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quinta-feira, 8 de julho de 2021

 



O meu avô Armando

É fácil falar do meu avô e jamais o esquecerei. Jamais esquecerei a sua simplicidade.
A sua determinação e dedicação à lavoura eram enormes e acreditava sempre que valia a pena semear, mesmo sabendo que não chovia porra nenhuma. O meu avô conhecia bem o cheiro da terra, os ventos e nunca conheceu o desespero da luta! Lavrava tudo à força da enxada. Era um homem silencioso, nunca o ouvi expressar qualquer lamento. Tinha por mim uma paixão especial. Cresceu do nada, trabalhou em Angola (quase como um escravo), como atesta o documento: “Pessoal contratado em Cabo Verde”. Regressou às terras de Cabo Verde, escravo da terra.
Nas férias escolares, depois da feira onde ia vender as sementes, eu ia com ele para Rui Vaz, passar uns dias. Como recordo os caminhos que percorríamos - eu em cima do macho em cima das sacas e o meu avô a pé! O macho sabia que transportava no dorso o neto do Sr. Armando e, talvez por isso, ia sempre certinho, com todo o cuidado, por aqueles tortos e íngremes caminhos de Santa Catarina para Rui Vaz, subindo a Serra do Pico da Antónia. Quase que me atrevo a dizer que o macho tinha o Gps na cabeça...
A alegria que o meu avô demonstrava, quando eu lá estava era tanta que, nos olhos dele se espelhava a felicidade. Das histórias que me contava guardo ainda viva memória e a sua vida tornou-se numa inspiração, pois as dificuldades reais que suportou não lhe conseguiram roubar a fé.
Sou um neto de sorte e com um grande legado pelo qual zelar. Ninguém se compara ao meu avô. Ele é único para mim!
Não há no mundo nenhum ser como o avô Armando, mais conhecido por Sr. Nonô.
Morreu surdo aos 104 anos!
Quarenta anos depois voltei à casa dele; o governo de Cabo Verde ao estilo africano, roubara-lhe uma grande faixa de terreno para fazer uma escola, sem nada dar em troca e, à boleia, um deputado cabrão, deputado da nação, também lhe roubou uma parte do cabeço para construir a casa de férias - vejam só - tendo sido o meu avô impotente para contrariar a situação!
A vida do meu avô passou ao lado dos netos que nem ao funeral foram!
Como dizia, quando lá voltei, o meu avô lá estava sentado, no lugar de sempre, no pátio de uma vida, a tomar ar fresco.
⁃ D. Etelvina, o meu avô como está? Onde está ele?
⁃ Olhe, ele está bem, mas olhe que já não fala nem ouve.
Aproximei-me dele - de olhos fechados, cabeça apoiada na bengala, como quem se quer ir embora desta vida, já que nem o ruído do mundo lhe atormentava a alma.
-Olá, Avô! Estás bom? Sou o Adérito, lembras-te de mim?
Abriu os olhos, abanou a cabeça, dizendo que sim e sorriu.
Dei- lhe um abraço ; outrora forte, agora frágil, apertei-o tanto que senti os ossos dele a quererem desorganizar-se.
A velha e leal companheira de sempre, a D. Etelvina, ofereceu-me cuscus com mel e fui sentar-me ao lado do meu avô.
⁃ Avô, era isto mesmo que eu gostava de comer, quando tinha dez anos! Este sabor a melaço de cana tem uma doçura que me chega á alma. Voltou a sorrir e endireitou as costas. Apesar de desperto, não disse nada!
Quando me despedi, o meu avô chorou.
Vinte anos mais tarde, a terrível notícia. Morrera aos 104 anos.
- Avô, sei que estás a lavrar as terras lá do céu, como o fazias cá na Terra. Guarda um pote de mel para mim e cuscus!
Quando aí chegar, quero ouvir as tuas histórias e andar novamente no teu macho, o tal que me levava certinho de Santa Catarina a Rui Vaz!

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