Trump acorda, coça o ego, olha para o mapa e decide que hoje quer a Gronelândia. Amanhã, se calhar, o Algarve, e depois, quem sabe, a Rinchoa. O homem deve ter muito açúcar no sangue, só pode.
Os portugueses não disseram nada. Zero. Os patriotários ficaram todos em silêncio. Os heróis da pátria foram todos para a campanha do Ventura e não quiseram saber da ilha do gelo. Era o último bastião da civilização ocidental e está a ser entregue ao imobiliário americano.
Mas calma: tecnicamente, aquilo já é nosso desde 1494. Está no Tratado de Tordesilhas, o acordo em que dois impérios ibéricos dividiram o planeta como quem corta um bolo-rei mal partido.
Daqui para a direita é meu, daí para a esquerda é teu.
A Gronelândia encaixa na perfeição. Se já lá fomos de caravela foi por causa do bacalhau — do frio nem por isso, porque nós sempre tivemos a fábrica de gelo na Serra de Montejunto e nunca precisamos de mexer na nossa reserva congelada.
Trump anda a tentar comprar gelo com dólares quando aquilo é património lusitano congelado. Falta só a burocracia, café curto e um pastel de nata.
O Ventura, esse Napoleão de tasca, criado na incubadora da CMTV, prepara-se para governar com ar solene e discurso de espelho. Um homem “fora do sistema” que vive do sistema, mama do sistema e recebeu milhões do sistema para convencer os ingénuos de que é um rebelde.
Rebeldia patrocinada.
Fala mais alto, logo é líder.
É esta a nova ciência política.
Quando se sentar na cadeira grande, já se conhece o guião: estado de emergência, slogans patrióticos, pose de salvador da pátria. Democracia em versão trailer.
Não é guerra de tanques, é guerra de narrativas. Slogans, inimigos imaginários, factos alternativos. A verdade morre esmagada entre opiniões histéricas.
O mundo joga ao Risiko com armas reais e líderes de plástico. Hoje é a Gronelândia, amanhã é tudo o resto, em promoção geopolítica.
E eu vou buscar os tratados do século XV porque ninguém quer encarar o século XXI.
Mas ao menos dá para rir.
Rir antes que a piada vire decreto.
Se a Gronelândia é nossa, que venha com bacalhau e carimbos.
Porque, se for para enlouquecer, ao menos que seja a rir.
Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

Sem comentários:
Enviar um comentário