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sábado, 25 de abril de 2026

No tempo do Óscar

 No tempo do Óscar, era desejo fora da norma

Hoje, chamaria a isso: espírito gay.


Óscar Wilde pediu a amigos que usassem cravos tingidos de verde na lapela numa estreia teatral. Não por capricho botânico, mas por gosto pelo artifício. Uma flor antinatural, portanto mais interessante do que qualquer coisa que a natureza tivesse produzido sem consultar ninguém.

O cravo verde passou a circular como sinal de relações fora da norma vitoriana. Não um manifesto, que isso dava cadeia, mas um código discreto, suficientemente elegante para não ofender à primeira vista e suficientemente claro para quem sabia ler.

Wilde, que nunca teve grande paciência para o culto do natural, via ali o essencial: algo que não existe espontaneamente a servir de símbolo. Artificialidade consciente, identidade construída, recusa das regras impostas por quem confunde hábito com verdade.

O uso do cravo verde era também uma pequena provocação à sociedade conservadora. Nada de escândalos ruidosos, apenas um detalhe na lapela a dizer mais do que muitos discursos. Uma marca de pertença a um grupo que preferia o desvio inteligente à conformidade aborrecida.

À superfície, elegância. Por baixo, subversão.

Pode-se, sem grande risco de disparate, ligar isto ao que hoje se chamaria espírito gay. Na altura não havia rótulos modernos, havia códigos. Não se falava de identidade, falava-se de gosto, de estética, de afinidades que não cabiam nas categorias oficiais.

Para Wilde, - o cravo verde representa isso mesmo: desejo fora da norma, culto do artifício e uma forma discreta de reconhecimento entre iguais numa sociedade que preferia fingir que eles não existiam.

Eu estava desconfiado do tal espírito.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Alentejo 2026

 Foi domingo, 18 de abril, no Alto Alentejo, em Benavila, mais concretamente na Fundação Abreu Callado, para onde se fez a peregrinação dos fiéis da defunta Base Operacional das Tropas Paraquedistas 1 de Lisboa.

A malta apareceu em força, como manda a tradição e o espírito de corpo que não se perde com os anos. Entre reencontros, abraços demorados e aquelas histórias que já toda a gente ouviu mas ninguém se cansa de repetir, foi-se compondo o cenário de mais um daqueles dias que valem pelo que são: simples, directos e cheios de memória.

O Joviano Vitorino foi o mordomo e segurou a coisa com mão firme, sem espalhafato, como deve ser. Está de parabéns, porque não é só marcar presença, é fazer acontecer — e isso nota-se nos detalhes que fazem a diferença.

Houve prova de vinho Lúcio Perca, a acompanhar os enchidos na receção, num arranque que prometia e cumpriu. O ensopado de borrego trazia aquele sabor alentejano inconfundível, como manda a terra. O bacalhau estava no ponto, fofinho, sem invenções desnecessárias. Da sopa de feijão com couve, nem vale a pena falar — daquelas que dispensam comentários e pedem silêncio respeitoso.

Pelo meio, circularam as conversas de sempre: um misto de memória, exagero e verdade conveniente. Não faltaram as secas do costume, as dadas e as levadas, naquele equilíbrio fino entre a picardia e o companheirismo. Porque no fundo é isso que mantém a coisa viva: a capacidade de dizer tudo sem levar nada demasiado a sério.

Entre copos, gargalhadas e recordações, foi-se esticando o tempo sem pressa. E quando assim é, percebe-se que estes encontros não são apenas um hábito — são uma forma de não deixar cair aquilo que, por muito que o tempo passe, continua a fazer sentido.

Nas fotos: Edgar Bexiga e o Estratega, ambos do meu curso.

A reportagem completa está no mural do Serrano Rosa. 

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Um brinde à incoerência


Ambos especialistas da política de consciência ambiental e moralistas da superioridade moral. Na prática, ambos a exercitar dois colectivos: a ingenuidade da Europa e a incapacidade brutal da ONU. O Costa de Bruxelas continua nas suas reuniões com conversa que nunca mais acaba; essa entidade que gosta de se ver ao espelho como farol transformou-se lentamente num grupo hesitante e incapaz de defender os seus interesses.

O António Guterres de Nova Iorque , boneco que enfeita o salão nobre da ONU, também não foge à regra. Um verdadeiro incapaz, e com ele a ONU tornou-se um antro de promiscuidade onde só se preocupam em aprovar propostas peregrinas. Agora deu-lhes para inventar cruzadas morais travestidas de justiça histórica, com ideias de indemnizações colossais aos europeus por causa da escravatura. Para se ter uma ideia, já andam a empurrar números que rondam vários anos do PIB português. O mais giro no meio disto tudo é ver países como a Mauritânia a alinhar nestas moralidades enquanto ainda têm escravatura dentro de portas. Pasme-se que Portugal achou bonita a conversa do Gana.

A Coerência não é propriamente o forte desta malta.

É caso para dizer: rapaziada, tenham juízo. Esqueçam a teta dos europeus. Se querem mamar, vão trabalhar.

Voltando ao petróleo e às merdas que os europeus fazem, há um exemplo paradigmático. A Alemanha, um país com capacidade tecnológica, industrial e científica para garantir autonomia energética, decidiu — por pressão ideológica daquela histeria da esquerda radical — desmontar parte significativa da sua infraestrutura nuclear. Não foi uma decisão técnica, nem sequer estratégica. Foi uma decisão alimentada por uma visão simplista da canalhada dos Verdes, do PC e de uma larga ala do PS europeu. Chamaram a fedelha Greta Thunberg, fecharam centrais nucleares e acharam que, com isso, o mundo civilizado ficava automaticamente do lado certo da história.

O resultado foi uma cagada em três actos: substituiu-se uma fonte estável e controlável por dependência externa. E não de parceiros fiáveis, mas de regimes que operam segundo lógicas próprias, muitas vezes incompatíveis com os valores que a Europa diz defender.

A partir daí abriu-se a porta ao ridículo. A maioria dos países adormeceu com a balela e continuou tranquila a depender do gás russo e do petróleo da Venezuela, do Irão, da Arábia Saudita e de Angola — tudo regiões governadas por ditaduras ou marcadas por instabilidade crónica. O problema nunca foi a transição energética em si, mas sim a forma infantil como foi conduzida.

E depois há a questão do estreito. Esse ponto crítico por onde passa uma fatia significativa do comércio energético mundial tornou-se palco de tensão permanente. E o mais curioso é observar a reacção ocidental, especialmente europeia e americana, perante a possibilidade de interrupção do fluxo: discursos vagos, demonstrações de força cuidadosamente coreografadas, mas, no fundo, uma incapacidade evidente de impor uma solução clara.

Convém recordar o óbvio: o estreito não pertence ao Irão. O poder não reside apenas na posse formal de território, mas na capacidade de o controlar ou de impedir que outros o façam. E, nesse aspecto, aquilo que se vê é hesitação, divisão e, acima de tudo, medo de assumir consequências.

Os Estados Unidos, outrora previsíveis na sua assertividade, parecem hoje presos entre o desgaste de intervenções e a hesitação em abrir novas frentes. A Europa, continua a agir como um actor secundário que não conta para nada, limitando-se a comentar decisões alheias. Pelo meio, Portugal, episódios caricatos  revelam o estado geral da nação - Uma médica, prima do vice presidente do Partido da Limpeza, atirava o pessoal todinho para a reforma a troco de 1000 euros cada atestado.

E agora seria bom ir buscar esses reformados e pô-los a trabalhar - Isso é que que era uma Limpeza. 

No fundo, aquilo que se observa é a consequência inevitável de uma cultura que confunde conforto com segurança, discurso com poder e ainda querem que eu acredite que a nossa Constituição é o mal de todos os nossos pecados.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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