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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sente-me assim


Não me perguntes, o porquê  de te escrever...

Quando impera o adeus…
Fecho a porta, viro as costas e sigo em frente…
Como se mergulhasse num imenso mar…
Asfixiada, regresso à superfície …
E finjo, finjo trémula que está tudo bem…
Por sobrevivência…Por orgulho…
Olho para trás, por instinto, ou sofreguidão…À procura… de ti, de nada…
Porque não posso ter, o que não me pertence…
E penso no teu sorriso…No olhar que me desvende…
Na forma irregular de me abraçares….
Na curva do meu corpo quando me agarras e me rodeias a cintura…
Acho sempre que aquele abraço é a concha onde me encaixo, e é ali que julgo pertencer…
Ali sou tua na imensidão do meu ser…Ali sou eu…
Podia alimentar-me daquele abraço…Naquele abraço, podia viver…
Digo para mim que foi a última vez, porque é sempre a ultima vez entre os dois...
Escassos momentos confusos de euforia e pânico…de felicidade e angústia…
De impossível amor…De paixão….
Depois?...
Depois, há sempre o adeus que os espera impaciente no cais de embarque, no terminal do comboio …
O adeus cruel que viola os ponteiros de um tempo injusto que exige e desgasta, como um veneno tóxico, corrói lentamente, sem compaixão...
É a última vez!!...Digo para mim, baixinho…
Perpetuando o instante na memória do tempo, junto dos momentos tão belos quanto efémeros que alimentam a alma, numa vida tão breve e escassa….
Tão frágil…tão ténue….
E assim …te… sinto …
EMA 2014



Experimenta beijar uma pedra...

Pergunto,sim!
Porque me escreves, Ema? Vais ter de mim tudo, na proporção da medida que me deste. A única diferença, para mim, é que esta é a primeira vez que to digo.
Eu não quero que me escrevas mais, só quero que me esqueças, pela primeira vez..
O adeus sempre foi o machado levantado sobre a minha cabeça.
Podes mergulhar no teu mar imenso e quando ficares asfixiada e regressares à superfície, eu já não trabalho no serviço de socorro a náufragos e por isso é bom que te convenças que precisas de uma bóia. Podes fingir, chorar ou gritar! Gritar podes, porque estou surdo, chorar também, que eu estou insensível, fingir podes ainda, porque eu já não vejo nada. Pela primeira vez nada vejo!
Não poderás sobreviver nesta minha concha, porque nela jamais entrarás. "Pombo que bata asa nunca mais volta ao ninho". Perdeste o ninho para outra, foi-te decretada morte por orgulho também e atrás de ti só o abismo; à tua frente só um fio da navalha será teu passadiço, isso te asseguro. Não quero ver o teu corpo, nem sentir a tua cintura. Não me recordo de algum dia ter deixado a porta escancarada para ti. És muito atrevida e ousada por pensares que ainda tens hipótese de voltar a tentear sem redes no trapézio da minha da.
Não, não penses no meu sorriso, porque eu já não me sorrio faz ano e meio e vivo sempre no mesmo filme, tal é a angústia!
O teu adeus foi um acorde de uma viola, que violou os acordos assumidos entre o tempo e os ponteiros do relógio. Vais ter que beber livremente e sem pressa o veneno que me deste a provar. É justo que o ácido, que fabricaste no laboratório do teu ego, te corroa a alma sem piedade. Apenas vou querer deixar uma flor na tua campa, sempre que se cumpra o aniversário do teu adeus, quando estiveres sepultada. Lembras-te como foi? Eu digo-te: - Não quero que me telefones mais! - e também te digo: - Não quero que me escrevas mais. Para terminar, quero regressar ao princípio da tua carta. Queres beijar-me?  - Experimenta beijar uma pedra  e sente-me assim!!!

Aderito Barbosa 2014 
 in olhosemlente

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