A extrema-direita não entrou pela porta das forças de segurança de rompante, não. Não, não. Foi-se infiltrando pelas frestas das janelas, pelos cafés de esquina, pelos grupos de WhatsApp, pelas conversas de corredor onde a farda pesa menos do que a cartilha ideológica do CHEGA. E assim se conseguiu a proeza nacional de transformar parte da PSP — outrora instituição respeitada, humanizada e confiável — numa espécie de laboratório da bandalheira, onde a autoridade se confundiu com arrogância e a ordem pública com tiques de milícia armada.
Há anos que escrevo sobre esta contaminação política plantada dentro das forças de segurança, e não é só na PSP, não. O que antes era murmurado em voz baixa, hoje exibe-se sem vergonha, como se a radicalização fosse medalha de mérito. Vi amigos meus na PSP deixarem de me falar porque eu tive a ousadia quase revolucionária de não seguir o profeta Ventura. Alguma malta da PSP seguiu-o até ao Rato.
E, chegados ao Largo do Rato, encontramos um episódio que não surpreende ninguém minimamente atento. Apenas confirma aquilo que já se sabia: quando se alimenta durante anos uma cultura de impunidade moral, alguns acabam por acreditar que a farda lhes concede licença para brincar aos justiceiros de bairro. Estrangeiros, sem-abrigo, pretos, toxicodependentes — os alvos preferidos da valentia selectiva. Curioso como a coragem revolucionária destes heróis costuma escolher sempre quem já está de joelhos.
Isto mete-me nojo.
Não apenas pelos agentes envolvidos, mas pelo silêncio cúmplice das chefias, que assistem à lenta degradação institucional como quem observa infiltrações no tecto e decide meter um balde por baixo. Há uma passividade obscena em deixar polícias entregues à própria deriva ideológica, como se a disciplina tivesse sido subcontratada ao algoritmo do Facebook e ao entusiasmo político da mulher da limpeza de Portugal.
As chefias fazem de conta que não vêem. O Estado reage sempre tarde, como a polícia nos filmes americanos. E a democracia, essa, vai pagando a conta dessa bandalheira toda.
Agora resta esperar que a justiça faça aquilo que tantas vezes parece faltar dentro da própria instituição: separar autoridade de abuso, serviço público de delírio partidário.
A coisa vai apertar. O Ventura não vai aparecer montado num cavalo branco, de espada em punho, para resgatar os seus fiéis. Esses possivelmente vão apodrecer, e bem, na cadeia.
É urgente que alguém diga àqueles da PSP, aos meus camaradas militares, aos barulhentos reformados do CHEGA e ao profeta André Ventura que o único momento em que um homem olha de cima para baixo para outro homem é para lhe esticar a mão e ajudá-lo a levantar.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com
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