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sábado, 19 de setembro de 2015

Olá, D. Esme!

Olá, D. Esme!
Sou o Gonçalo, neto varão do Adérito Barbosa. Vim passar a tarde em casa do meu avô, que é ainda muito jovem.
Nem imagina quantas moças da idade dele cá encontrei! Bué de gajas, todas boas, entende?
O meu avô orienta-se bem, no meio desta lavra. Por aquilo que o meu pai contou, o velhote é malandreco, gosta muito de um pé de dança e do reumático só se lembra no dia seguinte… 
Olhe, D. Esme, o meu avô disse-me que a senhora é muito esquisita e que ele acha que a senhora está a dormir em pé, convencida que é boa, importante, alta, e que está à espera de encontrar um  príncipe encantado, rico, louro e de olhos azuis…
Desculpe lá, mas pense um pouco e responda-me:
- Já alguma vez foi ao cinema com o meu avô? Já foi jantar fora com ele ou passear com ele? Já dormiu numa pousada com ele? Já foi à praia com ele? Não, sempre não? Então, não sabe nada sobre o meu querido avô!
Oiça lá uma coisa, D. Esme, pelo que vi, as gajas que encontrei aqui em casa estão doidinhas para pôr as manápulas em cima do meu avô assim que o apanhem bom da coluna.
Ninguém me ligou nenhuma e eu só ouvia:
- O que te dói, querido? Queres um chá, amorzinho? 
Uma outra dizia:
- Vamos lá, menino, pois está na hora da massagem das costas!
- Bem, nem imagina! Assim que o meu avô tirou a samarra, fez-se um silêncio sepulcral e todas começaram a morder os lábios e a revirar os olhos sem acreditar no que estavam a ver. Mais parecia que estavam no “Chá das 4!”.
- Aí mãe, quando ele voltar à estrada, imagino! 
Agora responda-me lá, ó convencida: 
- O que é que precisa que o meu avô não tem e que os outros homens têm? 
Qualquer dia volto a contactar consigo para saber novidades.
Desculpe mas agora tenho que desligar, porque apareceu a minha mamã a dizer que está na hora de mamar. Sabe, eu ainda só tenho três meses e nem me lembrava da fome.

Adérito Barbosa in olhosemlente

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Palco dos poetas



Palco dos poetas

A visão está a escurecer
Sinto o corpo a padecer
A coisa a desvanecer
A amolecer sem enrijecer.
Estou a emagrecer e a envelhecer
Tento não endoidecer
Antes deixem-me esclarecer
Como eu queria tanto enriquecer
Mas estou a empobrecer.
Quando a alma desaparecer
E o corpo falecer
A Deus quero agradecer…

É a minha morte
Dentro deste poema
Ao amanhecer.

Para dar lugar à tristeza
Os poetas,
Todos os poetas
Arrumarão os versos
Deixarão de sonhar
E esquecerão a poesia.
Para dar lugar à tristeza
Os poetas
Todos os poetas
Calarão a voz ao mudo
Proibirão névoas no rio
E orvalho nas regueiras.

Para dar lugar à tristeza
O poeta.
Só o poeta descerá da ribalta
Outros  poetas mortos
Adormecidos no camarim
Agarrados às marionetas nuas
Num perfeito quadro de cabaré.
Fechem o clube dos poetas!
Acabaram as tertúlias
E os preliminares em que as guitarras
Envolviam os poemas.
Xiu, silêncio. O poeta morreu!!!



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O QUE PENSO…


O QUE PENSO…

Posso não poder dizer o que penso, mas fiquem a saber que já sei o que penso. Penso pintar as histórias dos dias nos sorrisos ensaiados naqueles raios de sol, que despontam em tardes de outono.
Sei que as imagens que construo nas nuvens são vivas, mas não são nada, quando vistas por eles.
Pergunto se sabem para onde vão os nossos sonhos, os teus e os meus!

Peço que se explique a quem nada sabe, para que lado gira a roleta da vida dos portugueses, se para a esquerda, se para a direita, ou se está parada.
Fazer-lhes entender que um dia o monstro acordará sem medo e perguntar-lhes-á se podemos dormir  tranquilos o nosso sono.

Não vou puxar do voto, não?! Não vou, porque eles dizem que o voto é a arma do povo e eu não quero usar armas. Só se  for arma de bala fria!

Deixam-nos confusos, os parolos do costume, com as promessas de ontem esquecidas numa gaveta qualquer e com as mentiras de hoje acalentadas nas bandeiras em punho do homem autómato.
Porca vida esta a nossa, pobres asnos de sempre, que fomos e somos!!!
Ao quarto dia do dez, lá vai o Zé pelintra depositar do seu bolso 12,60 euros na conta do bando que os sustentará por quatro anos.

Perguntem ao pelintra português se sabe o que é o neoliberalismo, o socialismo, o plafonamento horizontal ou vertical e o que é a miséria ou o que é a pobreza.
Alguns, pouquíssimos, sabem o que é neoliberalismo e socialismo. A grande maioria dirá que só sabe o que é ser miserável  e não faz a minimíssima ideia do que significa a palavra rico. A única coisa que sabem é que estão fodidos com esta democracia, mas que votam na mesma.
Posso não poder dizer o que penso, mas já sei o que os partidos são: - Centro de emprego para alguns, empresas sem capital e sem pacto social.

Adérito Barbosa in olhosemlente

A tua voz


A tua voz

Consegues ler a minha mente?
Então toma uma bebida forte,
E não desconcentres!
Lê as minhas memórias
Que nunca contei.
Elas dizem um estádio.
Dir-te-ão o quão importante é
A verdade que vem de dentro.
Se entenderes a minha mente,
Vê que ainda sou teu amigo.
Sabes uma coisa?
Na vida tudo corre, tudo corre muito depressa
É como o vento, não espera!
Por quem amo de verdade não tenho pressa,
Não me canso nunca de esperar e partilhar os momentos.
Trago uma voz no coração.
a tua voz.

Adérito Barbosa

sábado, 22 de agosto de 2015

O meu Rio


O rio que passar na tua cidade
há-de contornar esse teu corpo
de meia idade.
Há-de levar com ele memórias do tempo e melodia na corrente.
Há-de levar sorriso refletido no córrego
e lembranças de mim até se esvair no mar.
Nos dias de sol,
há-de levar espelhos de sonhos,
nos dias de cacimbo, há-de ir frio,
há-de levar a fome que sinto
e a ceia desejada num aconchegado entardecer.
Há-de ir feliz por entre as montanhas ao teu encontro.
Há-de ir de olhos fechados
tateando as tuas margens.
Há-de fazê-lo uma e outra vez
até saber de cor a tua nudez.
Vai inundar-se de lágrimas
Se não o puderes tocar,
vai lento à sombra das árvores do passado,
Vai ansioso por sentir o teu calor
Sem entender a razão dessa paixão.
Ásperos anos esperou,
nunca se esqueceu dos afagos que ainda sente.
Trauteia a canção que o verão canta
Mas logo se arrepia com as incertezas do outono.
Leva com ele um recado meu
já não sei dizer amo-te e
centenas de outras coisas que esqueci.
Escuta, deixa que ele entre em ti
de mansinho que te segrede baixinho que  vais entender.
Agarra-o, fica com ele,
acredita no vento e não o negues.
Quem procurou afinal a incerteza?
Sabias que eras casada!
Quem dividiu o teu coração?
Não fui eu, foi o vendaval
que passou fugaz nas tuas veias.

Não fui eu,
Eu sei que dirás que fui eu.
Se alguém me perguntar
Se foi um erro teu?
Direi:
- Eu não sei! Perguntem ao tempo.
Eu já não sei se sei amar.


Adérito Barbosa in olhosemlente

sábado, 1 de agosto de 2015

O silencio do clarim

Silenciaram clarim 

Já não há da alvorada nos quarteis, mas há três associações a imitar sindicatos e muitos generais sentados.
Uma associação de Generais ex CEMs, que organizam almoços em reflexão fora de horas, outra Associação de Oficiais, outra de Sargentos e uma outra ainda de Praças. (Falta introduzir aqui a associação dos civis que não sei se existe).
Há três anos que venho alertando da barbaridade que sabia vir a ser o novo Estatuto das Forças Armadas. 
Escrevi muito sobre o assunto, mas ninguém me levou a sério. Alertei que não fazia sentido a existência de associações militares porque os militares são apenas e tão só associados da nação à qual juraram fidelidade perante a bandeira, prometemos dar as nossas vidas. Nunca às doutrinas dos interesses partidários ou de interesses políticos. Mas a ter de existir, aceitaria sob reserva a existência de uma associação; - "Associação de Militares". 
No meu fraquíssimo conhecimento, entendo que os militares se puseram a jeito. Para umas coisas querem ser militares, para outras querem ser sindicalistas, para outras, funcionários públicos, para outras ainda, comissionistas nas missões ao estrangeiro.
Ora, se nós nos comportamos como funcionários públicos ou sindicalistas é natural que os governantes que ao tempo Jotinhas dos partidos propuseram à Assembleia a abolição do SMO, para assim se baldarem à incorporação militar, sendo na altura o chefe da corja o Sr. Silva. Estava fácil de ver que quando chegassem todos ao poder reduziriam os militares à insignificância e remetê-los-ia à condição de funcionários públicos. 
Segundo um estudo a população portuguesa" tem muito apreço pelos médicos e pelos militares. Os médicos têm a sua Ordem e é a Ordem quem fala. Nós como estamos divididos por classes, estrelas, estrelinhas galões, divisas e divisinhas e cada um no seu quintal; - fala o general na reforma que não tem poder nenhum, fala o oficial na reforma que não tem poder nenhum, fala o Sargento e o Cabo. Com tanta gente a falar ao mesmo tempo o barulho é tanto que mais parece uma feira e por isso ninguém os ouve.
Um antigo Embaixador Americano em Portugal Thomas Stephenson num relatório que produziu e o enviou a Washington dizia; - “Portugal é um País de Generais sentados… como a maioria dos aliados da NATO, Portugal encontra-se abaixo do padrão oficial que determina dois por cento do PIB para o orçamento de defesa. Portugal está nos 1,3 por cento e gasta esse dinheiro de forma imprudente. Portugal tem mais generais e almirantes por soldado do que quase todas as outras forças armadas modernas: 1 para cada 260 soldados. Em comparação, os Estados Unidos têm um rácio de 1 para cada 871 soldados". Mais: existem ainda "170 generais adicionais que recebem o ordenado por inteiro enquanto se mantêm inativos na reserva". Que eu saiba nenhum general se indignou, logo, pressupõe-se que o embaixador falou verdade.
Imagine-se como não seria hoje o um novo relatório?!
Os políticos que nunca sentiram o cheiro a pólvora, que nunca sentiram o cheiro da caserna, que nunca sentiram o peso de um camuflado molhado nas costas, que nunca dormiram em andamento nem em pé, que nunca sentiram os tomates entalado nas tiras do arnês, assim que deram conta que os Generais passavam o tempo sentado à espera de mais estrelas e as associações a dormir, aproveitaram o sossego e fizeram o novo Estatuto das Forças Armadas que é uma vergonha.

Por último, li a entrevista do CEME. O entrevistador tratou o General por "meu General" e não por Sr. General, num claro exercício de submissão e o general respondeu com uma mão cheia de banalidades deixando o “Estatudo das Forças Armadas” ao nível do estatuto do funcionalismo público. Há gente capaz de tudo. Até brincam ao jornalismo.

Adérito Barbosa in olhosemlente

terça-feira, 14 de julho de 2015

Dia da tomada da Bastilha

Dia da tomada da Bastilha

Em França faz-se como deve ser.
Em Portugal, faz-se como não deve ser.
Esta manhã, 14 de Julho de 2015, a TV5 transmitiu em directo as cerimónias militares do dia Bastilha em França.
O Presidente da República Francês bate palmas aos militares que desfilam, cumprimenta os militares que saltaram de pára-quedas, troca palavras de circunstância com eles, mistura-se no meio dos deficientes das forças armadas, deixa-se fotografar com os antigos combatentes, dá beijinhos às moças que serviram nas forças armadas, às bombeiras, às enfermeiras e às médicas militares, inteira-se do bem estar das viúvas de militares, dos filhos órfãos de militares, Tudo com dignidade extrema.
Esta cerimónia do dia da Bastilha se fosse em Portugal seria para parir generais e cuidar de mais cinco ou seis em gestações, filhos de pai incógnito. Na tribuna políticos com ar de besuntas, presidente com cara de carneiro mal morto, políticos; - uns maricas e outros com cara de pau e sem vergonha.
Os chefes militares com o rolo de papel higiénico na mão prontos para limpar o rabo aos políticos que tiverem desarranjo intestinal.
Foi bonito ver o Ministro da Defesa Francês falar com os paraquedistas em missão na Nigéria através de vídeo conferência.
No final os cidadãos misturam-se com os militares, a miudagem encantada com a tropa, as TVs e as rádios entrevistam pilotos, a soldados básicos, mostram as actividades do dia a dia das diversas Unidades, uma maravilha.
Eu tenho a certeza que os políticos e os cidadãos franceses em geral têm, orgulho nas suas forças armadas.
Exactamente como cá!

Adérito Barbosa in olhosemlente

Publicação em destaque

Florbela Espanca, Correspondência (1916)

"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinter...