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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Afinal, aquilo é nosso



Trump acorda, coça o ego, olha para o mapa e decide que hoje quer a Gronelândia. Amanhã, se calhar, o Algarve, e depois, quem sabe, a Rinchoa. O homem deve ter muito açúcar no sangue, só pode.

Os portugueses não disseram nada. Zero. Os patriotários ficaram todos em silêncio. Os heróis da pátria foram todos para a campanha do Ventura e não quiseram saber da ilha do gelo. Era o último bastião da civilização ocidental e está a ser entregue ao imobiliário americano.

Mas calma: tecnicamente, aquilo já é nosso desde 1494. Está no Tratado de Tordesilhas, o acordo em que dois impérios ibéricos dividiram o planeta como quem corta um bolo-rei mal partido.

Daqui para a direita é meu, daí para a esquerda é teu.

A Gronelândia encaixa na perfeição. Se já lá fomos de caravela foi por causa do bacalhau — do frio nem por isso, porque nós sempre tivemos a fábrica de gelo na Serra de Montejunto e nunca precisamos de mexer na nossa reserva congelada.

Trump anda a tentar comprar gelo com dólares quando aquilo é património lusitano congelado. Falta só a burocracia, café curto e um pastel de nata.

O Ventura, esse Napoleão de tasca, criado na incubadora da CMTV, prepara-se para governar com ar solene e discurso de espelho. Um homem “fora do sistema” que vive do sistema, mama do sistema e recebeu milhões do sistema para convencer os ingénuos de que é um rebelde.

Rebeldia patrocinada.

Fala mais alto, logo é líder.

É esta a nova ciência política.

Quando se sentar na cadeira grande, já se conhece o guião: estado de emergência, slogans patrióticos, pose de salvador da pátria. Democracia em versão trailer.

Não é guerra de tanques, é guerra de narrativas. Slogans, inimigos imaginários, factos alternativos. A verdade morre esmagada entre opiniões histéricas.

O mundo joga ao Risiko com armas reais e líderes de plástico. Hoje é a Gronelândia, amanhã é tudo o resto, em promoção geopolítica.

E eu vou buscar os tratados do século XV porque ninguém quer encarar o século XXI.

Mas ao menos dá para rir.

Rir antes que a piada vire decreto.

Se a Gronelândia é nossa, que venha com bacalhau e carimbos.

Porque, se for para enlouquecer, ao menos que seja a rir.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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