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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Epstein

 

Nunca o vi. Nunca me foi apresentado. Nunca bebemos um copo juntos nem partilhámos putas, charutos ou segredos de alcova. Soube da existência do Apsteane como se sabe de um mito urbano: diziam que era um bom vivam, homem de portas abertas no mundo dos ricos, passaporte carimbado no putedo novayorkino, anfitrião de festas onde a moral ficava à porta, pendurada no cabide.

Depois vieram as televisões. A CNN, a CMTV e toda essa restante fauna respeitável do sensacionalismo travestido de jornalismo. Não se calam. Da vida promíscua do Epstein, do Príncipe, do Trump e de mais meia dúzia de engravatados com cheiro a poder. Noto que nessa missa faltou o sensacional advogado Roy Cohn que também já se foi.

De notícia, essas televisões nem uma palavra. 

De julgamento moral, horas e horas de emissão. Uma televisão opinativa e ruidosa formadora de analfabetos. No intervalo falam do Benfica. - Sobre o Benfica, eu acho que o Prestianni é um miúdo de 20 anos e nada mais do que isso. Um miúdo.

Como ia dizendo, eu não fui convidado. Não por falta de tesão ou curiosidade antropológica. Não fui porque sou pobre. Porque estas orgias da hipocrisia têm porteiro: entra quem tem dinheiro, quem tem apelido, quem pode cair de pé. O resto assiste pela televisão, com o dedo em riste e o estômago cheio de falsas virtudes.

Mas hoje acordei com vontade de trabalhar. Não para ganhar dinheiro, isso fica para os outros. Hoje estou a trabalhar para angariar inimigos. Sobretudo inimigos hipócritas. Essa gente limpa por fora e podre por dentro.

Conheço N casais — sim, N, em número industrial — que meteram os namorados das filhas menores a dormir em casa. Sob o pretexto higiénico e progressista: “é melhor a minha filha foder aqui em casa do que andar a foder na rua”. Em detrimento da moral. Tudo em nome da segurança, do diálogo, da modernidade. Tudo embrulhado em papel de presente e boa consciência.

E depois, para meu espanto — ou talvez não — são essas mesmas mães virgens de conveniência e esses pais pau no cu, armados em santos de procissão, que agora andam chocados, indignados, quase a pedir pena de morte moral para quem já morreu e, prisão perpétua para o Príncipe. Batem no peito, rasgam as vestes, fazem posts revoltados e partilham links com cara de nojo, - tanga….

O problema nunca foi a putaria. A sociedade sempre viveu dela, sempre se alimentou dela, sempre a praticou às escondidas. O problema é quem a pratica. Se é rico, é escândalo. Se é pobre, é crime. Se é longe, é monstruoso. Se é em casa, é educação liberal.

A hipocrisia é isto: apontar o dedo com a mão suja, cuspir moral enquanto se engole silêncio. Fingir horror por aquilo que se tolera no quintal. Condenar nos outros aquilo que se normaliza nos filhos. Fazer de conta que o mal só existe quando aparece na televisão, de preferência com legendas e música dramática.

Eu não sou amigo do Epstein. Nem do Príncipe, nem do Trump, nem de nenhum desses bons vivãs . Mas também não sou amigo desta santidade selectiva, desta moral de tesos bancários e tesos de espírito desta indignação que só acorda quando dá audiências.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Tachos e Tachões


Não é preciso ter dois dedos de testa para entender isto: O Chega gosta de se apresentar como o partido que vem acabar com a mama, moralizar o sistema e impor ordem, sempre muito encostado ao discurso musculado das forças de segurança e à pose marcial de quem nunca perdeu uma oportunidade para bater continência nas redes sociais. O problema é que, quando se vai ver quem realmente arranja lugar à mesa, a conversa muda de tom. O alicerce não é a tropa nem a farda suada dos comentários online, é o velho e conhecido carrossel partidário, com passagens sucessivas pelo PSD, CDS e outros abrigos do sistema, até aparecer um tacho mais confortável. Convém, por isso, apanhar e denunciar os falsos profetas, esses que gritam contra o sistema enquanto vivem dele há décadas.

André Ventura, o rosto do partido, não caiu do céu nem saiu de um quartel, veio do PSD, onde foi militante e candidato em Loures antes de descobrir que o discurso anti-cigano, anti-imigrantes, anti-pretos dava mais votos do que a cartilha social democrata. Rui Gomes da Silva, hoje reciclado no governo sombra do Chega, traz no currículo a vice presidência do PSD, um lugar no Parlamento e um ministério no tempo de Santana Lopes. Rui Cristina também não chegou agora à política, foi deputado e vereador pelo PSD antes de mudar de camisola. Bruno Nunes passou pelo Partido Popular Monárquico, Pedro Pessanha e José Dias Fernandes vêm do CDS, Rita Matias começou na Juventude Popular do mesmo partido, Manuela Tender e Eduardo Teixeira fizeram caminho no PSD, tal como Henrique de Freitas, fundador histórico desse partido que acabou por encontrar abrigo no Chega. Tudo gente rodada, treinada e perfeitamente adaptada às engrenagens do sistema que dizem odiar.

À volta do núcleo duro aparecem ainda figuras não parlamentares, recicladas em governos sombra e iniciativas paralelas, como Rui Teixeira Santos, comentador e académico, Teresa Nogueira Pinto, presença habitual em ambientes conservadores, e Jorge Cid, vindo de estruturas profissionais. Em muitos casos não há registo formal de militância anterior, mas há um passado político claro, feito de proximidades, convites e afinidades convenientes.

O quadro geral é simples e pouco heróico. Enquanto nas redes sociais se multiplicam militares reformados, agentes das forças de segurança e aspirantes a justiceiros a insultar tudo e todos em nome da pátria, da ordem e da moral, nenhum desses guerreiros digitais conseguiu chegar perto de um lugar relevante dentro do partido. O poder ficou, como sempre, nas mãos dos profissionais da política, dos que conhecem bem os corredores, os truques e as portas certas. No fim, a farda serve para o discurso e para intimidar quem ouve. O tacho, esse, continua reservado aos mesmos de sempre.

Ventura quis enfiar no pacote o General Eanes, mas esse é grande demais para se deixar seduzir. 

Os ratos dos quartéis, das esquadras e dos postos, bebem cerveja quente e pagam o silicone dos seios da mulher mas é o outro homem a estrear. Pior é impossível.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

800 anos em 2 minutos



Já não há quem escreva ideias nos blogs. Os melhores saltaram para os jornais, os mais teimosos como eu ficámos mas já somos muito poucos. O país passou a consumir literatura de cordel e qualquer  escrita de escalão zero, qualquer futilidade, nas redes sociais domina as telas  e o imaginário do tuga. Que dizer daqueles que vivem atrás do táctil armados em carapaus de corrido.

Nasci num país antigo para burro, mas que sempre se comportou como se tivesse acabado de acordar. Portugal tem mais passado do que futuro e mais futuro em promessa do que em acção. É um país que começa quase sempre a frase com já fomos, já tivemos, nós éramos.

A história de Portugal é frequentemente contada como epopeia. Eu consigo vê-la como uma sucessão de improvisos bem narrados. Fundámo-nos à pancada, quando o filho roubou as terras à mãe; consolidámo-nos à custa de alianças convenientes e crescemos com a convicção de que Deus estava do nosso lado — argumento útil quando faltaram meios, planeamento e espírito crítico.

Durante séculos, o objectivo foi simples: existir.

Portugal tornou-se especialista em resistir, não necessariamente em prosperar. Criou uma nobreza que vivia de rendas, uma Igreja que explicava o mundo e um povo que trabalhava sem grandes expectativas. A estrutura ficou montada cedo e raramente foi questionada.

Quando percebemos que não havia espaço para crescer cá dentro, fizemo-nos ao mar como génios cheios de coragem. Chegámos a terras habitadas, baptizámo-las, explorámo-las e chamámos a isso missão evangelizadora. Esse discurso funcionou durante algum tempo, sobretudo enquanto o ouro vinha de fora.

O ouro do Brasil foi talvez o maior favor que Portugal recebeu e o maior erro que cometeu. Em vez de investir, fez festas; em vez de estruturar, ornamentou. Construiu igrejas e palácios, a ideia da grandeza subiu-lhe à cabeça, andou todo entretido no putedo, desligou-se da realidade e não fez corno. Quando a teta secou, secou mesmo, ficámos com pose de rico e cabeça de pobre.

O terramoto de 1755, atrapalhou que se fartou, abanou tudo e viu-se logo que a coisa não estava firme.

Sebastião José reconstruiu Lisboa, mas não reconstruiu a mentalidade. O país continuou avesso ao conflito intelectual e tentou modernizar à força, deixando uma herança curiosa: reformas feitas sem participação e um hábito persistente de obedecer antes de compreender.

O século XIX passou como passam as coisas em Portugal: devagarinho. Perdemos o Brasil, discutimos constituições, alternámos regimes e mantivemos o essencial — atraso estrutural, analfabetismo e elites fechadas sobre si mesmas. Quando a modernidade chegou, chegou tarde e cansada.

A Primeira República foi barulhenta, confusa, instável e cheia de conversa. Foi incapaz de resolver problemas de fundo. Serviu, acima de tudo, para provar que o país não lidava bem solto em liberdade. A solução veio sob a forma de hospício: ordem, silêncio e disciplina. Sim, é isso mesmo, aquela que o André Ventura agora quer triplicar.

Salazar, à época, era só um. Organizou o país segundo os seus medos. Assumimos então que sermos um país pobre, obediente, rural e moralmente controlado era, para ele, sinónimo de estabilidade.

Inventou Fátima e prometeu não nos meter em confusões. A táctica durou décadas porque assentava numa verdade desconfortável: grande parte do país preferia segurança à mudança. Entretanto, emigrava-se em massa, fazia-se contrabando nas fronteiras e, nas noites frias e de breu, em profundo silêncio, passavam-se gentes para França. O falso império ficara para trás.

A guerra colonial foi o colapso final da ilusão. Manter colónias pela força num mundo em descolonização não era bravura, era negação. O 25 de Abril não foi apenas o fim de uma ditadura; foi o fim de uma mentira prolongada. De repente, o país teve de pensar no que queria ser.

Durante algum tempo, acreditou-se. Depois, normalizou-se. A democracia instalou-se funcional, previsível e pouco exigente. Entrámos na Europa e recebemos fundos como quem recebe mesada: gastámos, não mostrámos serviço e adiámos a conversa necessária. Construímos estradas, prédios e discursos optimistas. Nada de pensamento estratégico, pouca ciência sustentada, zero visão de longo prazo.

Quando chegaram as crises, adoptou-se a ideia padrão, o machado final: corta-se onde dói menos aos de cima e pede-se sacrifício aos de baixo, palavra bonita para designar o velho hábito de aguentar. O país aguenta tudo — rendas impossíveis, salários baixos e futuros adiados — e ainda agradece a Deus por não ser o pior.

Hoje vendemos destino seguro, solarengo e simpático, exportamos jovens qualificados e importamos aquela coisa horrível que tomou conta e descaracterizou a Baixa Pombalina, com lojas de bugigangas e restaurantes de qualidade duvidosa. Criámos assim um modelo económico coxo. Basta a terra voltar a tremer e está tudo fodido outra vez. Portugal vive da memória do império, do charme da decadência e da promessa vaga de que isto há-de melhorar, enquanto meia dúzia de iluminados acredita num varredor milagroso que há-de varrer o país.

O nosso problema nunca foi falta de talento. Foi excesso de conformismo. Ser bem-educado, falar baixo e não incomodar virou virtude. Ensinámos gerações a esperar, a adaptar-se, a não levantar ondas. Criou-se uma identidade inteira baseada na sobrevivência e demos-lhe um nome bonito.

Fomos um país que fez história, mas tem dificuldade em imaginar o próprio futuro. Não por incapacidade, mas por hábito. Habituámo-nos a pouco. E, enquanto não mudarmos, continuaremos exímios a contar as façanhas do passado e modestos a preparar-nos para o pior.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 25 de janeiro de 2026

Tacho de Leite



Lá em baixo, juntinho ao mar, onde há belas praias, vida boa para os turistas e vida fodida para os naturais, existe uma Câmara Municipal, a de Albufeira, presidida por Rui Cristina, do partido Chega. O presidente nomeou a sua própria irmã, Sara Cristina, para adjunta do gabinete de apoio à vereação, com um salário de 2.411 euros.

Perguntado sobre essa treta do nepotismo, o presidente da autarquia garante que não interferiu no processo e defende que se trata de uma designação em regime de mobilidade, baseada no currículo e na experiência profissional da nomeada.

A nomeação foi formalizada na reunião camarária de 16 de Dezembro de 2025 pela vereadora Cristina Corado, numa sessão em que Rui Cristina não esteve presente.

Assim, a Sra. Eng.ª transitou para Albufeira, município chefiado pelo irmão, situação que o autarca afirma não ter qualquer carácter político. 

Na Assembleia camarária a 30 de Dezembro, Rui Cristina insistiu que “não se trata de uma nomeação política, mas de uma designação”. 

Moral da história: os mamíferos do Chega mamam como os outros: na teta da mãe, na teta do Estado e neste caso, nem a teta do irmão escapou. É um Tacho de Leite.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 18 de janeiro de 2026

A bandalheira e os miseráveis




Quando eu era jovem e vivia em Portugal, aprendi que vestir uma farda militar não era um capricho estético nem era um exercício de vaidade pessoal. Vestir uma farda representava e representa disciplina obediência e serviço ao Estado muitas vezes em condições que a maioria dos cidadãos nunca enfrentou. Quem a envergou sabe o que é viver sob ordens, suportar o cansaço, o medo e a responsabilidade de representar a soberania nacional. A farda não é um adereço político nem um símbolo disponível para quem quer capitalizar a imagem das Forças Armadas para benefício próprio, como Ventura acabou de fazer, numa encenação grotesca e oportunista.

Ser militar não é uma questão de aparência. É uma condição construída com formação, juramento, de bandeira e juramento de fedelidade dentro de um enquadramento legal e submissão a um código disciplinar exigente. Aceitar tudo disposto a servir mesmo quando isso implica abdicar de conforto, segurança e, por vezes, da própria vida. As insígnias e os uniformes existem para identificar quem pertence legitimamente a essa estrutura, não para alimentar farsas públicas de autoridade ou pertença.

Em muitos países democráticos, o uso indevido de fardas militares por civis é tratado como infração. A razão é simples: a farda simboliza o Estado e a sua força legítima. Quando um civil a utiliza sem autorização, apropria-se de um símbolo institucional que não lhe pertence. Em vários ordenamentos jurídicos, esse comportamento pode configurar crime, sobretudo quando existe a intenção de criar uma imagem de autoridade, prestígio ou legitimidade que nunca foi conquistada. Mesmo quando não há condenação judicial, há sempre uma violação ética grave, porque se desrespeita o serviço militar e se engana a opinião pública.

O problema torna-se ainda mais sério quando essa utilização ocorre no campo político. A instrumentalização da imagem militar para fins partidários corrói a separação essencial entre as Forças Armadas e a luta política. A farda não deve servir de cenário para discursos populistas nem de disfarce simbólico para quem nunca esteve sujeito às exigências da vida militar. Quando isso acontece, não é apenas mau gosto. É uma banalização consciente de valores construídos com sacrifício real.

Para quem serviu, para quem carregou o peso do compromisso e da responsabilidade, é ofensivo ver a farda transformada em ferramenta de propaganda. Não se trata de nostalgia nem de corporativismo. Trata-se de respeito por uma instituição que existe para servir o país, não para servir ambições pessoais. A passividade das entidades responsáveis, o silêncio das hierarquias e a complacência das autoridades políticas representam uma falha grave na defesa da dignidade militar.

A farda não é figurino, não é ornamento, não é marketing político. É um emblema de serviço, disciplina e sacrifício. Permitir que seja usada como máscara por quem nunca viveu essa realidade é trair o significado da própria instituição militar e desrespeitar todos os que nela serviram com seriedade.

E por isso, mais do que criticar quem se aproveita da imagem das Forças Armadas, é necessário apontar o dedo aos que o permitem, aos que se calam, aos que fingem não ver. Esses são os verdadeiros responsáveis pela degradação do respeito institucional. Esses são, sem rodeios, os miseráveis.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Afinal, aquilo é nosso



Trump acorda, coça o ego, olha para o mapa e decide que hoje quer a Gronelândia. Amanhã, se calhar, o Algarve, e depois, quem sabe, a Rinchoa. O homem deve ter muito açúcar no sangue, só pode.

Os portugueses não disseram nada. Zero. Os patriotários ficaram todos em silêncio. Os heróis da pátria foram todos para a campanha do Ventura e não quiseram saber da ilha do gelo. Era o último bastião da civilização ocidental e está a ser entregue ao imobiliário americano.

Mas calma: tecnicamente, aquilo já é nosso desde 1494. Está no Tratado de Tordesilhas, o acordo em que dois impérios ibéricos dividiram o planeta como quem corta um bolo-rei mal partido.

Daqui para a direita é meu, daí para a esquerda é teu.

A Gronelândia encaixa na perfeição. Se já lá fomos de caravela foi por causa do bacalhau — do frio nem por isso, porque nós sempre tivemos a fábrica de gelo na Serra de Montejunto e nunca precisamos de mexer na nossa reserva congelada.

Trump anda a tentar comprar gelo com dólares quando aquilo é património lusitano congelado. Falta só a burocracia, café curto e um pastel de nata.

O Ventura, esse Napoleão de tasca, criado na incubadora da CMTV, prepara-se para governar com ar solene e discurso de espelho. Um homem “fora do sistema” que vive do sistema, mama do sistema e recebeu milhões do sistema para convencer os ingénuos de que é um rebelde.

Rebeldia patrocinada.

Fala mais alto, logo é líder.

É esta a nova ciência política.

Quando se sentar na cadeira grande, já se conhece o guião: estado de emergência, slogans patrióticos, pose de salvador da pátria. Democracia em versão trailer.

Não é guerra de tanques, é guerra de narrativas. Slogans, inimigos imaginários, factos alternativos. A verdade morre esmagada entre opiniões histéricas.

O mundo joga ao Risiko com armas reais e líderes de plástico. Hoje é a Gronelândia, amanhã é tudo o resto, em promoção geopolítica.

E eu vou buscar os tratados do século XV porque ninguém quer encarar o século XXI.

Mas ao menos dá para rir.

Rir antes que a piada vire decreto.

Se a Gronelândia é nossa, que venha com bacalhau e carimbos.

Porque, se for para enlouquecer, ao menos que seja a rir.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Direitos humanos com sabor a crude.



O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou sem rodeios que Washington pretende impedir que o petróleo venezuelano chegue a países considerados adversários. A declaração, longe de ser um deslize diplomático, é a confissão clara da verdadeira razão do assalto dos Estados Unidos à Venezuela. Não se trata de democracia, nem de direitos humanos, nem de liberdade. Trata-se de petróleo, de controlo geopolítico e de punição exemplar a quem se recusa a obedecer.

A União Europeia, como manda a tradição, reuniu-se. Reuniu-se para nada decidir, para nada alterar e para repetir o guião gasto de sempre. Duas porta-vozes apareceram quase em simultâneo para debitar a converseta habitual perante os jornalistas: preocupação, diálogo, acompanhamento da situação. Um teatro burocrático cuidadosamente ensaiado para não incomodar Washington nem assumir qualquer responsabilidade. Sabem quem chefia aquilo? O Toninho Costa.

A ONU também reuniu-se para nada decidir. Sabem quem chefia aquilo? O Toino Guterres.

A estes dois portugueses juntou-se o governo de Portugal, fiel à sua irrelevância estratégica autoimposta, e alinhou sem hesitação. Tomou uma posição vergonhosa, previsível e servil, como tantas outras ao longo das últimas décadas. Não por convicção, mas por hábito; não por coragem política, mas por medo de sair da fila. Portugal anda sempre a papaguear valores, mas abdica sistematicamente de os defender quando eles exigem algum custo.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

Publicação em destaque

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"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...