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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Verde código Verde


 Havia quem os carregava ao ombro como se fosse mala diplomática. Era o princípio da mobilidade, mas no fundo era apenas a mobilidade de andar com meio quilo de plástico e bateria na mão, a rezar por rede no meio de Lisboa.  Estou a falar dos telemóveis e lembrar-me das idas ao banco, dos balcões em madeira escura, dos livros enormes com caligrafia tipo escrita de papiro que mais pareciam bíblias onde cada depósito registado à mão, levava o carimbo molhado em tinteiro, e aqueles bancários de cara fechada atrás da caixa a fazer-nos sentir que estávamos a pedir um favor aos gajos. E aquelas filas intermináveis, as senhas de papel rasgado, e toda a resignação de quem sabia que ia perder a manhã inteira para levantar cinquenta paus.

Quem não se lembra dos autocarros verdes da Carris? O de dois andares, que fazia as delícias da miudagem, como se fosse um miradouro sobre rodas. E o rasteirinho sem portas atrás, onde a malta subia e descia em andamento, num exercício de ginástica urbana que hoje daria direito a processos no Tribunal de Menores. 

Depois chegaram os articulados laranja - os minhocas, era uma modernidade sobre rodas. Lisboa tinha cor, e não era só das paredes descascadas: eram reclamos luminosos, néon a piscar nas Avenidas, e copos de cerveja que se enchiam nas Picoas até deitar espuma por fora.

Quem não se lembra da chegada da internet, no seu estado primitivo, a chiar e a apitar como se estivéssemos a invocar marcianos? Cinquenta e dois k-bits de paciência, um modem histérico e a gloriosa sensação de ver uma página carregar ao fim de 6 minutos — se ninguém se lembrasse de levantar o auscultador do telefone fixo. 

Era futuro a acontecer devagarinho, pixel a pixel. Depois, os cartões magnéticos junto com o gesto estudado de tapar o código com a mão, como se estivéssemos a introduzir os segredos da NATO, enquanto os da fila olhavam para o tecto, para o lado ou para os sapatos, num fingimento colectivo de desinteresse. A privacidade do multibanco era uma encenação nacional, uma coreografia de cotovelos e olhares enviesados.

A coisa acelerou. Vieram os pagamentos por referência, aquela sequência de vinte dígitos intermináveis que transformava cada compra num exercício de datilografia. Vieram as plataformas online, os pagamentos por telefone, os MBWAYs da vida — convém lembrar, desenvolvidos em Portugal, uma das raras vezes em que não fomos apenas utilizadores de segunda mão. O almoço dividido à mesa já não exige contas de cabeça, apenas um manda-me MBWAY.

Hoje os bancos já não são de madeira, nem têm livros de registo. São aplicações no telemóvel. O balcão físico é uma espécie em extinção, como as cabines telefónicas. Restam alguns, como fósseis urbanos, para dar a ilusão de que ainda há humanidade no processo. Mas a humanidade foi substituída por códigos, passwords, tokens e os irritantes assistentes virtuais que respondem com uma alegria irritante às nossas irritantes perguntas. O gerente, outrora figura temida de gravata e bigode, foi trocado por um chatbot com sorriso desenhado em pixels.

E nem quero falar das novas operadoras do negócio virtual: Revolut, N26, Monzo e outras tantas que pouca gente conhece, mas que já capturam milhões de clientes mundo fora. Não têm balcão, não têm horário, não têm agência. O banco já não é edifício: é notificação push. É cartão de plástico minimalista que chega pelo correio, acompanhado de uma promessa de liberdade financeira. O dinheiro deixou de ser carteira e passou a ser aplicação.

A desmaterialização é inevitável. O dinheiro físico vai acabar. Os talões de papel seguirão para museu. Bancos com portas abertas, balcões, cofres, tudo desaparecerá. O futuro é um número no ecrã, um código que confirma ou nega a minha existência financeira, sem bateria, sem rede, sem internet, simplesmente deixo de existir. Não compramos pão, não carregamos o passe, não pedimos café. Tornamo-nos fantasmas de passos perdidos, condenados a olhar para o telemóvel morto como se fosse uma lápide.


E é neste cenário, em que tudo se resume a código, que ecoa o mantra ridículo: - Verde código Verde. Uma expressão que outrora poderia soar a pagamento, hoje é apenas uma expressão caricata. Um eco da modernidade que nos reduziu a cor, a número e a senha. Verde código Verde é o retrato de um mundo onde já não se levanta dinheiro, nem se levanta o código, onde já não se entra no banco, entra-se na aplicação. Onde a vida deixa de ser papel e passa a ser algoritmo.

Verde código Verde: a expressão analógica de um digital que já ninguém se lembra.

E agora que descobriram a vacina para qualquer tipo de cancro, resolveram o problema do HIV e como já descobriram propagação  5 vezes mais rápida da que a luz, eu já estou de malas feitas.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

MAIS CABOS ANSELMOS NÃO, OBRIGADO


Eu não quero ver cabos Anselmos nos quartéis, nem na GNR, nem na PSP, nem na PJ, nem no ex-SEF, nem muito menos em qualquer esquadrão de segurança nocturna que ande por aí a brincar à política. Portugal não precisa de mais patriotas nem de mais nacionalistas, comprados ao quilo na loja da esquina.

Para quem não se recorda – a amnésia histórica é o pão-nosso de cada dia – o tal cabo Anselmo era, na verdade, um simples fuzileiro naval brasileiro. O título de cabo serviu mais para segurar a lenda do que para realçar a patente. Em plena década de 60, concretamente em 1964, Anselmo subiu a um palanque diante de generais e fez um discurso inflamado sobre a pátria, a honra e a necessidade de resistir ao comunismo. Um discurso que parecia ditado ao telefone de Washington. Resultado? Poucos dias depois, o Brasil mergulhava na ditadura militar – um dos regimes mais brutais da América Latina, cozinhado a lume brando sob encomenda da inteligência norte-americana.

Anselmo, o herói de ocasião, viria mais tarde a ser desmascarado como aquilo que sempre fora: um agente da CIA. Um infiltrado, um político de uniforme, pago e instruído para sabotar qualquer hipótese de soberania política no Brasil. A revolução de 64, que os próprios militares baptizaram de contra-revolução, não caiu do céu em forma de tempestade. Foi planeada, ensaiada e executada com consultoria made in USA.

Chamaram-lhe Operação Brother Sam: uma frota naval norte-americana estava pronta a apoiar os generais brasileiros se fosse preciso esmagar resistências. O golpe teve nomes e apelidos – Castelo Branco, Costa e Silva, Médici – todos alinhados com Washington. Instalou-se uma ditadura de vinte e um anos, sustentada por censura, tortura, desaparecimentos e uma retórica de pátria, Deus e família, retratada no filme recente - Ainda Estou Aqui, com Fernanda Torres no papel de viúva de Rubens Paiva.

Tudo igualzinho ao que fizeram Salazar, Mussolini, Franco, Hitler, Saddam, Estaline, Fidel Castro ou Pol Pot.

E é aqui onde eu quero chegar: porque quando olho para o noticiário português e vejo um agente da PSP acusado de ligações a ditadores de trazer por casa, não consigo deixar de ouvir o eco do mesmo guião. Mudam os sotaques, mudam os slogans, mas a cartilha é a mesma: meter medo com o fantasma do inimigo interno, criar a necessidade de ordem, fabricar discursos de salvação nacional, tudo embrulhado em retóricas patrióticas. Perigoso. Assim como é perigoso apagar o fogo com a mão, como vi há dias.

Eu não compro essa mercadoria. Não quero voltar a organizar uma RGA na Escola Industrial Fonseca de Benevides do meu tempo – esta coisada não se ergue do nada. Tem financiamento, tem inspiração ideológica importada, tem o cheiro a pólvora que vem de fora. O caso do agente da PSP não é episódio isolado: é apenas a ponta do icebergue. E nós, como bons portugueses, preferimos olhar para a ponta e fingir que o resto não existe.

O cabo Anselmo brasileiro serviu para abrir as portas à ditadura e para esmagar uma geração inteira em nome da democracia da porrada. Se começarmos a aceitar Anselmos em Portugal – com farda ou sem ela – não esperemos que a história tenha mais piedade connosco do que teve com os brasileiros de 64.

E se o Brasil de ontem já nos dá lição, o Brasil de hoje deveria ser aviso em letras garrafais. Bolsonaro não apareceu sozinho. Foi fabricado no mesmo molde: medo do comunismo, culto da família, religião misturada com armas e militares a ocupar gabinetes ministeriais como se fossem fiscais de feira. Generais a governar como se o voto popular fosse detalhe dispensável. A certa altura, falava-se em golpe quase à descarada – e não faltavam quartéis onde se aplaudia a ideia.

Não se iludam: sempre que os militares se instalam no poder político, não trazem ordem, trazem autoritarismo. Podem vir de verde-azeitona, de uniforme engomado ou de boina, mas o resultado é sempre o mesmo: censura, vigilância, medo, e uma democracia de fachada onde só manda quem carrega mais estrelas no ombro.

Por isso digo sem hesitar: não quero militares nem paramilitares na política, em Portugal ou em lado nenhum. Podem encher a boca com palavras como pátria, Deus e família, mas o que realmente trazem é a erosão da liberdade. Hoje um cabo Anselmo, amanhã um general qualquer, e no fim um povo inteiro reduzido a espectador da sua própria história.

Não quero cabos Anselmos, nem generais soviéticos da NATO a defender interesses russos na televisão. Não quero polícias que se sonham cruzados, não quero militares que se imaginam messias, não quero seguranças nocturnos que se acham justiceiros urbanos. O país precisa de instituições decentes, não de quintais ideológicos ao serviço de quem se serve de analfabetos e de pseudo-militares para se promover na política.

Digo-o com clareza, sem paninhos quentes: não alinho na retórica dos ditadores promovidos pelos americanos. Que cada um fique com os seus cabos Anselmos. Eu fico com a memória da história, essa que insiste em repetir-se para castigar os distraídos de sempre.


Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Bombarral ilustrado

 




Ando atrás do sonho do Euromilhões há décadas.

Na semana passada fui tentar a minha sorte à papelaria cá do burgo.

Enquanto esperava na fila para ser atendido, encontrei no expositor esta pequena maravilha.

Um livro simples, silencioso e profundo, que procura manter vivo o património cultural do Bombarral através do bilhete-postal ilustrado.

Peguei no livro, folheei-o e trouxe-o comigo.

Reúne uma cuidada selecção de postais antigos, testemunho vivo da evolução da vila de Bombarral ao longo do século XX.

Neste livrinho tão mimoso podemos passear pelas ruas, ver edifícios e espreitar costumes que ajudaram a moldar a identidade da terra.

Muitos parabéns ao autor, que não sei quem é, apenas que dá pelo nome de José Vítor Silva.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blospot.com

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Distantes, intocáveis, indiferentes mas reinantes



Todos os meses, catorze vezes por ano, o IASFA enfia-nos a mão nos bolsos.

Convém explicar o trajecto de um documento enviado para comparticipação de actos médicos, para que todos os militares percebam a engrenagem e compreendam de uma vez por todas onde nós estamos enfiados:

1º passo - Aguarda Processamento: à espera que alguém se digne olhar para o documento.

2° passo - Processado: registaram-se os actos médicos e valores.

3° passo - Verificado: confirmaram que as contas estão certas.

4.o passo - Certificado: a comparticipação está dentro da lei.

5° passo - Autorizado: aguarda liquidação.

6° passo Liquidado: foi enviado para pagamento, mas sem confirmação.

7.º passo - Pago: quando o dinheiro chega efectivamente à conta.

8º passo - Devolvido: irregularidade ou erro.

9° passo - Arquivado: já não conta, fica apenas no histórico.


Pois bem: um documento datado de 27-11-2024, com comparticipação no valor de 240 euros. Hoje, nove meses depois, continua a vaguear na plataforma. Encontra-se na etapa “Classificado”, como se fosse um videojogo mal programado em que o utente nunca passa de nível. Em nove meses apenas atravessou três etapas. Faltam outras tantas, sem prazo, sem horizonte e sem qualquer justificação plausível.

Para tentar perceber o absurdo, fui rever um outro documento mais antigo, no valor de 38 euros. Segundo o sistema, está pago. Fui à Caixa Geral de Depósitos confirmar. Resultado: nada. Nenhum registo. Nenhum depósito. O pagamento existe apenas no sistema, mas nunca na conta.

Daqui só se pode concluir o óbvio: o IASFA arrasta processos durante praticamente um ano para chegar a uma liquidação que não corresponde a qualquer pagamento real. E quando finalmente “paga”, a pergunta é simples: para onde vai o dinheiro? Não entra na conta do beneficiário. Fica retido algures entre a máquina burocrática e as prioridades da corporação que a dirige.

O problema é estrutural. O IASFA tornou-se um mastodonte administrativo, gerido por uma cúpula que parece viver de expedientes, carimbos e opacidade. Alimenta-se todos os meses dos descontos dos utentes — catorze meses por ano, quando o calendário só conhece doze — e devolve em troca lentidão, ineficiência e silêncio.

Um seguro privado demora em média 45 dias a comparticipar actos médicos. O IASFA precisa de nove meses para não pagar. A diferença é clara: no privado a doença é tratada, no IASFA a doença é arquivada.

Este mecanismo não é um apoio. É um teste à paciência de quem desconta. O beneficiário fica sempre na posição do pedinte, à espera de uma esmola que nunca chega. E todos falam, todos se queixam, mas nada muda. O IASFA continua a reinar nos bolsos dos seus utentes, impune e intocável, como se o dinheiro fosse deles e não de quem o entrega religiosamente todos os meses.

Para o IASFA, um ano tem catorze meses. E reinam como o Sol: distantes, intocáveis e indiferentes.

Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

15 de Agosto

 


Trago esta data colada a mim como uma lapa — daquelas que não despega. Não sei se foi o tempo que escolheu este dia para mim, ou se fui eu que, aos poucos, lhe fui dando importância. Sei que volta todos os anos com ar solene, como quem vem cobrar. E eu, como sempre, finjo não dar por nada. Faço-me desentendido. Às vezes convenço-me outras, nem por isso.

Nunca fui de contar os anos. Não por medo talvez por desinteresse. O que é que isso me diz? Que já dei 66 voltas ao sol? E depois? Sempre fui mais de medir os anos pelo que me deixaram no corpo, e menos pelo que escreveram nos papéis. A barba branca apareceu cedo, aos vinte, e foi ficando — como quem ocupa lugar com tempo. Mas nunca serviu de referência. As rugas, que esperava que viessem em tropa, falharam a convocatória. Ou então andam por dentro, disfarçadas nos joelhos que rangem, nas noites que já não toleram bebidas brancas, e nos músculos que protestam só por me levantar da cadeira. O tempo não me vincou a cara, mas tem andado a esculpir-me por dentro.

Sentado em cima dos 66 — que é onde oficialmente me encontro, apesar de não os sentir — dou comigo a pensar como é que se leva a vida daqui para a frente. Não é drama, nem crise existencial. Só que já deixei de ir prà noite há tanto tempo que nem sei a cor das luzes dos bares. O cheiro a patchuli foi substituído por creme anti-inflamatório. Já não tenho pachorra para os mesmos engates, as mesmas verdades mansas e as mentiras cansadas dos balcões. Já não danço. O whisky e o café perderam-se-me. Ainda provei um gole outro dia, por cortesia — e foi a noite toda a ouvir os joelhos a protestar. 

Agora é isto: adaptar-me à água, à moderação e aos comprimidos. Um para o colesterol, outro para o reumático, mais três para a anemia, outro para a doença autoimune, que ainda ando a decorar o nome. E pronto, com este andamento, qualquer dia o “azul” também começa a parecer inevitável.

Tomo-os todos com alegria, vá. Como quem aceita o ritual. Há coisas piores do que engolir comprimidos.

Sentado em cima dos 66, aprendi a fazer de conta que sou um homem zen. Quando o meu neto de cinco anos cá está, trocam-se os papéis. Em vez de fazer figura de velho macaquinho — daqueles que falam fininho e fazem perguntas parvas — eu visto a pele do miúdo, e é ele quem se vê aflito comigo. Os processadores dele funcionam lindamente, por isso mesmo Inventamos teatros, ficções, absurdas. Às vezes faz grande banzé: não gosta de vestígios de cenoura na sopa, mas antes comera cenoura crua. Ou então porque não quer sair de casa, quer ver os bonecos. Entra no carro a choramingar e diz que tem calor. Nada que um gelado não resolva. Eu rio-me. O mundo dele tem mais lógica do que o meu.

E é esta versão de mim que mais gosto. Um avô novato. sentado em cima dos 66, mas com vontade de levantar voo, com a certeza absoluta de que o corpo pode trair, mas o espírito ainda dá cartas. Sinto-me mais leve do que muito garoto de 40, que já nasceu cansado e com a alma encarquilhada.

Aos que andam por aí com a minha idade e já decidiram armar-se em velhos, deixo o recado: ide catar-vos. Deixai-vos de lamúrias, peninhas e discursos arrastados do antigamente é que era bom. O que já foi, foi. Agora é agora. E eu estou cá Inteirinho da Silva com um corpo que parece ter menos vinte e um espírito que ainda não encontrou idade. E, acima de tudo, com a liberdade de dizer o que penso sem me preocupar se agrado. Porque se há coisa boa nisto de ter 66 e  já não tenho de provar nada a ninguém.

Faltam-me três anos — ouviram bem, só três — para atingir o magnífico número 69. E assim que os fizer, vou ter de arranjar outra coisa qualquer para me manter a mente enxuta. 

Agora que o neto já foi para casa dos pais, tudo voltou ao normal. Retomei a rotina: já cortei as ervas, reguei as árvores de fruto (incluindo o limoeiro, que desde que o Xico esfregou os cornos nele, ficou raquítico), tratei do Boris, desarrumei e arrumei a garagem dez vezes e lavei o pátio pela milésima vez.

Só falta ir meter o nariz no X, ver se me actualizo nas fofoquices.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Alcochete


Portugal é um país maravilhoso, sobretudo quando se olha para a sua vertente tradicional – aquela que resiste ao desgaste dos anos, que sobrevive à pressa da modernidade e que continua a reunir gerações em torno das mesmas emoções que encantaram os avós e hão-de emocionar também os netos. Se há terra onde o testemunho vivo desta força cultural se mantém, essa terra é Alcochete.

Durante grande parte do ano, Alcochete é um lugar sereno, onde o Tejo repousa junto ao casario e às ruas estreitas, desenhadas para acolher passos lentos e conversas demoradas. É uma vila pacata, habitada por gente simples, mas ferrenha, onde o tempo parece correr ao ritmo das marés.

A vida desenrola-se sem pressas: ora cheira a maré-cheia, ora a lodo quando a maré vaza, deixando no ar o odor salgado do rio. Mas basta chegar agosto para que o sossego dê lugar a uma energia vibrante.

As festas de verão transformam a vila num centro de alvoroço e alegria. Ruas e praças enchem-se de luzes e cores, e a música popular ecoa até nas esquinas mais recatadas. O cheiro a sardinha assada mistura-se com o aroma doce das farturas, enquanto o burburinho das barraquinhas acrescenta ainda mais vida ao cenário. É assim que Alcochete se abre ao mundo, recebendo de braços abertos todos os que chegam de perto e de longe.

Parece-me haver famílias inteiras que regressam todos os anos, e amigos – como foi o meu caso – que marcam reencontros apenas nesta altura e acabam por descobrir a vila pela primeira vez. O ambiente é de partilha e convívio, com bailaricos que se prolongam pela madrugada, concertos ao ar livre, procissões solenes e, claro, a festa brava do touro, que é o grande orgulho local, coroada pela charanga – que, por acaso, não fiquei para ver.

A tradição taurina de Alcochete não é apenas um espetáculo: é um ritual com raízes profundas, uma herança que passa de geração em geração e um símbolo de identidade local. As ruas enchem-se para assistir às largadas, momentos em que a coragem e a destreza se misturam com a adrenalina e o entusiasmo da multidão. É uma experiência intensa, onde o respeito pela tradição se sente tanto no silêncio expectante antes da saída do touro como no clamor colectivo que acompanha cada movimento. E quando acontece uma marrada ou algo pior - Alcochete suspende a respiração.

Toda a comunidade participa, de uma forma ou de outra. Uns arriscam-se na arena improvisada das ruas, outros ajudam na organização, e muitos preferem vibrar a uma distância segura.

Em Alcochete, a festa não é apenas um evento no calendário: é um reencontro com as raízes, um brinde à cultura portuguesa na sua forma mais pura e autêntica, um momento em que o passado e o presente se dão as mãos. Quando as luzes se apagam e a vila regressa à tranquilidade habitual, ficam no ar o eco das vozes, o cheiro do rio e a certeza de que, no próximo agosto, tudo recomeçará – porque certas tradições não conhecem fim, apenas novas formas de continuar a existir.


Adérito Barbosa in 

olhosemlente.blogspot.com

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Bombarral a ferver

Está a decorrer, entre os dias 7 e 12 de agosto, no Bombarral, o 40.º Festival do Vinho e o 30.º da Pera Rocha.

O recinto está encantador, tudo muito bem arrumadinho. Há vinho para todos os gostos e tasquinhas de todos os feitios. Basta ter algum dinheiro — não é preciso muito — para se poder provar ou degostar os vinhos de Portugal.

Só o copo custa 3 euros.

Podes jantar ou petiscar por cá. Depois, é só aproveitar os concertos: vão passar pelo palco os Xeques Orquestra, Para Sempre Marco, Miguel Gameiro, Van Zee, Carolina Deslandes e o inevitável Quim Barreiros.

Rapaziada, venham até cá viver esta maravilha do vinho.

Venham no sábado... que eu não estou cá.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

domingo, 3 de agosto de 2025

O Ranhoso de sempre

 


Já cansa esta ladainha da esquerda europeia, com o Sr. Macron à cabeça e o seu bando de galinhas lusitanas, a cacarejar pela solução dos dois Estados - o da Palestina, que nem sequer existe juridicamente, ou o Estado do Hamas — esse sim, real, armado, e reconhecido como organização terrorista pela União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Japão e por alguns países árabes.

A esquerda portuguesa, fiel ao seu papel de activista de café, quer ser  pioneira no reconhecimento de um Estado fantasma, dividido entre dois bandos que se odeiam quase tanto quanto odeiam Israel. Desde 2007 que o Hamas controla a Faixa de Gaza com mão de ferro, após ter deposto violentamente a Autoridade Palestiniana. Desde então, há 17 anos, que não há eleições. Em vez disso, há purgas internas, repressão política, e um regime teocrático que impõe regras medievais à população civil. O outro Estado, a Cisjordânia — vive sob uma administração corrupta, sem legitimidade popular, cuja única função parece ser gerir os fundos internacionais que nunca chegam à população.

O entretenimento preferido de ambos continua a ser o mesmo: lançar foguetes sobre civis israelitas, enviar homens-bomba para cafés, esplanadas e autocarros, raptar mulheres, crianças e idosos, e depois — claro — escudar-se atrás de hospitais e escolas para colher dividendos mediáticos. Desde 7 de Outubro de 2023, com o massacre de mais de 1.200 civis israelitas, incluindo bebés queimados vivos e mulheres violadas em massa, o Hamas consolidou o seu estatuto de organização terrorista internacional. O mundo civilizado ficou chocado. A esquerda ocidental, como sempre, relativizou o assunto.

A propaganda é de tal ordem que, se dermos ouvidos às manchetes, Israel só combateu crianças nos últimos três anos. Ninguém viu um único militantes do Hamas mortos. E, no entanto, estima-se que, desde o início da ofensiva israelita após 7 de Outubro, cerca de 40.000 combatentes tenham morrido.

A indústria palestiniana é, em grande parte, mediática. Produz vídeos para redes sociais, encena vítimas, manipula imagens e converte cada confronto em espectáculo para consumo das elites morais do Ocidente. A ciência praticada em Gaza é a da manipulação emocional. A tecnologia é importada do Irão: foguetes, explosivos, drones. O investimento humanitário que entra — cerca de 1,5 mil milhões de dólares anuais, segundo a ONU — é frequentemente desviado para construir túneis e esconderijos subterrâneos.

E no centro desta farsa está António Guterres, o pior Secretário-Geral da ONU da história recente. Um homem que conseguiu o insólito feito de ser declarado persona non grata por Israel. Sob o seu mandato, a ONU falhou em todos os principais conflitos da década: Ucrânia, Gaza, Síria, Sudão, Haiti. 

E… aquele assunto dos curdos é melhor nem dizer nada.

A sua diplomacia resume-se a declarações de condenação previsíveis, sem efeito prático, sempre carregadas de ambiguidade moral — com o dedo mais facilmente apontado a democracias ocidentais do que a ditaduras teocráticas.

Guterres, como bom esquerdista, confunde Estado com grupo armado. Confunde ciência com ressentimento. Compara um país democrático, com parlamento, imprensa livre e sistema judicial funcional, com uma organização jihadista cujo objectivo declarado é a destruição de Israel. Confunde fábricas de microchips com fábricas de mártires. Confunde um país que exporta tecnologia médica para o mundo inteiro com uma faixa de terreno que exporta vídeos de propaganda com crianças mutiladas — muitas vezes vítimas de explosões provocadas por armamento defeituoso do próprio Hamas.

O conflito israelo-palestiniano não será resolvido com moções simbólicas nos parlamentos europeus, nem com cimeiras diplomáticas onde se trocam sorrisos e frases feitas. Resolver-se-á quando os países árabes deixarem de usar os palestinianos como peões e quando os próprios palestinianos decidirem se querem trabalhar ou continuar a viver da glória do martírio subsidiado.

Portugal, como sempre, ranhoso, já se posicionou na linha da frente para reconhecer aquilo que não existe. Ninguém mandatou o governo para isso.

Na foto um membro do Hamas carrega um boneco disfarçado de cadáver. 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

Publicação em destaque

Florbela Espanca, Correspondência (1916)

"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...