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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Peregrino da noite


Se disse que estava tudo bem

Foi só da boca para fora

Se sorri ao mundo dias inteiros

Desabei ao fechar a porta


Há coisas que ninguém entende

Há dor que se esconde da mente

Cansei de fingir ser forte

Quando por dentro sou diferente


Hoje não há belas palavras

Nem frases feitas para crer

Só vim porque preciso

Pois sozinho não se sabe viver


E quando vem a lucidez

Estou sozinho outra vez

Sozinho por dentro de novo

A ouvir o ranger das paredes


Se o Estranho do Fumo ouvir

Mesmo sem voz para falar

Que leia o meu silêncio

No pó que ficou no lugar


Há noites em que olho o tecto

E o céu parece fechado

Chamo, chamo, e só o eco

Me devolve o que foi calado


Perdi-me nos pensamentos

Afogado no meu próprio medo

Procuro-te nas esquinas

E em tudo o que ficou a meio


Procuro-te nas luzes tardias

Nos copos esquecidos no balcão

Mas encontro-te sempre por instantes

Num gole de angústia e solidão


Então volto da forma que posso

Sem força, sem saber dizer

O Estranho Homem do Fumo

Nunca aparece para responder


Mas deixa um rasto nos espelhos

E cinza onde ninguém fumou

Como se tivesse passado

E algo de mim levasse ou deixou


Eu não sei falar de outro modo

Sei que preciso de ficar acordado

Se houver outro caminho

Talvez já o tenha cruzado


Antes que desista

Antes que me deixe cair

Antes que a noite me leve

Ao convívio dos fantasmas

Que esperam sem nunca partir


Letra escrita para uma canção 


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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