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terça-feira, 26 de maio de 2020

Paraquedistas portugueses infiltram-se pelo ventre da República Federal Alemã adentro!



A BOTP1 agitava-se todas as manhãs com grandes jogos de Futebol de 5, grandes corridas pela mata de Monsanto e no verão, de vez em quando uma sardinhada promovida pela messe na mata da CCOM; se não me falha a memória, o gerente na altura era o Capitão Espírito Santo, que nos proporcionava pequenos-almoços à maneira e refeições de sonho. Depois das 16:30, infindáveis imperiais no clube e as secas do chefe Prucha, do Major Cavaco e do chefe Clemente, sem nunca descurar o chefe Candeias, mais conhecido pelo “Tirinhos”, sempre pronto a disparar a sua 38 sobre qualquer um!
Tudo ali era rotineiro e previsível até que apareceu na Base, vindo da BETP o falecido e saudoso Major Krug. Eu e o Krug éramos amigos e tínhamos em comum os filhos no Colégio Militar, daí alguma afinidade entre nós.
O Krug mal chegou à BOTP1 inventou a corrida da unidade - entre tantos gajos escolhia-me sempre a mim para dar o aquecimento e assim que acabasse o aquecimento, começávamos a corrida dos loucos pela serra abaixo.
Não contente com isso inventou o exercício BAT/CAÇ, o que nos obrigava a roubar-lhe os planos dos exercícios. Depois inventou Saltos, demonstração para tudo quanto era sítio, com ou sem vento.
Ainda hoje quando passo pelo Cacém dou comigo a pensar:
- Como fui capaz de saltar para um sítio destes?
Daí para a Alemanha, exercício NATO Schinderhannes - Patrulhas de Longo Raio de Ação -  foi um passo. Só fui por imposição do comandante de companhia, porque os doutores já tinham reservado os lugares para eles, excluindo-me desta missão.
Estávamos no ano de 1990. Feitos os treinos, lá fomos nós para a Alemanha com muitos quilos de moedas de 25 tostões, que passavam por marcos nas máquinas de vending. O mesmo será dizer que o níquel português passava a valer um euro.
Na 1.ª noite da nossa chegada fui dormir cedo. O Lixívia, também já falecido, ficou no bar e contou uma história macabra aos alemães, dizendo que eu tinha sido apanhado no mato em plena guerra colonial, aos cinco anos e que fui adoptado pelos paraquedistas.
No outro dia de manhã, quando fui tomar o pequeno almoço, tornei-me o centro de atenções na messe. No bar internacional, nem os alemães nem os americanos me deixavam pagar nada. Ficavam todos à minha volta, com perguntas e mais perguntas sobre as tretas do Lixívia. Estava bastante incomodado com o assunto e fiz essa observação no nosso acampamento; vim a saber que me admiravam por ser um paraquedista desde os cinco anos.
Não satisfeito com esta mentira, inventou ainda que eu era campeão de boxe em Portugal; um calmeirão tipo armário veio ter comigo, querendo fazer umas luvas no ring da base. Eu é que sei as voltas que dei para me livrar do calmeirão alemão - só olhar para as mãos dele metia medo.
Connosco foi também o Pires, um soldado da CCOM. O Pires era louro, pequenino ainda com cara de puto, 18 ou 19 anos, não mais!
Numa das nossas saídas para a vida da vergonha fomos a um bar da pesada em Colónia, daqueles por pisos, onde as moças serviam as bebidas em biquini.
Mal entrámos, o capitão e o Pires não me largaram um minuto. O Pires ficou maluco com uma grandalhona, duas vezes o tamanho dele, mamalhuda, mas estava receoso. Depois de muitas hesitações, alertei a moldava grandalhona das intenções do Pires. Acertados os valores, lá subiram.
Como o capitão não falava patavina de inglês, também tive que negociar com uma alemã a missão dele e lá subiu.
Na sala-bar cá em baixo eram putas de todos as nacionalidades - brasileiras, jugoslavas, francesas, turcas e até encontrámos uma portuguesa fora de prazo.
Eu estava preocupado porque o Pires tinha subido antes do capitão. O capitão já tinha descido e o Pires ainda não; fiquei com medo que a grandalhona tivesse pisado o Pires por descuido e que o coitado estivesse moribundo. Falei com uns caramelos seguranças e disseram que até àquele momento estava tudo normal.
Passado um bom bocado chega o Pires, sorriso de orelha a orelha, vermelho que nem uma abóbora, todo feliz, acabadinho de descer do céu.
⁃ Então Pires, safaste-te bem?
⁃ Safei pois!
Lá contou as façanhas que considerei mentiradas do pequeno macho português. Fui ter com a grandalhona e perguntei:
- Então o pequenino portou-se bem?
- Puta que pariu o português. Ele é pequenino mas trabalhador e deixou-me num estado lastimável. O garoto usa pilhas, não?

Foto: major Krug e o Alcides Pires na BOTP1

Adérito Barbosa in olhosemlente

quinta-feira, 14 de maio de 2020

FARISEU neto Zebedeu


Naquele tempo, Afonso Costa, Advogado e Ministro, fez parte de vários Governos (dirigiu três até 1923), sendo considerado um dos grandes responsáveis pela instabilidade durante a I República. Ao sentir o cerco dos fariseus e os pedidos de clemência do povo, mergulhado na ignorância e sufocado na miséria, ele, um “expert” em questões religiosas, que se doutorou em Coimbra com a dissertação "A Igreja e a questão social”, obra em que ataca violentamente a então recente encíclica “Rerum novarum”, pois fé era coisa que ele não tinha, também não tinha nada para dar ao povo, a não ser explicar as mortes de soldados Portugueses na Flandres, visto que foram mandados para lá à trouxe-mouxe e por ele super mal equipados e preparados, tipo carne para canhão.
Afonso Costa arranjou três trabalhadores infantis lá da Cova da Iria – e fez deles os únicos capazes de ver coisas que ninguém via e de falar com Santinhas, até visionaram o fim da guerra; Afonso Costa resolveu o problema dele, desviando as atenções da sua má governação para um canto. Muito mais tarde, lá mais para a frente, Salazar fez o resto e assim fundaram a maior empresa Portuguesa de sempre, que vende milhões de fé e nada de facturas, nada de taxas nem de impostos!
Com a poderosa máquina de “marketing” da Igreja em funcionamento, os fiéis poderão escolher entre uma grande variedade de “souvenirs”: porta-chaves de 5 a 25 €, medalha de ouro oficial da visita a 1300€, camisolas com a imagem do Papa a 20€ e todo o tipo de velas e velinhas para pagar promessas, que se estima serem às toneladas, a preços muito diversos e até o programa comemorativo da visita custa dinheiro! O Vaticano cobra um cachê nunca inferior a 12 milhões - pelo menos foi assim no Reino Unido.
Digam lá se o Afonso Costa foi ou não um visionário!
Estou mesmo a ver. Já me estão a chamar Farizeu!
Desta vez, graças ao covid não houve negócio em Fátima. Uma tragédia para a igreja...

Adérito Barbosa in olhosemlente

sexta-feira, 8 de maio de 2020

BOTP1 - Jantar de Natal da CCOM no “Páteo” de Carnide, sobremesa na Avenida da Liberdade

A CCOM era uma companhia de graduados ilustres e intocáveis; ao pé deles eu era um Zé Ninguém, pois era o mais moderno. Com este estatuto calhava-me sempre trabalho e mais trabalho; as escalas de serviço pendiam sempre para o meu lado. Nunca entendi as nomeações do Laranjo Pereira na secretaria da CCOM, companhia que reunia um grupo de soldados daqueles a quem se pode chamar tropa manhosa…
Na véspera do dia da unidade chovia a cântaros; os nossos militares que tinham ido em missão para o estrangeiro, deixaram as viaturas na parada.
Numa das rondas, apanhei os gajos da CCOM a jogar à batota num dos quartos e disse-lhes:
⁃ Meus Senhores, como castigo, agora vão buscar os reboques e levam todas as viaturas lá para cima, porque amanhã não pode haver carro nenhum em frente ao comando! Cuidado, não quero amolgadelas em carro nenhum. A ideia era vê-los molhados que nem pintos. Minutos depois, quando dei conta, estava tudo feito e os gajos nada encharcados. Os tipos abriram os carros não sei com quê, puseram-nos a trabalhar não sei como e levaram-nos todos dali. Não foi preciso reboque nenhum. Fui verificar, estavam todos trancados e ilesos.
Tínhamos lá um gajo de seu nome Surfista. Um dia foi preciso reparar uma extensão telefónica; ele prontificou-se para a arranjar - passadas duas horas já não havia telefone na unidade, - o surfista tinha arrancado a guipagem toda de um cabo de 200 pares. Para voltar a pôr os telefones a funcionar na BOTP1, foi preciso chamar a PT.
O meu pelouro era tomar conta das antenas que estavam espalhadas pelas serras do País; a maior parte do tempo estava fora e por isso me chamavam “ o Chico da montanha”. As tempestades nas altas montanhas destruíam as antenas com a maior das facilidades e, se a isso associarmos os rádios repetidores TRC425 que não prestavam para nada, tinha sarna para coçar que nunca mais acabava.
Quando estava na base nem era preciso olhar para as ordens de serviço, estava sempre de serviço!
Curioso as plantas das camaratas da CCOM estarem sempre murchas, ao contrário das plantas da camarata da Anti-carro; aquilo fazia-me uma confusão dos diabos… Descobrimos que o pessoal regava os vasos com o resto da água com que limpavam o chão, cheia de detergente e lixívia!
Mais tarde apareceu um vidro partido e uma vez que ninguém se acusou, toda a companhia pagou o vidro; ficámos com muito dinheiro no cofre da companhia. Chegados ao Natal, pensou-se então num jantar de Natal à larga, o que se veio a revelar o jantar da minha desgraça.
Escolhemos o “Páteo” de Carnide. Restaurante finório, com direito a fadistas e tudo. O objectivo era gastar o dinheiro todo, dar uma lição aos comunicadores e incutir neles o espírito natalício da família militar.
Reunida a soldadagem, acertámos os critérios para a vestimenta - fato e gravata - e realçámos a necessidade de bom comportamento; arranjámos uma TP21 para aqueles que moravam longe e ficavam na Base (a maioria foi engravatar-se para casa) e lá fomos então para o restaurante.
Coube-me a difícil tarefa de tomar conta da soldadagem; chegaram todos engalanados - eu próprio quase nem os reconhecia, tal era a fineza! Todos de fato e gravatinha fininha, alguns com cabelo espetado para cima, outros com o fato a chegar-lhes aos joelhos; era fácil adivinhar que foram emprestados pelo pai, tio ou avô ou se calhar por algum vizinho.
No jardim do restaurante havia todo o tipo de queijos, gin tónico, whisky, vinho branco, salgados, morcela assada, chouriço, carnes frias, tudo o que se pode imaginar. Empregados sempre a circular por entre a malta com o tabuleiro de bebidas e salgadinhos.
Toda a rapaziada de copo na mão, mãos nos bolsos, armados em doutores.
Entrados para a sala de jantar, foi servida a sopa de peixe e o primeiro prato, bacalhau com broa; autorizado o serviço do segundo prato, cabrito assado, o chefe de sala veio ter comigo, dizendo que a rapaziada não comera quase nada.
No fim da refeição começou o fado; apagadas as luzes e velas acesas, silêncio na sala!
Nem a meio o fado ia, para meu espanto, já a sala estava vazia - só graduados e convidados das outras companhias. Julguei os os tipos estavam no jardim.
Uma chamada telefónica informa que um grupo de paraquedistas provocou um tumulto com “travestis” na Avenida da Liberdade  e que houve pancadaria da grossa…
No outro dia às 10 da manhã lá estava eu no Tribunal de Polícia para receber da PJ os homens e levá-los ao Juiz.
Enquanto assinava o documento de entrega, vi que a nossa rapaziada estava nervosa com os polícias e começaram com as tretas que foram os travestis que se meteram com eles e que a polícia fez isto e fez aquilo com eles, diabo a sete, que lhes rasgou o casaco e sei lá mais o quê!!!
Quando íamos a subir a escadaria, estavam duas mulheres vestidas de amarelo sentadas de pernas cruzadas.
⁃ Aquelas gajas têm umas trancas do caraças! disse eu.
⁃ Você está maluco ou quê? São paneleiros, estão vestidos de mulher e foi aquele que me deu com a mala… disse um, todo irritado.
Quando passei por eles com a malta toda atrás, chamei-lhes paneleiros, maricas, sem vergonha...
Veio o oficial de justiça, chamou os travestis pelo nome deles e disse:
- Como são muitos militares, o Sr. Dr. Juiz só quer falar com o graduado responsável!
Entrei eu e os paneleirotes. O juiz começou por ouvir primeiro a paneleiragem e eis senão quando os gajos que se idenficavam como sendo mulheres desataram a fazer queixa de mim. Que eu era isto mais aquilo, que eu era um brutamontes, que quando cheguei ao hall do tribunal minutos antes lhes havia chamado todos os nomes.
- Imagine o Sr Dr. juiz o que nós passámos com aqueles que estão lá fora e agora veio este senhor com ofensas e ameaças!
O juiz passou-me um raspanete e deu-me um papel para o comando da unidade agir disciplinarmente sobre a rapaziada.
Escusado será dizer que houve benficada para todos os gostos.
Nunca a escala de serviço da CCOM teve tantos voluntários!
Nunca mais se fizeram jantares, mas também nunca mais houve vidros partidos e as plantas tornaram-se viçosas como nunca. Ficaram um mimo!
E os pára-quedistas não conseguiram acabar com a paneleiragem Lisboeta.

Adérito Barbosa in olhosemlente

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Campeonato da palermice e arte de escrever asneirada

“ILOGICIDADE DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS EM TEMPOS DO COVID 19, “ segundo o Professor Dr. José Maria das Neves.

Não transcrevo o artigo do douto Professor  Dr. José Maria das Neves ex Primeiro-Ministro de Cabo, publicado no Jornal a Semana no dia 29abril20 porque não sei se algum cabo-verdiano ou mesmo ele próprio sabe o significado da  palavra “ilogicidade”. Contudo, um comentário não menos oco do pseudo Cientista Político Analítico  - Armindo Barreto à publicação referida mereceu a minha admiração pela quantidade de asneira.

“Armindo Barreto 27 Abril 2020 09:47
Para que o rubro considere o caminho do insufismavel truncado em que o rimbombar das lefúcias acertem com o desfrutado incesto torna-se necessário muitas vezes que o anírio do celesbático golondópio se evapore na noite das coisas. Ora, nos tempos modermos em que o anírio penetra-se em vasos nunca incadescentes, a democracia muitas vezes não deixa de evocar supresas para o desespero do fluído que transgreça os capilares de irrigação do bom senso. Nesta senda, a grindótica esfera circun-enchida torna-se em torno do assunto que desabaratado pelo paradigma da socialização corre em direcção ao troco que não substimado mantém o seu endesdável, fazendo com que a corrida para a democracia possa resultar em limitantes de minutos lástimos e contribuir para ricebo de que a naga do alto faz impelir certa elite para o descalabro dos neurónios que comandam o bem feito. * Cientista Político e Analista”



 Adérito Barbosa in olhosemlente

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Paraquedistas belgas na BETP - Tancos


Ser justiceiro na BETP conferiu-me alguns privilégios.
Havia sempre uma ou outra cerveja de borla no clube, tinha acesso aos petiscos, era bem aceite no meio dos doutores e almoçava quando queria na mesa do Mor e dos chefes.
Eu era provavelmente o menino bonito do Mor Alves, mas tinha um azar dos diabos…
Houve pancadaria no Entroncamento com os ciganos - estava, por acaso, perto e acabei metido naquilo. Quando fui à GNR tratar da papelada referente aos militares identificados no motim, o cigano que estava para ser ouvido, assim que me viu, começou a gritar:- Ai mãe! Ai mãe! Esse era o chefe deles...
Houve uma viatura de um militar enfiada num lago - acabei metido no processo de afundamento da viatura sem culpa nenhuma!
Houve a destruição dum bar de alterne, o Chaminé em Torres Novas - acabei também metido naquilo, por mero acaso - Perigo era a minha profissão!!!
Eu só tinha ido beber umas canecas com os belgas e enfiar umas mentiras às moças. O nosso comandante, Coronel Lousada, não conseguia meter na cabeça que essas coisas aconteciam comigo por mero acaso. Sempre acossado pelo Mor, achava que eu era o mentor de todas as desgraças que aconteciam na Base Escola. Um dia disse-me: - Barbosa, estou já farto de saber que estás metido em todas as merdas, pá! Fazes mais alguma e dou-te uma porrada!
É sobre o Chaminé que vou falar.
Julgo tratar-se do último dia de saltos para os belgas; houve ordem de soltura para os jantares convívio entre portugueses e belgas.
Como eu falava “franciú” melhor que um papagaio, levei alguns graduados belgas, oficiais e sargentos ao Chaminé. Casa cheia de paraquedistas belgas e portugueses, Todos trajados à civil, atracados e bem acompanhados. Muitas, muitas cervejas. Também havia por lá caras estranhas ao balcão e com ar suspeito; mais tarde vim a saber tratar-se de proxenetas.
Gargalhadas, whisky, cerveja, laranjada com sombrinha a enfeitar as taças; o champanhe corria com mais abundância do que as águas do Tejo.
Seguindo o lema onde se senta um paraquedista sentam-se mais três, conseguimos sentar-nos.
Não sei o que aconteceu, mas acho que um português apalpou uma moça... Dei conta que já havia um gajo dos nossos com uma cueca de senhora enfiada na cabeça - os chulos não acharam graça e começou a pancadaria!
Um militar belga, para pôr ordem na casa, despoletou uma granada de fumo e foi um caos dentro do Chaminé e o resto não preciso de contar…
Dado o alarme à PSP, saímos todos a correr para os táxis.
No outro dia, depois da corridinha para higienizar os pulmões da fumarola da noite anterior, quando cheguei à secção de justiça por volta das 10:30, estavam o nosso comandante e o major com cara de poucos amigos:
- Barbosa, pegue na mala porque vamos sair com o nosso comandante.
O major a conduzir, o comandante no lugar do pendura, eu atrás com a mala de detetive ao lado e vejo que tomam a direção de Torres Novas; mais adiante, dei conta que íamos para o Chaminé.
Quando entrámos, estava o dono completamente transtornado. Do que vi parecia que tinha passado lá dentro uma manada de elefantes, seguida de uma vara de javalis; tudo partido, tudo revolto; as paredes estavam todas negras e manchadas.
Fui passando para o papel as descrições dos estragos que o major ia relatando e outras que o dono fazia questão que constassem no relatório de estragos. Feito o apanhado, o dono do “bataclan”, simpático para com o nosso comandante, fez questão de oferecer um Favaios num reservado.Quando o gajo esticou o copo para mim, olhou-me e disse:
- Você esteve cá ontem! Respondi: - Eu? Eu não!
Teimoso, insistiu: - Se não era você, era alguém muito parecido!...
A conversa morreu por ali e fiquei descansado, convencido de que me tinha safado.
Quando estávamos perto da base, o nosso comandante virou-se para trás com a maior calma do mundo e disse:
⁃ Barbosa, resolva este assunto e tratem de pagar os estragos ao proprietário do bar. Eu sabia que você estava metido!!!
Acrescentou o major com aquele bigodinho à Clark Gable.
⁃ Eheheh, olha quem...
Nem fui almoçar; chamei o tenente paraquedista belga, disse-lhe que a espoleta da granada pertencia ao lote de granadas belgas e que o nosso comandante mandou resolver a coisa por via não oficial. Caso contrário, passaria o assunto para o comando belga, mandava instaurar um processo e apanhávamos todos pela mesma bitola. Por acaso ele era o tesoureiro da delegação e como trazia com ele uma mala grande cheia de dinheiro para eventualidades, lá fomos pagar.
Depois de pagar, dei conta que o dono da Chaminé tinha duplicado o número de cadeiras, mesas, copos e até as paredes tinham sido pintadas três vezes.
Confrontei-o com isso, ao que respondeu:
- Você acha que alguém pagou as despesas naquela noite? Ficou ela por ela!


Foto: almoço da minha despedida dos Páras - Messe de Monsanto

Adérito Barbosa in olhosemlente



sábado, 25 de abril de 2020

Vida macabra

Vida macabra

BETP - O destino óbvio de todos os graduados, terminado o CFG, era ficar no Batalhão de Instrução e dar recruta - não fugi à regra.
Terminada essa missão, espetaram comigo na Companhia 311 no primeiro pelotão.
Passado pouco tempo, tive uma desavença grossa com um Alferes do mesmo pelotão e o Comandante de Companhia, na altura CAP/PQ Victor Santos, interveio em minha defesa, resolveu o caso internamente e transferiu-me para o pelotão de Apoio da 311; no PAP era calculador de tiro. A vida corria lindamente para mim; pertencia a uma companhia que era a menina bonita dos PARAQUEDISTAS.
Certo dia, num exercício de fogo com os morteiretes, pegámos fogo à mata junto ao pinhal. Aquilo meteu bombeiros, GNR, sirenes, tanques de água, tudo! METEU tudo! Foi uma tourada, uma confusão dos diabos! Apagada a fumaça e contados os pinheiros queimados, acharam por bem, então, correr comigo da 311.
Lembraram-se de me colocar na Secçao de Justiça, que por acaso (ou não?) ficava juntinho, paredes meias com o gabinete do Comandante.
Quando me apresentei, disse ao Major Caldeira que eu não percebia nada daquilo…
Começou a fazer festinhas no bigodinho dele, tipo Clark Gable e disse:
- Aqui no teu registo biográfico diz que frequentaste a Escola Militar. Se frequentaste a Escola Militar, então deves saber ler e escrever.
Deu-me imediatamente uma pilha de manuais, NEPS, código de justiça militar e sei lá mais o quê, para ler e estudar. Fiquei à rasca, com tantos livros para estudar código e disciplina militar. Para complicar, cruzei-me com o Comandante no corredor e ainda nem sequer me tinha sentado na secretária, quando ordenou:
- Amanhã quero o processo tal resolvido.
Aquilo obrigou-me a fazer horas extraordinárias, coisa de gente doida que não lembra ao diabo. Foi assim de uma forma forçada e pouco amistosa que tive que entrar no mundo justiceiro militar.
Por acaso dei-me bem com aquilo e fiquei lá alguns anos. Andava sempre de farda domingueira, raramente usava o camuflado. Certo dia ouvi o comandante falar na criação do coro da BETP. O Maestro era o Furriel Soares. O Soares tinha quase mil anos de posto  e dali não passava - era licenciado pelo Conservatório, se não me falha a memória. Um dia entrou o gajo na Secção de Justiça e perguntou-me se o nosso Comandante estava no gabinete.
Aproveitei e disse-lhe: - Ó Soares, eu quero ir para o coro, ouviste?
Bati à porta do gabinete do Comandante, anunciei que o Furriel Soares queria falar com ele, o Comandante autorizou a sua entrada e acrescentou:
- É por causa do coro; e tu já te inscreveste?
Palavras não eram ditas, já eu disparava:
- Soares, o nosso Comandante acabou de me mandar para o coro!
No primeiro dia do ensaio lá estava eu, armado em rouxinol. No dia seguinte, o Major, super mal disposto, perguntou pelos processos atrasados; encontrando-se muitos deles à espera de relatórios médicos, perícias e diabo a sete, estava alheio aos atrasos. Apesar disso, ele saiu-se com esta:
- Pois, agora andas armado em rouxinol e não há tempo para os processos!
Nunca mais tive notícias do coro. O maestro Soares e o seu adjunto Didi ensaiavam o coro às escondidas de mim, para eu não dar conta.
Dei comigo a pensar:
- Será que eles acharam que eu não tinha voz?
Fiquei tão traumatizado que nunca mais cantei na vida…


Adérito Barbosa in olhosemlente

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A festa deles

A festa deles

Eles vão celebrar o 25 de Abril deles, vão celebrar o dia que devia ser o nosso, o dia dos militares.
Eles vão juntar-se como sempre, usurpando os direitos dos militares, vão fazer aquilo que não querem que nós façamos, vão fazer a festa do costume -- para eles não se passa nada, nem perdem a oportunidade para fazerem retórica, produzirem frequência e  atazanarem-nos a molécula . São os nossos políticos, os suspeitos do costume...  Foram eles que nos obrigaram  a ficar presos em casa, foram eles que mandaram fechar as empresas, fábricas, escolas, teatros e por aí fora; contudo, eles mantêm a tasca deles aberta na maior safadeza. Uma casta de gente que mantém os seus privilégios intactos, mas condicionaram a vida daqueles que têm de sustentar as suas famílias.
Porque é que o Parlamento não entrou também em lay-off, porquê?
O deles vai cair na conta certinho no fim do mês ao contrário do daqueles que foram obrigados a fechar portas.
Onde está a igualdade, onde está o exemplo, Senhores Deputados?

Aderito Barbosa

Publicação em destaque

Florbela Espanca, Correspondência (1916)

"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...