“Lá vamos, cantando e rindo,
Levados, levados, sim,
Pela voz de som tremendo
Das tubas, clamor sem fim”
Quem não se lembra daquele magnífico boneco na capa dura do livro da 4.ª classe e dos dias quentes da Revolução do 25 de Abril, do nascimento dos sociais-democratas, dos socialistas, dos comunistas, dos radicais de esquerda e agora dos radicais de direita, os arautos da justiça, da transparência e de exigir aos outros aquilo que eles não cumprem. — Estou a lembrar-me de tachos, panelas, tachinhos, malas, pedófilos e promessas vãs...
E às vezes dou comigo a pensar: afinal, estes gajos são todos iguais. Mudam as bandeiras, mudam as camisolas, mas o tacho continua a ser tacho. E todos os partidos recebem dinheiro do Estado, incluindo o partido do Ventura, todos!
fim da introdução.
Agora vamos ao que interessa.
Se uma empresa se atrasa a pagar as contribuições ao Estado, leva pancada a doer. Se o pequeno patrão não entrega as contribuições, há coimas e tribunal. Se o cidadão não paga a tempo, vêm cartas e cartinhas, juros, penhoras — desse pessoal fazem a vida num inferno.
A EDP é um caso especial. O Fisco não conseguiu cobrar 332 milhões de euros. Parece que a coisa já prescreveu. - Viram como são as coisas?
Assim como a EDP, o Estado não cumpre, ninguém lhe bate à porta, ninguém lhe manda a carta dos quinze dias, ninguém lhe cobra juros.
Quem penhora os imóveis ao Estado? Ninguém!
E é aqui que aparecem os tais milhares de milhões relacionados com responsabilidades do Estado para com a Caixa Geral de Aposentações. Fala-se em 7 mil milhões, fala-se em valores que chegam aos 17 mil milhões. Eu não sei qual é a conta certa. Mas sei uma coisa: se está errada, mostrem as contas; se está certa, expliquem onde está o dinheiro. Não venham com a treta do costume.
O Governo macaco como como sempre, encomendou um estudo sobre a sustentabilidade da CGA e recusou a lê-lo. — a Segurança Social está em risco, não há dinheiro, é preciso reformar, trabalhar mais, contribuir mais e sabe Deus que mais.
Calma aí. Antes de me dizerem que não há dinheiro para a reforma dos cidadãos, expliquem primeiro o dinheiro que o próprio Estado devia ter posto e não pôs na CGA. Quanto, quanto ficou por entrar? Quem decidiu? Porquê?
Quando um cidadão não paga, tem dívida; quando é o Estado que não paga, já é uma — responsabilidade futura. Quando é uma empresa, é incumprimento. Quando é o Estado, é uma opção orçamental.
E depois aparece Jorge Bravo à frente do estudo, cheínho de vontade para entregar o dinheiro dos pensionistas aos fundos privados.
E o Ventura veio prometer mandar a malta mais cedo para a reforma. Acho bem, quem é que não gosta de deixar de trabalhar mais cedo? Só há um pequeno problema: quem paga?
Ó Ventura, diz lá: onde é que vais buscar o dinheiro para mandar a malta para a reforma mais cedo? Os militares que te ajudam a fazer barulho já estão todos na reforma com o deles garantido, sabias? E não vale a conversa dos desperdícios, dos tachos e das gorduras do Estado. Isso eu também sei dizer. O problema é fazer as contas e elas baterem certas. Porque as reformas não se pagam com palmas, nem com bandeiras, nem com discursos inflamados.
E já agora, outra coisa: quando se promete uma coisa destas, convém dizer também quanto custa e de onde vem o dinheiro.
Eu já ouvi promessas de todos os lados. Uns prometiam o paraíso, outros rigor, outros igualdade e agora aparecem os novos salvadores da pátria a prometer justiça e reforma.
Porque a conta não desaparece só porque o Ventura fala alto.
Discutamos tudo, Mas talvez esteja na hora de o esforço começar por cima.
Quem manda o cidadão pagar tem de ser o primeiro a prestar contas.Porque, se a lei serve para o cidadão, para o patrão e para a empresa, também tem de servir para o Estado.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com


