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quarta-feira, 25 de março de 2026

Vão mas é pastar moscas


Estou abismado e ligeiramente entretido com o espectáculo nacional — que é como quem diz: ligo o telemóvel, abro as redes sociais e vejo logo circo sem precisar de pagar bilhete. Desde que o Chega apareceu, o país ficou dividido como aquelas famílias que discutem no Natal por causa da herança da avó: de um lado, os que não querem o André Ventura a mandar nisto tudo; do outro, os que acham que ele é a poção genética perfeita entre salvador da pátria e comentador da CMTV.

A matemática é simples. Quase 70% não quiseram Ventura a Presidente. Setenta. Sete-zero. Uma multidão suficientemente grande para encher estádios, rotundas e procissões. Do outro lado, cerca de 30% acharam que sim senhor, que o homem era a solução para os males da pátria.

Os 70%, onde me incluo, votaram, suspiraram e foram tratar da vidinha. Já os 30% não. Esses votaram e foram directamente para o Facebook, que é o novo quartel-general da resistência patriótica de sofá. Ali transformam-se. Metamorfose instantânea. Gente que nunca enfrentou nada mais agressivo do que uma fila no Continente vira gladiador digital. Dedo nas teclas, peito inchado, patriotismo inflamado por Wi-Fi.

De repente, surgem os guerreiros da pátria virtual.

São valentes. Corajosos. Intrépidos. Especialistas em combate corpo-a-corpo…

Chamam nomes. Inventam teorias. Descobrem conspirações enquanto comem bolachas Maria. Tratam quem discorda como traidor da nação, agente infiltrado, vendido ao sistema, funcionário secreto da cantina do Parlamento. Tudo serve. Argumentos são opcionais; indignação histérica é obrigatória.

Pegam com tudo.

Pegam com o vestido da primeira-dama como se o tecido tivesse cláusulas ideológicas escondidas nas costuras. Pegam com a guarda presidencial como se a postura dos agentes fosse responsável pelo défice. Pegam com a morada das Caldas da Rainha como se o código postal fosse um manifesto político cifrado. Eles pegam, elas pegam. Toda a gente pega.

E convém dizer: não, isto não é um exclusivo masculino. Há ali uma ala feminina que entra em campo de sola levantada, com comentários capazes de fazer corar camionistas veteranos. A agressividade não tem género; tem algoritmo. Algumas senhoras transformam a caixa de comentários num ringue de luta livre verbal onde cada frase é uma cadeirada. Se a ironia fosse crime, metade já estava a cumprir pena.

Essa minoria barulhenta virou maioria sonora. Não são mais — fazem é mais barulho. Passaram todos a pensadores políticos de mural, especialistas em tudo: geopolítica, economia, estratégia militar, direito constitucional e, nas horas vagas, treinadores de bancada.

É vê-los, iluminados pela luz azul do ecrã, a escrever tratados ideológicos com a solenidade de quem está a redigir a nova Constituição… quando, na verdade, estão de pijama com nódoas de esperma do ano passado.

Convenceram-se de que são os únicos lúcidos numa nação de ovelhas. Eles são os despertos. Os outros são mansos. Eles pensam; os outros pastam. Eles lutam; os outros dormem.

E há uma curiosidade eleitoral que serve de gasolina para fogueira emocional. Parte do eleitorado vem dos imigrantes brasileiros com simpatias a Jair Bolsonaro — velha figura ndo Brasil com presença constante na justiça e preso. O fenómeno é curioso: gente que passou décadas dentro do sistema político aparece agora  como anti-sistema.

É como vender água engarrafada retirada da torneira, mas com rótulo patriótico e tampa dourada. A narrativa repete-se com sotaque nacional. Antes de se tornar líder partidário, Ventura passou anos nos debates televisivos da CMTV, especialmente naqueles programas onde se discute futebol com a intensidade de quem negocia tratados de paz no Médio Oriente. Foi ali, naquele coliseu de comentadores, que o país assistiu a momentos caricatos, trocas de acusações entre Ventura e Aníbal. 

Ali o André aprendeu a mistura clubismo, escândalo, indignação performativa e frases bombásticas - barulho é essencial.

Entretanto, a trajectória política fez escalas previsíveis: passagem pelo PSD, ambições autárquicas, cargos intermédios, tentativas falhadas, até surgir o novo projecto partidário vendido como vassoura moral para limpar Portugal. 

E aqui confesso: por breves instantes, quase acreditei e foi por um fio que não me filiei. A ideia de abanar o pó à casa quase me seduziu. O problema foi quando descobri que, em vez de limpeza geral, afinal só mudavam os móveis velhos de sítio e escondiam o lixo debaixo da velha carpete.

Muitos dos rostos mudaram de camisola partidária - Saltaram do CDS – Partido Popular, e do Partido Social democrática  e apareceram com outro discurso, com nova embalagem e velhas práticas. Os verdadeiros descontentes — aqueles ingénuos como eu, que acreditaram numa revolução ética — ficaram pelo caminho e nem sequer foram convidados para o jantar do costume.

À volta do tacho lá estavam os costumeiros de sempre - Os sobreviventes do aparelho do sistema.

E o cidadão comum assiste, dividido entre a descrença e o entretenimento mórbido.

No meio disto tudo, o debate político transformou-se numa guerra de trincheiras emocionais onde ninguém ouve ninguém. Cada lado grita mais alto, não para convencer, mas para abafar. Os argumentos deram lugar a rótulos; o diálogo foi substituído por insultos.

E eu, sinceramente, estou cansado.

Cansado da minoria ruidosa que confunde volume com razão. Cansado dos justiceiros de teclado que tratam divergência como traição. Cansado de ver portugueses a insultar portugueses por causa do Ventura. Cansado de ver diferenças políticas transformadas em guerras pessoais.

No fim, sobra o quê?

Sobra um país onde todos gritam e quase ninguém escuta. Onde a política deixou de ser construção colectiva para virar campeonato de ofensas; onde a minoria barulhenta vive convencida de que representa o povo, enquanto o verdadeiro povo está ocupado a trabalhar, a sobreviver e a tentar manter a sanidade mental intacta, com o preço da gasolina a subir-lhe nos bolsos.

E chego ao limite da paciência: ver essa minoria militante chamar “burros” aos restantes portugueses como se inteligência política fosse medida pelo grau de fúria nos comentários. 

Não é; nunca foi!

Barulho não é lucidez. Armar-se em agressivo no teclado, ainda por cima cheio de erros de português, não é coragem. É burrice. Fanatismo não é patriotismo; é patriotário. Perdão… otário.

Nisto, os verdadeiros problemas do país continuam ali, quietos, à espera que alguém os trate com seriedade.

Por mim, podem continuar a salvar a nação com insultos. A pátria agradece o esforço heróico feito entre um café e um Enter.

Se algum dia atribuirem medalhas por bravura digital, seremos finalmente um povo condecorado… sentado.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando o macaco desceu da árvore

 

Esse macaco é o Silvino da Luz, um nome que a História não deve tratar com indulgência. Tomou decisões que não se diluíram com o passar das décadas, nem se apagaram com homenagens protocolares. Governou de forma autoritária como Ministro de Estado. Exerceu o poder de modo brutal e, como poder, interferiu violentamente na liberdade de cidadãos, em nome dos quais se torna um dever moral não apagar essa memória.

Durante o período de transição que se seguiu à independência de Cabo Verde, o país viveu dias de profunda tensão política. A promessa de liberdade colectiva contrastou com episódios de repressão dirigida a vozes discordantes. Cidadãos foram detidos sem acusação formal, sem julgamento e sem garantias básicas de defesa. O simples acto de discordar do rumo político imposto transformou-se, para muitos, em motivo de privação de liberdade.

O Campo do Tarrafal, lugar já carregado de simbolismo histórico, voltou a receber detidos  e prisioneiros. Não eram agentes de guerra nem conspiradores armados; eram cabo-verdianos com opiniões divergentes sobre o futuro do seu próprio país. O espaço que representara repressão colonial tornou-se novamente cenário de sofrimento humano, agora sob administração nacional.

A investigação reunida em “Tarrafal 1975 – O Campo do Silêncio”, da jornalista Sandra Inês Cruz, descreve testemunhos de calor extremo, alimentação insuficiente, ausência de cuidados médicos adequados, doenças não tratadas e isolamento prolongado. São relatos que afastam qualquer tentativa de romantizar o período pós-independência como um processo imaculado. Ninguém me convence de que o meu amigo Miguel Ângelo não tenha começado ali a caminhada para o seu lento fim.

Esses factos não pertencem ao domínio da retórica partidária; pertencem à memória dos que sofreram diretamente as consequências das decisões do poder político.

Entre os responsáveis governativos desse período encontrava-se Silvino da Luz. A sua posição no aparelho de Estado colocava-o no centro das estruturas de decisão: detenções, repressão política e práticas que limitaram direitos fundamentais. Não se fala de abstracções administrativas — fala-se de actos decididos e executados sob tutela governativa.

Responsabilidade política não é um conceito vago. Significa responder pelos efeitos das decisões tomadas, enquanto se exerce autoridade pública. Significa reconhecer que o poder do Estado tem limites legais e morais.

Perante as vítimas, resta-me honrar a memória daqueles que ficaram marcados na pele, no corpo e no espírito.

Entre os que sofreram as consequências desse período, estavam cidadãos cuja única “culpa” foi pensar de forma diferente. Famílias foram separadas e marcadas. Vidas foram interrompidas por anos passados atrás das grades.

Hoje, a ironia histórica impõe-se. Silvino chefiou e comandou esse período sombrio; hoje circula com tranquilidade por Portugal e beneficia do nosso sistema de saúde e das nossas infra-estruturas. Entra e sai sem sobressaltos, vivendo do conforto do nosso país aquele que outrora prendeu e maltratou cidadãos apenas por dizerem ser portugueses.

Esta ironia não é detalhe irrelevante. É símbolo das contradições entre a retórica política e as escolhas pessoais. 

Contudo, enquanto os responsáveis desfrutam de tranquilidade e da boa vida, muitas vítimas carregam cicatrizes permanentes para sempre.

Recordar esses acontecimentos, defender que a verdade histórica seja reconhecida e exigir a verdade não é promover vingança. Pedir responsabilidades não é reabrir conflitos — é afirmar que a dignidade humana não tem prazo de validade.

A memória de Miguel Ângelo deve ser lembrada com respeito e verdade.

A dignidade das vítimas exige verdade. A maturidade democrática exige reconhecimento. E a consciência histórica de um povo exige que os factos sejam lembrados sem filtros convenientes, porque a independência política só é completa quando acompanhada por responsabilidade moral, coisa que os animais da raça do Silvino da Luz não têm.

Silvino, não venhas mais a Portugal, nem tu nem os capangas do PAICV. Não venham almoçar à borla, nem venham aos nossos médicos. Se tiverem vergonha,  não venham mais consumir os meus impostos!

Miguel Ângelo, uma das vítimas

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com


quinta-feira, 5 de março de 2026

Lobo Antunes

 


Um dia triste para o mundo da escrita

Escritor genial. Em 2004 desafiaram-me a ler Eu Hei-de Amar uma Pedra, de Lobo Antunes, acabado de sair.

Li-o. Livro difícil, daqueles que não se deixam ler — obrigam-nos a lutar com as frases, a tropeçar nelas, a voltar atrás. Coisa de génio da literatura. Génio e maluco, como convém aos grandes escritores.

Depois vieram outros livros. E eu fiquei fã do médico que escreve como quem abre pessoas para lhes ver as entranhas.

Talvez por isso me reconheça nele. Como Lobo Antunes, também às vezes tenho dificuldade em viver comigo. Ando quase sempre em guerra civil comigo próprio.

Adeus, Lobo Antunes.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...