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segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando o macaco desceu da árvore

 

Esse macaco é o Silvino da Luz, um nome que a História não deve tratar com indulgência. Tomou decisões que não se diluíram com o passar das décadas, nem se apagaram com homenagens protocolares. Governou de forma autoritária como Ministro de Estado. Exerceu o poder de modo brutal e, como poder, interferiu violentamente na liberdade de cidadãos, em nome dos quais se torna um dever moral não apagar essa memória.

Durante o período de transição que se seguiu à independência de Cabo Verde, o país viveu dias de profunda tensão política. A promessa de liberdade colectiva contrastou com episódios de repressão dirigida a vozes discordantes. Cidadãos foram detidos sem acusação formal, sem julgamento e sem garantias básicas de defesa. O simples acto de discordar do rumo político imposto transformou-se, para muitos, em motivo de privação de liberdade.

O Campo do Tarrafal, lugar já carregado de simbolismo histórico, voltou a receber detidos  e prisioneiros. Não eram agentes de guerra nem conspiradores armados; eram cabo-verdianos com opiniões divergentes sobre o futuro do seu próprio país. O espaço que representara repressão colonial tornou-se novamente cenário de sofrimento humano, agora sob administração nacional.

A investigação reunida em “Tarrafal 1975 – O Campo do Silêncio”, da jornalista Sandra Inês Cruz, descreve testemunhos de calor extremo, alimentação insuficiente, ausência de cuidados médicos adequados, doenças não tratadas e isolamento prolongado. São relatos que afastam qualquer tentativa de romantizar o período pós-independência como um processo imaculado. Ninguém me convence de que o meu amigo Miguel Ângelo não tenha começado ali a caminhada para o seu lento fim.

Esses factos não pertencem ao domínio da retórica partidária; pertencem à memória dos que sofreram diretamente as consequências das decisões do poder político.

Entre os responsáveis governativos desse período encontrava-se Silvino da Luz. A sua posição no aparelho de Estado colocava-o no centro das estruturas de decisão: detenções, repressão política e práticas que limitaram direitos fundamentais. Não se fala de abstracções administrativas — fala-se de actos decididos e executados sob tutela governativa.

Responsabilidade política não é um conceito vago. Significa responder pelos efeitos das decisões tomadas, enquanto se exerce autoridade pública. Significa reconhecer que o poder do Estado tem limites legais e morais.

Perante as vítimas, resta-me honrar a memória daqueles que ficaram marcados na pele, no corpo e no espírito.

Entre os que sofreram as consequências desse período, estavam cidadãos cuja única “culpa” foi pensar de forma diferente. Famílias foram separadas e marcadas. Vidas foram interrompidas por anos passados atrás das grades.

Hoje, a ironia histórica impõe-se. Silvino chefiou e comandou esse período sombrio; hoje circula com tranquilidade por Portugal e beneficia do nosso sistema de saúde e das nossas infra-estruturas. Entra e sai sem sobressaltos, vivendo do conforto do nosso país aquele que outrora prendeu e maltratou cidadãos apenas por dizerem ser portugueses.

Esta ironia não é detalhe irrelevante. É símbolo das contradições entre a retórica política e as escolhas pessoais. 

Contudo, enquanto os responsáveis desfrutam de tranquilidade e da boa vida, muitas vítimas carregam cicatrizes permanentes para sempre.

Recordar esses acontecimentos, defender que a verdade histórica seja reconhecida e exigir a verdade não é promover vingança. Pedir responsabilidades não é reabrir conflitos — é afirmar que a dignidade humana não tem prazo de validade.

A memória de Miguel Ângelo deve ser lembrada com respeito e verdade.

A dignidade das vítimas exige verdade. A maturidade democrática exige reconhecimento. E a consciência histórica de um povo exige que os factos sejam lembrados sem filtros convenientes, porque a independência política só é completa quando acompanhada por responsabilidade moral, coisa que os animais da raça do Silvino da Luz não têm.

Silvino, não venhas mais a Portugal, nem tu nem os capangas do PAICV. Não venham almoçar à borla, nem venham aos nossos médicos. Se tiverem vergonha,  não venham mais consumir os meus impostos!

Miguel Ângelo, uma das vítimas

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com


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