No tempo do Óscar, era desejo fora da norma
Hoje, chamaria a isso: espírito gay.
Óscar Wilde pediu a amigos que usassem cravos tingidos de verde na lapela numa estreia teatral. Não por capricho botânico, mas por gosto pelo artifício. Uma flor antinatural, portanto mais interessante do que qualquer coisa que a natureza tivesse produzido sem consultar ninguém.
O cravo verde passou a circular como sinal de relações fora da norma vitoriana. Não um manifesto, que isso dava cadeia, mas um código discreto, suficientemente elegante para não ofender à primeira vista e suficientemente claro para quem sabia ler.
Wilde, que nunca teve grande paciência para o culto do natural, via ali o essencial: algo que não existe espontaneamente a servir de símbolo. Artificialidade consciente, identidade construída, recusa das regras impostas por quem confunde hábito com verdade.
O uso do cravo verde era também uma pequena provocação à sociedade conservadora. Nada de escândalos ruidosos, apenas um detalhe na lapela a dizer mais do que muitos discursos. Uma marca de pertença a um grupo que preferia o desvio inteligente à conformidade aborrecida.
À superfície, elegância. Por baixo, subversão.
Pode-se, sem grande risco de disparate, ligar isto ao que hoje se chamaria espírito gay. Na altura não havia rótulos modernos, havia códigos. Não se falava de identidade, falava-se de gosto, de estética, de afinidades que não cabiam nas categorias oficiais.
Para Wilde, - o cravo verde representa isso mesmo: desejo fora da norma, culto do artifício e uma forma discreta de reconhecimento entre iguais numa sociedade que preferia fingir que eles não existiam.
Eu estava desconfiado do tal espírito.
Adérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com
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