Descanse em paz General
A minha mãe era funcionária dos tios dele. O Sr. Zeca e a Dona Lili Almendra. Ele, o sobrinho famoso, coronel dos paraquedistas, e eu um puto ranhoso que, sempre que não havia aulas ou tinha furo, aparecia lá por casa e levava horas de conversa sobre os Páras, saltos, tropas e electrónica. Uma seca monumental para um miúdo que só lá passava para os cumprimentar - um ritual sagrado imposto pelos velhos.
E a Dona Lili sempre na mesma cantiga:
— Eu digo ao sobrinho Heitor que tu és filho da Betina e ele ajuda-te.
Aquilo entrou-me na cabeça como entram todas as ilusões perigosas da juventude. E quando me vi apertado na Casa do Gaiato de Lisboa, pirei-me direitinho para os Páras, convencido de que, se a coisa corresse mal, lá estaria o Almendra, netinho do Sr. Zeca, a estender-me o tapete vermelho para eu subir na vida.
Foi preciso exactamente um minuto dentro da Base Escola para eu perceber que jamais, em tempo algum, abriria a boca para dizer que era protegido dos tios do Almendra.
Nos Páras, ter cunhas era o equivalente militar de pintar um alvo nas costas. Era meio caminho andado para flexões até os braços entrarem em falência técnica. Ali não havia filhos de ninguém. Havia apenas desgraçados a sofrer em colectivo.
Portanto, segui o meu caminho no anonimato mais absoluto. E cedo percebi que o melhor para a minha saúde física era manter o Almendra longe dos meus processos, os instrutores longe do meu nome e toda a gente longe das histórias da Dona Lili Almendra e do José Almendra.
A vida foi andando e eu fazendo o meu caminho de pedras. Acabei colocado na Secção de Justiça e cruzávamo-nos amiúde no edifício do Comando sempre que ele aparecia na Base Escola. Ele de patente alta, eu a tentar subir os degraus.
Décadas depois, já ele reformado pela idade e eu pela reforma extraordinária, encontrámo-nos num evento na BETP. Durante o almoço, no refeitório de praças, resolvi finalmente dizer-lhe quem era.
Olhou para mim, abriu um sorriso e saiu-lhe logo:
— Seu sacana. A minha tia passava a vida a falar de ti. Porque é que nunca me disseste nada durante todos estes anos?
Falámos demoradamente. Dos tios dele. Da minha mãe, que ele conhecia muito bem. Mas já estavam todos mortos.
No fim deu-me o contacto dele e deixou o recado exactamente igual ao dos tios:
— Regista o meu número. Se precisares de alguma coisa, liga-me. Ou então vai almoçar comigo.
E ao saber da notícia da morte do nosso General Almendra, dei por mim a recordar o Sr. Zeca, a Dona Lili, a minha mãe, a Base, os instrutores, as flexões e aquele estranho mundo dos Páras onde não fui capaz de me servir da cunha.
Descanse em paz, General Almendra. Diga aos seus tios que me viu safando sozinho.
Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com
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