Estou abismado e ligeiramente entretido com o espectáculo nacional — que é como quem diz: ligo o telemóvel, abro as redes sociais e vejo logo circo sem precisar de pagar bilhete. Desde que o Chega apareceu, o país ficou dividido como aquelas famílias que discutem no Natal por causa da herança da avó: de um lado, os que não querem o André Ventura a mandar nisto tudo; do outro, os que acham que ele é a poção genética perfeita entre salvador da pátria e comentador da CMTV.
A matemática é simples. Quase 70% não quiseram Ventura a Presidente. Setenta. Sete-zero. Uma multidão suficientemente grande para encher estádios, rotundas e procissões. Do outro lado, cerca de 30% acharam que sim senhor, que o homem era a solução para os males da pátria.
Os 70%, onde me incluo, votaram, suspiraram e foram tratar da vidinha. Já os 30% não. Esses votaram e foram directamente para o Facebook, que é o novo quartel-general da resistência patriótica de sofá. Ali transformam-se. Metamorfose instantânea. Gente que nunca enfrentou nada mais agressivo do que uma fila no Continente vira gladiador digital. Dedo nas teclas, peito inchado, patriotismo inflamado por Wi-Fi.
De repente, surgem os guerreiros da pátria virtual.
São valentes. Corajosos. Intrépidos. Especialistas em combate corpo-a-corpo…
Chamam nomes. Inventam teorias. Descobrem conspirações enquanto comem bolachas Maria. Tratam quem discorda como traidor da nação, agente infiltrado, vendido ao sistema, funcionário secreto da cantina do Parlamento. Tudo serve. Argumentos são opcionais; indignação histérica é obrigatória.
Pegam com tudo.
Pegam com o vestido da primeira-dama como se o tecido tivesse cláusulas ideológicas escondidas nas costuras. Pegam com a guarda presidencial como se a postura dos agentes fosse responsável pelo défice. Pegam com a morada das Caldas da Rainha como se o código postal fosse um manifesto político cifrado. Eles pegam, elas pegam. Toda a gente pega.
E convém dizer: não, isto não é um exclusivo masculino. Há ali uma ala feminina que entra em campo de sola levantada, com comentários capazes de fazer corar camionistas veteranos. A agressividade não tem género; tem algoritmo. Algumas senhoras transformam a caixa de comentários num ringue de luta livre verbal onde cada frase é uma cadeirada. Se a ironia fosse crime, metade já estava a cumprir pena.
Essa minoria barulhenta virou maioria sonora. Não são mais — fazem é mais barulho. Passaram todos a pensadores políticos de mural, especialistas em tudo: geopolítica, economia, estratégia militar, direito constitucional e, nas horas vagas, treinadores de bancada.
É vê-los, iluminados pela luz azul do ecrã, a escrever tratados ideológicos com a solenidade de quem está a redigir a nova Constituição… quando, na verdade, estão de pijama com nódoas de esperma do ano passado.
Convenceram-se de que são os únicos lúcidos numa nação de ovelhas. Eles são os despertos. Os outros são mansos. Eles pensam; os outros pastam. Eles lutam; os outros dormem.
E há uma curiosidade eleitoral que serve de gasolina para fogueira emocional. Parte do eleitorado vem dos imigrantes brasileiros com simpatias a Jair Bolsonaro — velha figura ndo Brasil com presença constante na justiça e preso. O fenómeno é curioso: gente que passou décadas dentro do sistema político aparece agora como anti-sistema.
É como vender água engarrafada retirada da torneira, mas com rótulo patriótico e tampa dourada. A narrativa repete-se com sotaque nacional. Antes de se tornar líder partidário, Ventura passou anos nos debates televisivos da CMTV, especialmente naqueles programas onde se discute futebol com a intensidade de quem negocia tratados de paz no Médio Oriente. Foi ali, naquele coliseu de comentadores, que o país assistiu a momentos caricatos, trocas de acusações entre Ventura e Aníbal.
Ali o André aprendeu a mistura clubismo, escândalo, indignação performativa e frases bombásticas - barulho é essencial.
Entretanto, a trajectória política fez escalas previsíveis: passagem pelo PSD, ambições autárquicas, cargos intermédios, tentativas falhadas, até surgir o novo projecto partidário vendido como vassoura moral para limpar Portugal.
E aqui confesso: por breves instantes, quase acreditei e foi por um fio que não me filiei. A ideia de abanar o pó à casa quase me seduziu. O problema foi quando descobri que, em vez de limpeza geral, afinal só mudavam os móveis velhos de sítio e escondiam o lixo debaixo da velha carpete.
Muitos dos rostos mudaram de camisola partidária - Saltaram do CDS – Partido Popular, e do Partido Social democrática e apareceram com outro discurso, com nova embalagem e velhas práticas. Os verdadeiros descontentes — aqueles ingénuos como eu, que acreditaram numa revolução ética — ficaram pelo caminho e nem sequer foram convidados para o jantar do costume.
À volta do tacho lá estavam os costumeiros de sempre - Os sobreviventes do aparelho do sistema.
E o cidadão comum assiste, dividido entre a descrença e o entretenimento mórbido.
No meio disto tudo, o debate político transformou-se numa guerra de trincheiras emocionais onde ninguém ouve ninguém. Cada lado grita mais alto, não para convencer, mas para abafar. Os argumentos deram lugar a rótulos; o diálogo foi substituído por insultos.
E eu, sinceramente, estou cansado.
Cansado da minoria ruidosa que confunde volume com razão. Cansado dos justiceiros de teclado que tratam divergência como traição. Cansado de ver portugueses a insultar portugueses por causa do Ventura. Cansado de ver diferenças políticas transformadas em guerras pessoais.
No fim, sobra o quê?
Sobra um país onde todos gritam e quase ninguém escuta. Onde a política deixou de ser construção colectiva para virar campeonato de ofensas; onde a minoria barulhenta vive convencida de que representa o povo, enquanto o verdadeiro povo está ocupado a trabalhar, a sobreviver e a tentar manter a sanidade mental intacta, com o preço da gasolina a subir-lhe nos bolsos.
E chego ao limite da paciência: ver essa minoria militante chamar “burros” aos restantes portugueses como se inteligência política fosse medida pelo grau de fúria nos comentários.
Não é; nunca foi!
Barulho não é lucidez. Armar-se em agressivo no teclado, ainda por cima cheio de erros de português, não é coragem. É burrice. Fanatismo não é patriotismo; é patriotário. Perdão… otário.
Nisto, os verdadeiros problemas do país continuam ali, quietos, à espera que alguém os trate com seriedade.
Por mim, podem continuar a salvar a nação com insultos. A pátria agradece o esforço heróico feito entre um café e um Enter.
Se algum dia atribuirem medalhas por bravura digital, seremos finalmente um povo condecorado… sentado.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com
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