Se disse que estava tudo bem
Foi só da boca para fora
Se sorri ao mundo dias inteiros
Desabei ao fechar a porta
Há coisas que ninguém entende
Há dor que se esconde da mente
Cansei de fingir ser forte
Quando por dentro sou diferente
Hoje não há belas palavras
Nem frases feitas para crer
Só vim porque preciso
Pois sozinho não se sabe viver
E quando vem a lucidez
Estou sozinho outra vez
Sozinho por dentro de novo
A ouvir o ranger das paredes
Se o Estranho do Fumo ouvir
Mesmo sem voz para falar
Que leia o meu silêncio
No pó que ficou no lugar
Há noites em que olho o tecto
E o céu parece fechado
Chamo, chamo, e só o eco
Me devolve o que foi calado
Perdi-me nos pensamentos
Afogado no meu próprio medo
Procuro-te nas esquinas
E em tudo o que ficou a meio
Procuro-te nas luzes tardias
Nos copos esquecidos no balcão
Mas encontro-te sempre por instantes
Num gole de angústia e solidão
Então volto da forma que posso
Sem força, sem saber dizer
O Estranho Homem do Fumo
Nunca aparece para responder
Mas deixa um rasto nos espelhos
E cinza onde ninguém fumou
Como se tivesse passado
E algo de mim levasse ou deixou
Eu não sei falar de outro modo
Sei que preciso de ficar acordado
Se houver outro caminho
Talvez já o tenha cruzado
Antes que desista
Antes que me deixe cair
Antes que a noite me leve
Ao convívio dos fantasmas
Que esperam sem nunca partir
Letra escrita para uma canção
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com