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terça-feira, 9 de junho de 2026

Martelada


Há uma espécie muito particular da vida pública portuguesa: o pregador profissional da moralidade.

A sua principal atividade consiste em explicar aos outros como devem viver.

Durante décadas, Luís Delgado ocupou esse espaço com notável competência. Entrava-nos pela sala dentro através da televisão com aquele ar sereno, pausado, quase professoral, como quem vinha da montanha trazer tábuas da lei para um povo perdido em tentações e pecados.

Falava de ética, de responsabilidade, de valores, de carácter e, sobretudo, dos outros. Sim, porque os moralistas raramente falam de si próprios.

Na televisão, a imagem era irrepreensível. Transmitia confiança, a voz ponderação, o discurso a ideia de alguém que sabia distinguir o certo do errado e que, por alguma razão misteriosa, se sentia na obrigação cívica de nos lembrar disso semanalmente.

E nós ouvíamos, ouvíamos, ouvíamos até nos doer o fígado. Uns concordavam. Eu sempre o achei pedante e demasiado moralista, nunca gostei dele, mas ouvia-o com cuidado enquanto se sentia aquele cheiro a lavado e a perfume dos caros.

De repente, aquele homem que durante anos distribuiu certificados de boa conduta e regras da etiqueta, como as que me ensinou a Paula Bobone nas aulas de compostura, o país vê-se confrontado com decisões judiciais que traçam um retrato bem diferente da imagem cuidadosamente polida ao longo de décadas.

A distância entre a janela virtual da TV e a realidade do banco dos réus é tão grande que quase dá para estacionar lá dentro toda a coleção de sermões que foi distribuindo ao longo da carreira.

É aqui que a história ganha contornos deliciosamente irónicos. Alguém que construiu uma parte significativa da sua notoriedade precisamente em torno da ideia de integridade, responsabilidade e superioridade moral.

Passou anos a apontar o dedo aos outros; devia ter o cuidado mínimo de verificar se o próprio telhado aguenta uma tempestade.

Mas a arrogância tem um problema: convence frequentemente as pessoas de que as regras servem apenas para os restantes mortais.

Na televisão, tudo parecia arrumado.

Nos tribunais, a arrumação revelou-se uma trapalhada grossa do Luís.

Na televisão, a postura era de magistrado da consciência nacional.

Luís foi condenado a pagar cerca de 23 milhões de euros e acusado de ter sido responsável pela falência da revista Visão, por martelar contas e praticar gestão financeira sem papéis. Está proibido de exercer gestão de património de outros durante 6 anos.

Ainda assim, o Luís, o admirável Luís, com uma persistência quase heroica, consegue arranjar energia suficiente para continuar a escrever, a comentar e a ocupar espaço nas páginas da revista que ele próprio levou à falência.

Fantástico 

Adérito BarbosaAdérito Barbosa, in olhosemlente.blogspot.com

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