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domingo, 18 de janeiro de 2026

A bandalheira e os miseráveis




Quando eu era jovem e vivia em Portugal, aprendi que vestir uma farda militar não era um capricho estético nem era um exercício de vaidade pessoal. Vestir uma farda representava e representa disciplina obediência e serviço ao Estado muitas vezes em condições que a maioria dos cidadãos nunca enfrentou. Quem a envergou sabe o que é viver sob ordens, suportar o cansaço, o medo e a responsabilidade de representar a soberania nacional. A farda não é um adereço político nem um símbolo disponível para quem quer capitalizar a imagem das Forças Armadas para benefício próprio, como Ventura acabou de fazer, numa encenação grotesca e oportunista.

Ser militar não é uma questão de aparência. É uma condição construída com formação, juramento, de bandeira e juramento de fedelidade dentro de um enquadramento legal e submissão a um código disciplinar exigente. Aceitar tudo disposto a servir mesmo quando isso implica abdicar de conforto, segurança e, por vezes, da própria vida. As insígnias e os uniformes existem para identificar quem pertence legitimamente a essa estrutura, não para alimentar farsas públicas de autoridade ou pertença.

Em muitos países democráticos, o uso indevido de fardas militares por civis é tratado como infração. A razão é simples: a farda simboliza o Estado e a sua força legítima. Quando um civil a utiliza sem autorização, apropria-se de um símbolo institucional que não lhe pertence. Em vários ordenamentos jurídicos, esse comportamento pode configurar crime, sobretudo quando existe a intenção de criar uma imagem de autoridade, prestígio ou legitimidade que nunca foi conquistada. Mesmo quando não há condenação judicial, há sempre uma violação ética grave, porque se desrespeita o serviço militar e se engana a opinião pública.

O problema torna-se ainda mais sério quando essa utilização ocorre no campo político. A instrumentalização da imagem militar para fins partidários corrói a separação essencial entre as Forças Armadas e a luta política. A farda não deve servir de cenário para discursos populistas nem de disfarce simbólico para quem nunca esteve sujeito às exigências da vida militar. Quando isso acontece, não é apenas mau gosto. É uma banalização consciente de valores construídos com sacrifício real.

Para quem serviu, para quem carregou o peso do compromisso e da responsabilidade, é ofensivo ver a farda transformada em ferramenta de propaganda. Não se trata de nostalgia nem de corporativismo. Trata-se de respeito por uma instituição que existe para servir o país, não para servir ambições pessoais. A passividade das entidades responsáveis, o silêncio das hierarquias e a complacência das autoridades políticas representam uma falha grave na defesa da dignidade militar.

A farda não é figurino, não é ornamento, não é marketing político. É um emblema de serviço, disciplina e sacrifício. Permitir que seja usada como máscara por quem nunca viveu essa realidade é trair o significado da própria instituição militar e desrespeitar todos os que nela serviram com seriedade.

E por isso, mais do que criticar quem se aproveita da imagem das Forças Armadas, é necessário apontar o dedo aos que o permitem, aos que se calam, aos que fingem não ver. Esses são os verdadeiros responsáveis pela degradação do respeito institucional. Esses são, sem rodeios, os miseráveis.


Adérito Barbosa in olhosemlente.blogspot.com

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