Tenho nojo deles, sim, de uns quantos daquela espécie que se reproduz em Lisboa, nas catacumbas do poder, nos gabinetes ministeriais, nas sedes partidárias e, quando não conseguem, vão para as páginas dos jornais e para os manifestos do grupo. Tenho nojo da hipocrisia deles. Daquela hipocrisia e dos discursos como gordura rançosa.
Desde o 25 de Abril e, sobretudo, depois das sucessivas revisões constitucionais, assistimos à construção lenta de um edifício judicial que foi crescendo sem que quase ninguém se preocupasse em lhe medir as fundações. Ano após ano, governo após governo, legislatura após legislatura, o Ministério Público foi adquirindo mais corda, mais folga, mais espaço e mais capacidade de intervenção na vida pública. Essa coisada não aconteceu de um dia para o outro. Foi uma construção paciente, feita tijolo a tijolo, decreto a decreto, até se tornar dono capião do quintal.
Quem questionava os excessos era acusado pelo presidente do sindicato dos magistrados de querer proteger corruptos. Quem defendia garantias processuais era marcado com tinta-da-china na testa e chamuscado no tribunal dos jornais. Foi assim, foi assim que criaram uma cultura fedorenta em que uma simples suspeita passou a valer quase tanto como uma condenação.
Eu, que desde 2012 escrevo regularmente no meu blogue e já publiquei centenas de textos, perdi a conta das vezes que abordei esta questão. Escrevi sobre prisões preventivas excessivas. Escrevi sobre fugas de informação. Escrevi sobre julgamentos mediáticos. Escrevi sobre a facilidade com que a reputação de uma pessoa pode ser destruída antes de qualquer decisão judicial.
Escrevi para surdos. Ou talvez não fossem surdos. Talvez apenas estivessem demasiado ocupados a assobiar para o lado porque o problema atingia os outros, ninguém quis saber.
Enquanto a devassa recaía sobre o vizinho, sobre o adversário político, o empresário da moda ou o presidente de qualquer coisa, tudo bem. Afinal, tinham na manga aquela frase de merda: à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.
Quem não deve teme, mas esqueceram-se de temer a denúncia falsa. Temer a incompetência. Temer a demora. Temer o sensacionalismo. Temer a máquina trituradora de carne humana. A máquina que abre uma investigação, depois abre outra e logo vem uma busca, depois outra.
Anos depois descobre-se que a montanha pariu um rato.
Mas o rato já não interessa a ninguém.
A carreira foi destruída. O nome ficou chamuscado. A família foi exposta, os filhos gramaram o pior, os amigos afastaram-se. Os vizinhos fizeram julgamentos sumários à janela.
E quando tudo termina, ninguém devolve nada, e ninguém publicita a inocência.
Recentemente, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos voltou a condenar Portugal por violações relacionadas com direitos fundamentais e garantias processuais. Não foi a primeira vez e dificilmente será a última. O problema não está apenas numa decisão ou num caso concreto.
Mas o que me causa verdadeiro nojo não é apenas isso.
O que me causa verdadeiro nojo é assistir agora ao despertar súbito das consciências adormecidas, como dizia o filósofo Sócrates.
Subitamente apareceu um grupo de figuras públicas, antigos responsáveis políticos, antigos presidentes da Assembleia da República, ex-ministros, ex-deputados e outras personalidades respeitáveis, a alertar para os perigos dos abusos processuais, das fugas de informação, da ausência de controlo e da necessidade de cumprir prazos.
E eu pergunto:
Onde estavam esses gajos?
Onde estavam quando tinham poder?
Onde estavam quando ocupavam os cargos que lhes permitiam legislar?
Onde estavam eles quando podiam apresentar propostas?
Onde estavam quando podiam mudar leis?
Onde estavam quando podiam travar aquilo que hoje denunciam?
Eu sei. Os gajos estavam sentados nas cadeiras do poder, a coçar os tomates.
Durante anos acharam que o problema era dos outros. Achavam que as buscas por dar aquela palha eram coisas dos outros,
acharam que as escutas eram para os outros, acharam que as fugas de informação eram para os outros.
Acharam que os julgamentos mediáticos eram para os outros.
Até ao dia que lhes baterem à porta.
É sempre assim.
Em Portugal existe uma curiosa tradição política. Enquanto o incêndio arde na casa do vizinho, a malta curiosa da desgraca alheia discute a cor do fumo.
Hoje assistimos ao espectáculo dos arrependidos. Os mesmos que nada fizeram apresentam-se agora como reformadores. Os mesmos que deixaram crescer o problema apresentam-se como solução. Os mesmos que permaneceram em silêncio durante anos descobrem finalmente a voz.
E é por isso que tenho nojo deles.
Não apenas dos que abusam do poder.
Mas também dos que o tiveram nas mãos e nada fizeram.
E há outra coisa importante: sempre que o povo foi chamado a decidir, decidiu-se mal.
Dou um exemplo:
Quando Pôncio Pilatos deu a escolher ao povo, o povo não hesitou e escolheu libertar um ladrão e não Jesus Cristo.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com
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