Nunca o vi. Nunca me foi apresentado. Nunca bebemos um copo juntos nem partilhámos putas, charutos ou segredos de alcova. Soube da existência do Apsteane como se sabe de um mito urbano: diziam que era um bom vivam, homem de portas abertas no mundo dos ricos, passaporte carimbado no putedo novayorkino, anfitrião de festas onde a moral ficava à porta, pendurada no cabide.
Depois vieram as televisões. A CNN, a CMTV e toda essa restante fauna respeitável do sensacionalismo travestido de jornalismo. Não se calam. Da vida promíscua do Epstein, do Príncipe, do Trump e de mais meia dúzia de engravatados com cheiro a poder. Noto que nessa missa faltou o sensacional advogado Roy Cohn que também já se foi.
De notícia, essas televisões nem uma palavra.
De julgamento moral, horas e horas de emissão. Uma televisão opinativa e ruidosa formadora de analfabetos. No intervalo falam do Benfica. - Sobre o Benfica, eu acho que o Prestianni é um miúdo de 20 anos e nada mais do que isso. Um miúdo.
Como ia dizendo, eu não fui convidado. Não por falta de tesão ou curiosidade antropológica. Não fui porque sou pobre. Porque estas orgias da hipocrisia têm porteiro: entra quem tem dinheiro, quem tem apelido, quem pode cair de pé. O resto assiste pela televisão, com o dedo em riste e o estômago cheio de falsas virtudes.
Mas hoje acordei com vontade de trabalhar. Não para ganhar dinheiro, isso fica para os outros. Hoje estou a trabalhar para angariar inimigos. Sobretudo inimigos hipócritas. Essa gente limpa por fora e podre por dentro.
Conheço N casais — sim, N, em número industrial — que meteram os namorados das filhas menores a dormir em casa. Sob o pretexto higiénico e progressista: “é melhor a minha filha foder aqui em casa do que andar a foder na rua”. Em detrimento da moral. Tudo em nome da segurança, do diálogo, da modernidade. Tudo embrulhado em papel de presente e boa consciência.
E depois, para meu espanto — ou talvez não — são essas mesmas mães virgens de conveniência e esses pais pau no cu, armados em santos de procissão, que agora andam chocados, indignados, quase a pedir pena de morte moral para quem já morreu e, prisão perpétua para o Príncipe. Batem no peito, rasgam as vestes, fazem posts revoltados e partilham links com cara de nojo, - tanga….
O problema nunca foi a putaria. A sociedade sempre viveu dela, sempre se alimentou dela, sempre a praticou às escondidas. O problema é quem a pratica. Se é rico, é escândalo. Se é pobre, é crime. Se é longe, é monstruoso. Se é em casa, é educação liberal.
A hipocrisia é isto: apontar o dedo com a mão suja, cuspir moral enquanto se engole silêncio. Fingir horror por aquilo que se tolera no quintal. Condenar nos outros aquilo que se normaliza nos filhos. Fazer de conta que o mal só existe quando aparece na televisão, de preferência com legendas e música dramática.
Eu não sou amigo do Epstein. Nem do Príncipe, nem do Trump, nem de nenhum desses bons vivãs . Mas também não sou amigo desta santidade selectiva, desta moral de tesos bancários e tesos de espírito desta indignação que só acorda quando dá audiências.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com
Sem comentários:
Enviar um comentário