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sábado, 31 de agosto de 2013

Cá dentro




Desbravar montes e vales, ar e vento, rios e cascatas, albufeiras e barragens, era o propósito. Desta vez fiz o que parecia mais sensato. Esqueci as companhias de ocasião, o estrangeiro, os aviões, os transbordos, os bilhetes, os aeroportos as agências e elegi a minha namorada como companheira de aventura. Partimos à descoberta do que é nosso, cá dentro.
 A escolha revelou-se acertada. Além de ela ter aderido à ideia logo à primeira, também se revelou uma extraordinária companheira de viagem. Casas antigas, o gótico, os estilos Manuelino e Barroco, os vitrais e os frescos, as Igrejas, e os monumentos que são as suas paixões. Queijos, enchidos, vinhos verde tinto e branco faziam parte do meu programa. Deixar-me levar na corrente, embriagar-me com o cheiro da floresta e cegar-me com a luz que se vislumbra por entre os ramos. Sonhar com a queda das leves folhas outonais que cobrem as encostas, como um manto pintalgado de amarelo, enchia o meu imaginário.

O poiso escolhido, por força da oferta pela ocasião do meu aniversário, em forma de  “voucher”, foi a Quinta do Lago em Parada do Bouro, um aldeamento de turismo rural incrustado no peito maciço da Serra do Gerês cujo cume faz fronteira com a Galiza. Locais únicos como Bouro; Santuário Nossa Senhora da Abadia, Pousada Santa Maria do Bouro, extraordinário convento transformado em hotel; Albufeira da Caniçada; Pedra Bela; Ermida e Vilarinho das Furnas foram destinos obrigatórios.

Vilarinho das Furnas era uma aldeia antiga, com cerca de 2000 anos, que desapareceu quando Salazar mandou construir a Barragem de Vilarinho. Em consequência disso, a aldeia ficou submersa e a população foi forçada a sair de lá. No tribunal, 40 anos depois, os antigos habitantes ganharam a contenda ao estado e foi-lhes devolvida parte do terreno que circunda a barragem. Quem quiser ver a aldeia submersa, paga 3 euros se for de carro e 1 euro se for a pé. Salazar pode dormir descansado que tem nos antigos habitantes de Vilarinho das Furnas, agora organizados em associação, uns inimigos para o inverno e dos bons! Se eu fosse Salazar deixar-me-ia ficar enterrado e quietinho, porque assim que ele se levantar da sepultura, os antigos habitantes de Vilarinho vão fazer dele um caldo. Para eles, Salazar: é um “filho da puta, um cabrão de merda que nos fodeu a vida" diz o portageiro, enquanto explica os anseios da associação a que orgulhosamente pertence.

Rio Caldo e a sua praia fluvial convidam amistosamente que mergulhe nas suas águas todo e qualquer turista. O majestoso Parque Nacional tem portagem e tudo. Só não tem via verde. Do Gerês, seguindo para nordeste, fomos assomar a Montalegre, terra do presunto, que é servido em fatias grossas juntamente com queijo de cabra meio curado que, acompanhados com um branco fresquinho, cai sempre bem. Foi no restaurante rústico “Tasca do Açougue”, que ladeia o imponente castelo e o turismo, no centro histórico, que provámos estas iguarias.
Saciado o desejo do presunto, chegou a vez de conhecer a minha nova tia Cecília mais conhecida por Cila e que também é madrinha da minha namorada. Dela trago a garantia que em Montalegre, num ano há 6 meses de inverno, 3 de verão e 3 de inferno. Dois copos de água bebi ali, sentado no jardim, enquanto a tia Cila desconfiada metia conversa comigo e me olhava obstinadamente, tentando descobrir algum defeito em mim.
Dali a Chaves, que fica ainda a 70 km, foi um saltinho e sem nos perdermos. A tia,  toda esmerada,  explicara o caminho, direitinho qual Gps. Chegados, fomos ver a casa onde a minha companheira viveu em criança e o defunto Colégio Pica Pau Amarelo, outrora o resplandecente colégio dos meninos bem, mas que hoje está transformado em residência particular.
Para Alfândega da Fé foi um sobe e desce, ao estilo montanha russa, enquanto o sol se preparava para ir dormir. Foram tantos os altos e os baixos que até nos perdemos. Depois de contornar as rotundas de Alfândega, fomos parar ao jardim central. Lá estavam sentados à sombra cinco velhas glórias, na casa dos setentas e tais anos, bem cozidas pelo frio dos invernos e assadas pelos meses do inferno, dizia eu,  lá estavam sentadas à sombra cinco velhas glórias, acompanhadas por um galo, também ele uma glória daquelas bandas, também ele com a pele assada pelo tempo, mas mais velho e cheio de sabedoria. Tomou a dianteira e não deixou as moças responderem às minhas perguntas. Explicou... explicou mais o percurso que eu não devia tomar do que aquele que devia seguir. Esmerou-se para nos ajudar a atinar com o caminho para Cerejais. Mais vaidoso ficou ainda o velhote, olhando pelo canto do olho para as velhas meninas, quando lhe disse que percebera bem as suas sábias orientações. Depois do coro de “boa viagem” entoado pelas velhotas que o velho não conseguiu calar, demos meia volta e lá fomos ao nosso destino.
Cerejais é a terra do meu amigo Teixeira e foi onde pernoitámos.
Com o santuário de Cerejais a olhar para nós, entrámos na casa do Teixeira. Da visita ao santuário, convenci-me do quão crentes são os transmontanos, tudo bem explicado comoventemente pelo Teixeira. Banho, jantar e almoço ali, foi um regalo. A D. Margarida, esposa do Teixeira, mostrou como sabem receber as visitas, os transmontanos.

No dia seguinte, fugimos dali e entrámos pelas entranhas do Douro. Descemos e pelo caminho vimos a dimensão do Douro Vinhateiro que pasma qualquer um. Serpenteando as serras, lá fomos desembocar ao Peso da Régua e à Barragem do Carrapatelo.
Esta Régua não mede mas promove emoções fortes no Hotel River Douro, situado na margem sul do rio, mesmo em frente à cidade. O hotel foi construído com uma característica ímpar. É um edifício moderno que se estende para baixo em vez de ser para cima. Subir para a terra onde estudou o criador d’ O Malhadinhas foi um fósforo.  10 minutos é o tempo para se chegar a Lamego, terra onde se venera Nossa Senhora dos Remédios. Tem umas escadarias para a igreja que nunca mais acabam. Doeram-me as pernas só de olhar para elas. Como havia muita gente a cumprir promessas, achei por bem deixá-los subir em paz. Contornei o monte de carro e cheguei lá acima sem esforço nenhum. A vista é impressionante.


 O romantismo da Régua ficou para trás e seguimos em direção ao Porto. Serpenteámos vales, subimos serra acima, por engano, em vez de termos ido junto ao rio e fomos parar a Penafiel.
Aqui, enquanto recebia orientação de como seguir para Entre-os-Rios, uma carrinha toda apressada que cheirava a emigrantes buzinou e uma loira,  gorduchona,  com a cara vermelha, irritada, sentada no lugar do pendura como se fosse a  rainha do sindicato ou a  filha do presidente das Estradas de Portugal gritou para mim: "não há pisca, ó lavrador???" Fiquei a saber que os lavradores não fazem pisca. Deve ser por o trator agrário não ter piscas. Descemos então para Entre-os-Rios com passagem obrigatório por Marco de Canavezes. Por estradas serranas fomos para Arouca, seguindo-se Oliveira de Azeméis em direção a Mealhada.
A mensagem que quero deixar é a seguinte: com pouco dinheiro foi possível viajar 7 dias pelo norte de Portugal, ver paisagens maravilhosas, visitar excelente locais, com uma gastronomia única. Muita gente gira tem este país! Quem já explorou Portugal sabe do que falo. País pequenino este, mas bonito!
Adérito Barbosa in "olhosemlente"
31 de Agosto de 2013




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