize diplomático, é a confissão clara da verdadeira razão do assalto dos Estados Unidos à Venezuela. Não se trata de democracia, nem de direitos humanos, nem de liberdade. Trata-se de petróleo, de controlo geopolítico e de punição exemplar a quem se recusa a obedecer.

A União Europeia, como manda a tradição, reuniu-se. Reuniu-se para nada decidir, para nada alterar e para repetir o guião gasto de sempre. Duas porta-vozes apareceram quase em simultâneo para debitar a converseta habitual perante os jornalistas: preocupação, diálogo, acompanhamento da situação. Um teatro burocrático cuidadosamente ensaiado para não incomodar Washington nem assumir qualquer responsabilidade. Sabem quem chefia aquilo? O Toninho Costa.

A ONU também reuniu-se para nada decidir. Sabem quem chefia aquilo? O Toino Guterres.

A estes dois portugueses juntou-se o governo de Portugal, fiel à sua irrelevância estratégica autoimposta, e alinhou sem hesitação. Tomou uma posição vergonhosa, previsível e servil, como tantas outras ao longo das últimas décadas. Não por convicção, mas por hábito; não por coragem política, mas por medo de sair da fila. Portugal anda sempre a papaguear valores, mas abdica sistematicamente de os defender quando eles exigem algum custo.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O dó não caiu do céu



Tenho um sintetizador Korg Wavestation EX há muitos anos encostado na sala a fazer bibelot, lembrei-me de o montar no meu pequeno estúdio. Peguei nele, liguei-o à mesa, fi-lo passar por um PA a sério e atirei o som para umas BOSE Acoustimass III. E, surpresa das surpresas, aquilo resultou em cheio. Tão em cheio que até as minhas admiradoras intervieram espontaneamente no processo de investigação sonora. A gata apareceu no estúdio a miar , como sempre faz quando há música, e a minha mulher entrou à força, para testemunhar o meu brilhar no teclado.

Sentei-me, arregacei as mangas, fiz a habitual ginástica aos dedos e desatei a tocar, cheio de pose, para as duas. A certa altura armei-me em professor e comecei com a velha lenga-lenga do dó ré mi fá sol lá si, como se estivesse a revelar um segredo só meu. Eis senão quando a minha mulher pergunta, com aquela calma que precede sempre a queda: tudo bem, mas explica lá isso - o nome das notas.

E eu, que não explico nada sem ir ler primeiro, fui investigar. Até porque no domingo vou ter de explicar a dois amigos meus o do ré mi fá sol lá si e convém não dizer disparates.

A verdade é que a história dos nomes das notas musicais é um produto pedagógico, histórico e linguístico, nascido num contexto muito concreto: a música litúrgica medieval europeia.

Durante a Antiguidade e boa parte da Alta Idade Média, a música era transmitida quase exclusivamente por via oral. Usavam-se neumas, sinais gráficos que indicavam apenas o contorno melódico, não alturas exactas, e a organização fazia-se por modos, não por escalas como hoje. Não existiam dó ré mi. Existiam alturas relativas, memorizadas pelo ouvido e pelo corpo.

No século XI, os mosteiros enfrentaram um problema. Era preciso ensinar rapidamente grandes repertórios de canto gregoriano a monges que nem sempre tinham formação musical. A música precisava de padronização, de memorização eficiente e de um sistema escrito que funcionasse. É aqui que entra Guido d’Arezzo, monge beneditino, que não descobriu nota nenhuma nem teve visões divinas. Criou, isso sim, um método didáctico.

A grande ideia de Guido foi usar um hino litúrgico muito conhecido, em que cada verso começava numa nota ligeiramente mais alta do que a anterior: 


- Ut queant laxis, 

- Resonare fibris, 

- Mira gestorum, 

- Famuli tuorum, 

- Solve polluti, 

- Labii reatum, 

- Sancte Iohannes. 

Guido, pegou na primeira sílaba de cada verso e usou-a como nome da nota. Assim nasceram Ut, Re, Mi, Fa, Sol e La. Uma escala de seis sons. Nada de simbologia oculta, nada de metafísica. Pura mnemónica.

O sistema original nem sequer tinha sete notas. O Si apareceu mais tarde, formado pelas iniciais de Sancte Iohannes. Durante muito tempo foi evitado porque criava um intervalo instável, o trítono, e só se fixou definitivamente entre os séculos XVI e XVII.

Também o famoso Ut não sobreviveu intacto. Era uma sílaba fechada, pouco ressonante, difícil de cantar. No século XVII, o músico italiano Giovanni Battista Doni propôs substituí-lo por Do. Uns dizem que vem de Dominus, outros que vem do próprio nome Doni. A explicação mais honesta é fisiológica. Dó abre a boca. Ut trava a língua.

Os nomes das notas não são naturais, não são universais, nem são eternos. São uma ferramenta pedagógica medieval que se transformou em tradição. O que é universal não são os nomes, mas as relações físicas entre frequências sonoras. A música vem do corpo e do ouvido. Os nomes vieram depois, para tentar pôr ordem no caos.

Quanto ao hino em si, convém lembrar que não é poético por acaso. 

Traduzindo

- Ut queant laxis, 

- Resonare fibris, 

- Mira gestorum, 

- Famuli tuorum, 

- Solve polluti, 

- Labii reatum, 

- Sancte Iohannes”  

Quer dizer explicitamente:  vozes soltas, de fibras, de lábios e de ressonância. 

A tradução literal é clara. 

“Para que possam, com vozes soltas, ressoar com as fibras as maravilhas dos feitos dos teus servos, liberta o lábio manchado da sua culpa, ó São João. “

É um texto funcional para cantores, quase técnico. Guido d’Arezzo escolheu-o porque fala do próprio acto de cantar, não por qualquer simbolismo esotérico posterior.

Expliquei isto à minha mulher. Ela ouviu, abanou a cabeça, fez um pois e foi-se embora. A gata ficou. O sintetizador também. E eu continuo a tocar, agora já com muito mais gosto.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A vendedora de patacas

 


Vi o vídeo no TikTok. Apareceu do nada como aparecem hoje as pragas modernas: bem iluminado, sorriso profissional, música de fundo, imagem de satélite a entrar pela terra dentro à velocidade da luz, e uma certeza absoluta que dispensa qualquer dúvida. A vendedora falava directamente para a câmara, naquele tom de quem não está a dar uma opinião, mas a revelar um segredo. Disse-me que, se vivo nas Caldas da Rainha, posso estar sentado numa mina de ouro. Não numa casa. Numa mina. Ouro. Pepitas. Fortuna enterrada debaixo do soalho.

Fiquei preocupado. Não pela valorização, mas pelo estado mental de quem transforma cidades em filões e pessoas em figurantes de uma corrida ao lucro.

Segundo a senhora, dados oficiais indicam que o valor das casas aumentou quase duzentos por cento. O quase é sempre conveniente: não se mede, não se prova, mas impressiona. É um número feito para masturbar a imaginação dos proprietários e excitar ganâncias. A seguir vem a sentença: mais de sessenta por cento dos proprietários não têm noção e acabam por vender por menos do que poderiam. Pobres ignorantes. Sentados sobre ouro sem saber usar a pá.

A solução surge de imediato, como em qualquer esquema respeitável: basta clicar em saber mais. É gratuito. Sem compromisso. Quase um acto de caridade. Até deixar de ser.

Este discurso não é inocente nem ingénuo. É um guião bem ensaiado. Primeiro cria-se a ilusão de riqueza escondida. Depois instala-se o medo de perder dinheiro. Por fim oferece-se o serviço salvador: eu sei quanto pedir. Tu não.

O que ninguém parece querer dizer — talvez porque estraga o negócio — é que os preços das casas não sobem sozinhos. Não acordam de manhã com vontade de valorizar. São pessoas que pedem mais. São intermediários que incentivam a pedir mais. São discursos repetidos até à exaustão que criam a sensação de que pedir menos é estupidez, quase traição.

No Oeste a bicharada anda à solta. E não é exagero. Toda a gente anda deslumbrada: proprietários, mediadores, comentadores de café e especialistas de redes sociais. Fala-se de metros quadrados como quem fala de criptomoedas. Tudo sobe, tudo valoriza, tudo é oportunidade. E quanto mais se repete, mais se normaliza.

As vendedoras do TikTok não vendem casas. Vendem expectativas inflacionadas. Vendem a ideia de que a casa não é um lugar para viver, mas um activo a espremer até ao limite. E fazem-no com um sorriso limpo, como se não tivessem qualquer responsabilidade no resultado final.

Mas têm. Têm muita.

Porque quando se convence uma massa crítica de proprietários de que vive sobre ouro, cria-se um mercado artificialmente pressionado. Todos pedem mais porque todos acham que podem pedir mais. O mercado deixa de reflectir rendimentos, contexto local ou realidade social. Passa a reflectir apenas ganância coordenada e medo de ficar para trás.

E depois fingimos surpresa quando ninguém consegue comprar casa. Fingimos que é uma força natural. Uma tempestade inevitável. O mercado está assim, dizem, como se não estivesse a ser alimentado todos os dias por discursos destes.

A pouca vergonha está precisamente aqui: na capacidade de dizer tudo isto em público e ainda se apresentar como especialista. Na normalização da ideia de que o problema não são preços obscenos, mas proprietários pouco ambiciosos. Na transformação da habitação num jogo de casino onde ganha quem já tem e perde quem precisa.

O tom é sempre o mesmo: pedagógico, quase maternal. Eu só quero ajudar. Ajudar quem? Não é quem precisa de casa. É quem pode pedir mais. Sempre mais. Porque há sempre um comprador imaginário disposto a pagar tudo. Porque alguém disse que sim. Porque o TikTok garante.

A casa deixa de ser casa. Passa a ser pepita. E quem questiona isto é logo acusado de não perceber o mercado, de ser invejoso, de viver no passado. Como se fosse antiquado achar indecente transformar um direito básico numa febre de burla legitimada.

Não, não estou sentado numa mina de ouro. Estou sentado numa cidade real, com pessoas reais, salários reais e problemas reais. E sou obrigado a assistir à transformação dessa cidade num filão explorável, onde a pouca vergonha se mascara de empreendedorismo e a irresponsabilidade se vende como conselho profissional.

A bicharada anda à solta no Oeste porque foi deixada. Porque dá dinheiro. Porque convém. E enquanto discursos como o daquela vendedora continuarem a ser tratados como normais, o mercado imobiliário continuará a empurrar pessoas para fora, com sorriso na cara e comissão no bolso.

E no fim, quando já ninguém consegue viver onde nasceu, ainda perguntam porque raio é que o vendedor de patacas anda a regular o preço das casas.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...