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terça-feira, 23 de junho de 2026

O Grupinho dos 50


Tenho nojo deles, sim, de uns quantos daquela espécie que se reproduz em Lisboa, nas catacumbas do poder, nos gabinetes ministeriais, nas sedes partidárias e, quando não conseguem, vão para as páginas dos jornais e para os manifestos do grupo. Tenho nojo da hipocrisia deles. Daquela hipocrisia e dos discursos como gordura rançosa.

Desde o 25 de Abril e, sobretudo, depois das sucessivas revisões constitucionais, assistimos à construção lenta de um edifício judicial que foi crescendo sem que quase ninguém se preocupasse em lhe medir as fundações. Ano após ano, governo após governo, legislatura após legislatura, o Ministério Público foi adquirindo mais corda, mais folga, mais espaço e mais capacidade de intervenção na vida pública. Essa coisada não aconteceu de um dia para o outro. Foi uma construção paciente, feita tijolo a tijolo, decreto a decreto, até se tornar dono capião do quintal.

Quem questionava os excessos era acusado pelo presidente do sindicato dos magistrados de querer proteger corruptos. Quem defendia garantias processuais era marcado com tinta-da-china na testa e chamuscado no tribunal dos jornais. Foi assim, foi assim que criaram uma cultura fedorenta em que uma simples suspeita passou a valer quase tanto como uma condenação.

Eu, que desde 2012 escrevo regularmente no meu blogue e já publiquei centenas de textos, perdi a conta das vezes que abordei esta questão. Escrevi sobre prisões preventivas excessivas. Escrevi sobre fugas de informação. Escrevi sobre julgamentos mediáticos. Escrevi sobre a facilidade com que a reputação de uma pessoa pode ser destruída antes de qualquer decisão judicial.

Escrevi para surdos. Ou talvez não fossem surdos. Talvez apenas estivessem demasiado ocupados a assobiar para o lado porque o problema atingia os outros, ninguém quis saber.

Enquanto a devassa recaía sobre o vizinho, sobre o adversário político, o empresário da moda ou o presidente de qualquer coisa, tudo bem. Afinal, tinham na manga aquela frase de merda: à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.

Quem não deve teme, mas esqueceram-se de temer a denúncia falsa. Temer a incompetência. Temer a demora. Temer o sensacionalismo. Temer a máquina trituradora de carne humana. A máquina que abre uma investigação, depois abre outra e logo vem uma busca, depois outra.

Anos depois descobre-se que a montanha pariu um rato.

Mas o rato já não interessa a ninguém.

A carreira foi destruída. O nome ficou chamuscado. A família foi exposta, os filhos gramaram o pior, os amigos afastaram-se. Os vizinhos fizeram julgamentos sumários à janela.

E quando tudo termina, ninguém devolve nada, e ninguém publicita a inocência.

Recentemente, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos voltou a condenar Portugal por violações relacionadas com direitos fundamentais e garantias processuais. Não foi a primeira vez e dificilmente será a última. O problema não está apenas numa decisão ou num caso concreto.

Mas o que me causa verdadeiro nojo não é apenas isso.

O que me causa verdadeiro nojo é assistir agora ao despertar súbito das consciências adormecidas, como dizia o filósofo Sócrates.

Subitamente apareceu um grupo de figuras públicas, antigos responsáveis políticos, antigos presidentes da Assembleia da República, ex-ministros, ex-deputados e outras personalidades respeitáveis, a alertar para os perigos dos abusos processuais, das fugas de informação, da ausência de controlo e da necessidade de cumprir prazos.

E eu pergunto:

Onde estavam esses gajos?

Onde estavam quando tinham poder?

Onde estavam quando ocupavam os cargos que lhes permitiam legislar?

Onde estavam eles quando podiam apresentar propostas?

Onde estavam quando podiam mudar leis?

Onde estavam quando podiam travar aquilo que hoje denunciam?

Eu sei. Os gajos estavam sentados nas cadeiras do poder, a coçar os tomates.

Durante anos acharam que o problema era dos outros. Achavam que as buscas por dar aquela palha eram coisas dos outros, 

acharam que as escutas eram para os outros, acharam que as fugas de informação eram para os outros.

Acharam que os julgamentos mediáticos eram para os outros.

Até ao dia que lhes baterem à porta.

É sempre assim.

Em Portugal existe uma curiosa tradição política. Enquanto o incêndio arde na casa do vizinho, a malta curiosa da desgraca alheia discute a cor do fumo.

Hoje assistimos ao espectáculo dos arrependidos. Os mesmos que nada fizeram apresentam-se agora como reformadores. Os mesmos que deixaram crescer o problema apresentam-se como solução. Os mesmos que permaneceram em silêncio durante anos descobrem finalmente a voz.

E é por isso que tenho nojo deles.

Não apenas dos que abusam do poder.

Mas também dos que o tiveram nas mãos e nada fizeram.

E há outra coisa importante: sempre que o povo foi chamado a decidir, decidiu-se mal.

Dou um exemplo:

Quando Pôncio Pilatos deu a escolher ao povo, o povo não hesitou e escolheu libertar um ladrão e não Jesus Cristo.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 9 de junho de 2026

Martelada


Há uma espécie muito particular da vida pública portuguesa: o pregador profissional da moralidade.

A sua principal atividade consiste em explicar aos outros como devem viver.

Durante décadas, Luís Delgado ocupou esse espaço com notável competência. Entrava-nos pela sala dentro através da televisão com aquele ar sereno, pausado, quase professoral, como quem vinha da montanha trazer tábuas da lei para um povo perdido em tentações e pecados.

Falava de ética, de responsabilidade, de valores, de carácter e, sobretudo, dos outros. Sim, porque os moralistas raramente falam de si próprios.

Na televisão, a imagem era irrepreensível. Transmitia confiança, a voz ponderação, o discurso a ideia de alguém que sabia distinguir o certo do errado e que, por alguma razão misteriosa, se sentia na obrigação cívica de nos lembrar disso semanalmente.

E nós ouvíamos, ouvíamos, ouvíamos até nos doer o fígado. Uns concordavam. Eu sempre o achei pedante e demasiado moralista, nunca gostei dele, mas ouvia-o com cuidado enquanto se sentia aquele cheiro a lavado e a perfume dos caros.

De repente, aquele homem que durante anos distribuiu certificados de boa conduta e regras da etiqueta, como as que me ensinou a Paula Bobone nas aulas de compostura, o país vê-se confrontado com decisões judiciais que traçam um retrato bem diferente da imagem cuidadosamente polida ao longo de décadas.

A distância entre a janela virtual da TV e a realidade do banco dos réus é tão grande que quase dá para estacionar lá dentro toda a coleção de sermões que foi distribuindo ao longo da carreira.

É aqui que a história ganha contornos deliciosamente irónicos. Alguém que construiu uma parte significativa da sua notoriedade precisamente em torno da ideia de integridade, responsabilidade e superioridade moral.

Passou anos a apontar o dedo aos outros; devia ter o cuidado mínimo de verificar se o próprio telhado aguenta uma tempestade.

Mas a arrogância tem um problema: convence frequentemente as pessoas de que as regras servem apenas para os restantes mortais.

Na televisão, tudo parecia arrumado.

Nos tribunais, a arrumação revelou-se uma trapalhada grossa do Luís.

Na televisão, a postura era de magistrado da consciência nacional.

Luís foi condenado a pagar cerca de 23 milhões de euros e acusado de ter sido responsável pela falência da revista Visão, por martelar contas e praticar gestão financeira sem papéis. Está proibido de exercer gestão de património de outros durante 6 anos.

Ainda assim, o Luís, o admirável Luís, com uma persistência quase heroica, consegue arranjar energia suficiente para continuar a escrever, a comentar e a ocupar espaço nas páginas da revista que ele próprio levou à falência.

Fantástico 

Adérito BarbosaAdérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Peregrino da noite


Se disse que estava tudo bem

Foi só da boca para fora

Se sorri ao mundo dias inteiros

Desabei ao fechar a porta


Há coisas que ninguém entende

Há dor que se esconde da mente

Cansei de fingir ser forte

Quando por dentro sou diferente


Hoje não há belas palavras

Nem frases feitas para crer

Só vim porque preciso

Pois sozinho não se sabe viver


E quando vem a lucidez

Estou sozinho outra vez

Sozinho por dentro de novo

A ouvir o ranger das paredes


Se o Estranho do Fumo ouvir

Mesmo sem voz para falar

Que leia o meu silêncio

No pó que ficou no lugar


Há noites em que olho o tecto

E o céu parece fechado

Chamo, chamo, e só o eco

Me devolve o que foi calado


Perdi-me nos pensamentos

Afogado no meu próprio medo

Procuro-te nas esquinas

E em tudo o que ficou a meio


Procuro-te nas luzes tardias

Nos copos esquecidos no balcão

Mas encontro-te sempre por instantes

Num gole de angústia e solidão


Então volto da forma que posso

Sem força, sem saber dizer

O Estranho Homem do Fumo

Nunca aparece para responder


Mas deixa um rasto nos espelhos

E cinza onde ninguém fumou

Como se tivesse passado

E algo de mim levasse ou deixou


Eu não sei falar de outro modo

Sei que preciso de ficar acordado

Se houver outro caminho

Talvez já o tenha cruzado


Antes que desista

Antes que me deixe cair

Antes que a noite me leve

Ao convívio dos fantasmas

Que esperam sem nunca partir


Letra escrita para uma canção 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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