Chamem-lhe ironia que a vida esconde, castigo político ou simples suicídio eleitoral. Cabo Verde conseguiu aquilo que parecia improvável: entregar, de bandeja e com laço azul, uma maioria absoluta aos comunistas guinéus. Não porque eles descobriram a fórmula mágica da redenção nacional, nem porque apresentaram um programa revolucionário capaz de incendiar a esperança popular. Não, nada disso. O poder mudou de mãos porque o MPD trabalhou arduamente para o entregar. É preciso reconhecer mérito onde ele existe. Perder assim exige muito talento.
Foi pelas mãos de Ulisses Correia e Silva e pela coreografia da palermice de Abrão Vicente — esse misto de entertainer institucional e cronista do fracasso — que se abriu o caminho para o regresso dos chamados “homens do mato”, expressão que durante anos serviu de espantalho eleitoral.
Durante anos, o MPD governou com o conforto típico de quem acredita que venceu a História, que ele era a própria História. Instalou-se nele próprio a convicção perigosa de que governar era um direito natural e não uma concessão temporária do eleitor. Quando um partido começa a confundir vitória eleitoral com herança divina, o relógio já começou a contar para a queda da lâmina da guilhotina. O poder, em Cabo Verde como em qualquer parte de África, intoxica. A uns embriaga discretamente; a outros, torna-os deuses.
Ulisses e a sua corte cedo revelaram o clássico síndrome africano: a paixão mórbida pelo poder. Agarraram-se ao aparelho de Estado com a dedicação de um cão ao osso. Já não governavam para convencer; governavam para permanecer. E, quando um governo passa mais tempo a proteger-se do desgaste do que a resolver problemas, a erosão torna-se inevitável. O mais impressionante não foi só a arrogância. O impressionante foi a inutilidade dessa mesma arrogância. Tinham tudo: poder, comunicação, máquina partidária, influência institucional e tempo suficiente para reformar estruturalmente áreas críticas. E, no entanto, falharam no essencial. Não resolveram o problema da pobreza.
A retórica daquela velha conversa das parcerias floresceu. Vieram os indicadores, o crescimento, as conferências, os painéis, os fóruns internacionais e muita conversa mole. Mas o cidadão comum continuou a viver num país estatisticamente pobre e quotidianamente caro. As famílias continuaram a fazer malabarismos entre renda, alimentação, transporte e educação. A juventude, sem esperança, continuou a olhar para o aeroporto e para os paquetes como quem contempla uma saída de emergência. A maior exportação nacional foi a fuga dos mais jovens. E aqui reside uma das maiores acusações políticas ao MPD: não conseguiu criar horizontes para os jovens.
Um governo não precisa resolver tudo, ó cambada de incompetentes; precisa criar expectativa credível de melhoria. Precisa fabricar esperança racional. Precisa convencer o cidadão de que, se não está melhor hoje, poderá estar amanhã. O MPD falhou nisso! Não criou esperança. Criou fadiga. Até eu, daqui bem longe, fiquei cansado. A comunicação tornou-se exercício de auto-contemplação. Parecia haver uma obsessão permanente com a própria imagem. O governo passou demasiado tempo a admirar-se ao espelho. Enquanto isso, o país real acumulava frustrações.
Abrão Vicente, por exemplo, em vez de funcionar como político, preferiu muitas vezes a galhofa, o sarcasmo e a personalização do combate. Fez política como quem faz entretenimento de fim de semana. Atacou-se Francisco Carvalho enquanto personagem, nunca enquanto projeto político. Erro elementar. Abrão, quando se ridiculariza um adversário sem desmontar as ideias que o sustentam, oferece-se a ele um presente precioso: a vitimização. O eleitor não vota necessariamente por amor. Muitas vezes vota por irritação. E o MPD irritou-me também. Irritou pela sensação de soberba. Irritou pela incapacidade de perceber que o eleitorado não é obrigado a gostar de quem se sente inevitável.
Olavo Correia, eterno ministro das Finanças, transformou-se numa figura quase mitológica: sempre presente, sempre central, sempre mentiroso. A impressão pública foi a de um homem tecnicamente incompetente e politicamente desconectado da angústia material da população. Números não enchem panelas; discursos sobre finanças públicas não pagam renda. O maior pecado do MPD foi a incapacidade de compreender a natureza do voto de protesto. As eleições não foram apenas uma escolha ideológica. Foram um ajuste de contas emocional. O eleitor cansou-se. Cansou-se da sensação de permanência eterna. Cansou-se do discurso autorreferencial. Cansou-se de promessas recicladas. Cansou-se da estética de superioridade moral e intelectual. E decidiu punir.
A oposição não precisou fazer nenhum brilharete. Bastou esperar que o governo se autodestruísse metodicamente. Foi isso que aconteceu. O MPD não perdeu para adversários particularmente geniais. Perdeu para a própria incapacidade de ouvir. A política tem uma regra simples: quem deixa de escutar começa a falar sozinho.
Foi exatamente isso. Enquanto o cidadão falava de custo de vida, precariedade, emigração e ausência de perspetivas, o poder, ou Olavo, respondia com performance. Enquanto o país pedia soluções, Abrão oferecia espetáculo. Resultado: maioria absoluta para quem, ontem, era tratado como ameaça civilizacional. Há uma justiça quase literária nisto. Durante anos, vendeu-se o medo do regresso dos “homens do mato”. No fim, foi o próprio MPD quem lhes abriu a porta, estendeu a passadeira vermelha e acenou cordialmente. Não foram derrotados apenas nas urnas. Foram derrotados pela vaidade. A história política cabo-verdiana regista agora mais um capítulo clássico: governos raramente caem apenas pela força dos adversários. Caem, sobretudo, quando se convencem de que são insubstituíveis.
O MPD acreditou nisso. Pagou por isso. E Cabo Verde acorda hoje perante uma nova realidade política, construída não tanto pela genialidade dos vencedores, mas pela monumental incompetência estratégica dos vencidos. Os homens do mato regressaram. Mas convém dizer a verdade: não invadiram.
Foram convidados.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com
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